Selton Mello falou conosco um pouco mais sobre ‘O filme da Minha Vida’


Em turnê pelo Brasil, o ator/diretor Selton Mello desembarcou em Salvador, na última quinta-feira (27) a fim de divulgar o seu mais novo longa O Filme da Minha Vida. Inspirado no livro Um Pai de Cinema, do autor chileno Antonio Skármeta, o filme nos leva para os anos 60, na região das Serras Gaúchas, e conta a história do jovem Tony (Johnny Massaro), jovem professor que retorna a sua cidade natal e precisa aprender a lidar com o abandono do pai, as descobertas e inseguranças da vida adulta. “A gente vive um momento péssimo, não só do Brasil, no mundo todo inclusive, e esse filme é uma flor no asfalto. Um presente que eu ofereço ou público, um filme cheio de doçura, um filme importante, um filme necessário” afirma o diretor, que aproveitou e falou um pouco com a imprensa sobre as expectativas do longa, planos futuros e perspectivas para o cinema nacional, e claro o Cinema Sim estava lá para registrar tudo! Confira!

O autor do livro que te convidou para fazer o filme? Como foi isso?
SM – É, eu não conhecia o livro não, foi uma história bastante peculiar, eu não conhecia o livro. O Antonio Skármeta ligou aqui para o Brasil, ele é amigo do Toquinho, fizeram um disco juntos juntos e tal, ele ama o Brasil. E ele queria que o filme fosse filmado aqui, e um amigo dele do sul falou que tem o Selton Mello, que fez um filme chamado O Palhaço, que tem um parentesco com você, na sensibilidade e na maneira de ver o mundo e a arte. Aí ele viu o filme, amou e me procurou. A Vânia Katana, produtora do filme, me ofereceu o livro, achei que fosse trote. Pensei, o cara do Carteiro e o Poeta, um clássico mundial, está me oferecendo um livro? E quando li, eu me encantei, a história é cheia de beleza. E o meu trabalho foi manter a essência do livro, e indo além, porque a linguagem do cinema precisa que eu voasse além das páginas. E ele me deixou super a vontade para criar em cima da criação dele.
Quais foram as suas inspirações para criar os planos como aqueles das flores, da bicicleta?
SM – Quando eu comecei a dirigir, as referências, elas ficam mais evidentes. O meu primeiro filme, é claramente de um fã de John Casavelha, assim, e depois você vai se libertando, eu me sinto mais liberto, como se aos poucos você vai ganhando a sua voz e achando a minha forma de se expressar. O filme começa com uma impressão, pelo afeto, é um livro que me emocionou.
Como foi a escolha do elenco?
SM – Foi muito interessante isso. O Johnny Massaro é espetacular, ele é um dos grandes atores da geração dele. E eu, precisava de um protagonista que tem tudo o que o Johnny tem. Carismático, divertido, comovente, estranho, gato, ele é tudo isso. E eu precisava de um ator que conduzisse a minha história, com essa capacidade que o Johnny tem. A Bruna Linzmeyer também é uma grande atriz, muito expressiva. A Bia Arantes é uma menina linda, com ar de atriz antiga, de Liz Tyler, Ava Gardner, tem um ar de estrela de filme antigo. O Rolando Boldrim, eu estava tentando pegar ele desde O Palhaço, ele não tava animado não, aí no Palhaço ele adorou, e eu escrevi esse personagem para ele. Tem o Vincent Cassel, que já é quase um brasileiro, fala um português super bem, joga capoeira. O pai é um francês que fala português, o Cassel leu a história e falou eu quero, tudo foi se encaixando.
O autor do livro também atua no filme? 
SM – Ele faz o dono do bordel, uma cena que eu criei para ele, e na verdade, o diálogo, quem criou foi ele. Aí eu falei Skármeta, vamos fazer uma cena para fazermos juntos, o autor do livro e o autor do filme juntos.
 
Em uma entrevista recente, você afirmou que atuar é brincar, que é algo muito natural para você. Dirigir é a mesma coisa, ou você está enfrentando algum desafio?

SM – Bom, eu sou ator desde criança. Desde os 8 anos de idade, eu estou completando 35 anos de carreira. Quando eu comecei, se teve uma coisa muito bonita de se começar criança, é que eu aprendi logo de cara, uma coisa bem primária sobre essa profissão, atuar é leve, é a menina que pega a boneca e acha que é a filha dela e brinca, é lúdico, e eu mantenho até hoje como ator, essa leveza no meu trabalho. Atuar para mim é como respirar, eu nem sei o que é não atuar. Então por exemplo o Paco, falando neste trabalho aqui. Eu já sabia como ia fazer ele, eu já escrevia os diálogos dele para a minha embocadura. Como seria a cara dele. Já sabia como ia ser a caracterização dele, não tinha muito mistério. Como diretor sim, exige muito mais a estética, a linguagem, o tempo, depois a montagem, o enorme trabalho, o trabalho com os atores. Se tem uma coisa nos meus filmes todos (que são três), os meus atores estão sempre muito bem nos meus filmes, porque é um ator dirigindo, tem um carinho com os atores, e um jeito de acessá-los, eu sei os atalhos, eu sei as dificuldades, por ser um, eles se sentem acolhidos, porque atrás das câmeras tem um colega que sabem as belezas e as dificuldades do que a gente faz.

Seus filmes falam muito com a relação pais e filhos, desde Feliz Natal. Você acha que é uma preocupação sua? 
SM – Isso é uma pergunta sessão de terapia! Eu venho de um núcleo familiar muito afetivo, eu sou muito ligado aos meus pais e ao meu irmão. E eu acredito que isto é o verdadeiro berço de ouro. Dizem que um diretor faz o mesmo filme a vida inteira, eu to mesmo entrando nesta estatística. Então me interessa falar de família, eu amo mesmo pais, esse filme eu dedico aos meus pais, na verdade tudo eu dedico aos meus pais. Neste filme eu quis cravar isso na tela, como uma tatuagem, para ficar para sempre marcado. Eu sou muito grato a tudo que eles fizeram por mim e pelo meu irmão.
Sobre os burburinhos da sua participação na série da Netflix sobre o lava-jato você confirma? 
SM – Eu estou filmando, to no meio da filmagem, e se chama “O Mecanismo”. É uma série da Netflix que estreia ano que vem, e eu não posso dizer muito sobre isso, por conta do contrato com a Netflix. Mas eu posso dizer que estou feliz em trabalhar com a Netflix, em primeiro lugar eu sou fã, eu assisto tudo, Stranger ThingsHouse of Cards, adoro aquelas séries. E Zé Padilha é um grande diretor, um cara que admiro e de novo ele está fazendo uma história porrada. Eu to achando ótimo participar de uma série que vai de novo ser naquele estilo Zé Padilha de ser, tiroteio para tudo quando é lado, e não sobra nada para ninguém. E é o seguinte, precisamos falar de Kelvin, rsrs.
Diante dessa conjuntura de crise econômica e política, as políticas culturais estão dando conta de acompanhar este novo arvorecer do cinema brasileiro, ou ainda está muito aquém? 
SM  – Estão muito aquém, tempos sombrios, eu nem sei o que vai acontecer daqui para frente, esse filme foi feito numa época em que foi possível fazer. Agora é muito interessante acompanhar streamingon-demand, novas formas de ver, as séries, Youtube, eu sou amigo de alguns dos meninos do Porta dos Fundos e assim, impressionante os que eles fizeram. eu lembro que eles me chamaram para fazer um negócio lá, e eu pensei, quem vai ver? 20 milhões de pessoas! Muito mais que qualquer filme, isso também é atraente, eu fico com vontade de fazer coisas assim, para o Youtube, para o Instagram. Todo mundo está assim hoje em dia. Abrir a mente para novas formas de expressão.
 
Por muito tempo o senso comum colocou o cinema nacional como o cinema da comédia pastelão, e tal, mas agora estamos vendo um cinema em ascensão de um cinema mais subjetivo como o filme O Vermelho RussoA Cidade aonde Envelheço, e agora o seu filme, como você avalia a mudança do cinema nacional, ou ainda falta um longo caminho para o cinema brasileiro se consolidar de fato?

SM – Acho que o cinema brasileiro tem crescido, eu acho que o fenômeno das comédias, não é um fenômeno recente, acredito que está no nosso DNA, desde sempre, MazzaropiOscarito e Grande Otelo, os Trapalhões, que faz parte da minha infância, da minha geração, o brasileiro gosta de rir. Bom, eu fiz o Auto da CompadecidaLisbela e o Prisioneiro, que faz parte da retomada do cinema brasileiro, e grandes sucessos de comedia. Mas tem o espaço para o cinema de invenção cada vez mais, e eu como ator procurei trabalhar um pouco em tudo, sempre gostei da ideia de passear pelos gêneros e estilos.

Quais são as suas expectativas em relação as premiações nacionais e internacionais?
SM – Eu gosto mesmo é de me comunicar, sabe o Chacrinha? Quem não se comunica se trumbica. O meu grande prazer é chegar ao público, fazer com que ele saiba que este filme existe. O que vai acontecer com o filme a gente nunca sabe, né? Eu não imaginava que O Palhaço tivesse a história que ele teve, se a gente tem chance de ser o filme escolhido pelo Brasil? Tem. Mas também, tem belos filmes vindo aí, tem Laís, enfim, grandes filmes, todos eles com grande potencial.