A Guerra Que Salvou a Minha Vida, de Kimberly Brubaker Bradley


“A guerra que salvou a minha vida”, da Kimberly Bradley, tem uma história linda e triste, mas ao mesmo tempo tão bela e inspiradora que você não vai conseguir parar de ler até concluir a leitura.

Publicado pela Editora Darkside, A guerra que salvou a minha vida apresenta um relato comovente de uma menina que passou por difíceis momentos ao lado de irmão durante a segunda guerra mundial. A heroína da história é Ada, uma garota que nasceu com um problema no pé e vive uma vida de escravidão dentro de casa, onde é maltratada pela mãe, que não aceita ter uma filha “aleijada”. Ada não sai de casa e tudo o que sabe sobre o mundo é visto da janela de casa por onde vê a rua do seu bairro e as pessoas que passam por lá. A menina é obrigada a servir a mãe, arrumar a casa, fazer o almoço e não tem direito a boa alimentação ou a trocar uma palavra com qualquer pessoa. Ela também cuida do irmão mais novo, o James, um garoto carismático, que apesar de tudo é mais bem tratado pela Mãe, que alega que ele pode brincar na rua porque é uma garoto normal, que não é capaz de envergonhá-la. Quem cuida de James na maior parte do tempo é Ada, que por viver enclausurada dentro da própria casa desenvolve um sentimento de apego ao garoto, além do amor incondicional que sente por ele. Quando ficam sabendo que está para começar uma guerra e que as crianças estão sendo evacuadas do lugar onde moram na Inglaterra, eles traçam um plano e vão embora juntos. Nesse momento Ada começa a descobrir o mundo, a beleza das coisas e de novos sentimentos até então desconhecidos por ela. Quem diria que uma guerra poderia salvar a vida de Ada?

Existe guerra de tudo quanto é tipo.
A história que estou contando começa quatro anos atrás, no início do verão de 1939. Naquela época a Inglaterra estava à beira de mais uma Grande Guerra, a guerra que está acontecendo agora […] Eu tinha dez anos, […] e não estava nem um pouco preocupada com ela ou com qualquer disputa entre os países. Pelo que contei já deve ter ficado claro que eu estava em guerra com minha mãe, mas a primeira guerra, a que travei naquele mês de junho, foio contra o meu irmão.” (Pág.: 10)

O que pode acontecer quando você não sabe quase nada sobre o mundo que existe além das paredes da própria casa e é humilhada todos os dias pela pessoa que deveria cuidar de você? Que sentimentos podem se desenvolver numa criança de dez anos, que deveria viver sua infância, mas é feita de empregada, é maltratada e humilhada pela pessoa que deveria lhe dar amor? As consequências em resposta para cada uma dessas perguntas estão retratadas de maneira sublime nessa histórica tocante, que nos mostra o cenário de duas lutas: a luta entre os países e a luta interna e desesperadora que acontece na vida de Ada durante a segunda guerra.

Narrada em primeira pessoa, a partir do relato inocente, por vezes revoltado e sensível da grande heroína da história, a narrativa de Bradley contagia e prende o leitor não somente pelo cenário e contexto histórico, como também pela personalidade muito bem construída de Ada e dos demais personagens. O perfil psicológico da personagem principal e do seu irmão é também muito bem trabalhado de modo a despertar o sentimento de empatia no leitor e fazê-lo refletir sobre as batalhas pelas quais uma pessoa passa na vida, independente do momento histórico em que vive. O que é também uma grande sacada: a historia transcende o tempo, pois vivemos guerras constantes durante nossa vida.

“A voz da Mãe ecoou na minha cabeça. Sua porcaria horrorosa! Lixo, imunda! Ninguém quer você, com esse pé horrível! Minhas mãos começaram a tremer. Porcaria. Lixo. Imunda. Eu servia pra usar os descartes da Maggie ou as roupas simples das lojas, mas não isso, não esse vestido lindo. Podia passar o dia inteiro ouvindo a Susan dizer que nunca quisera ter filhos. Mas não suportaria ouvi-la me chamar de linda. (Pág.: 158)”

Os traumas e sentimentos de medo, de Ada, estão espalhados pelo texto. Você é capaz de identificar cada momento de tentativa de se libertar das amarras, dos sentimentos de raiva, de insatisfação da garota. Mas não é só isso. Ada não é só sentimento de medo, ela é força. A garota tem uma inteligência e força de vontade admirável. Ela cai, mas segue em frente. É persistente e corajosa.

Importante também destacar que autora deixa clara a importância de uma boa educação e também mostra o método de ensino de alguns professores da época, que também ainda pode ser visto atualmente. O incentivo à leitura é uma constante na história, que cita algumas obras de sucesso da literatura, com destaque a Peter Pan e Alice no país das maravilhas.

“Fui vesti-lo depois de visitar o Manteira. Sabia que a Suzan ficaria contente, e ela ficou. Escovou o meu cabelo, mas deixou-o solto. e amarrou a fita verde nova na minha cabeça. ‘É a fita da Alice’, ela disse. ‘A garota do seu livro, a Alice, ela usa o cabelo assim.’ (Pág.: 164)

Com uma edição impecável, um trabalho de capa especial e totalmente dentro do contexto da história, “A guerra que salvou a minha vida” é um um grande acerto na literatura contemporânea e é vencedor de vários prêmios importantes, além de estar em primeiro lugar nos mais vendidos do New York Times. O livro também é adotado em várias escolas nos Estados Unidos. A autora já publicou outros livros sendo este o primeiro publicado também no Brasil. Bradley vive com a família numa fazenda nas Montanhas Apalaches.

A guerra que salvou a minha vida é um livro para a família toda. Uma história linda, delicada, tocante, especial. Sem dúvidas a Ada é uma heroína da atualidade, uma inspiração.

Créditos de imagem: Blog Vida & Letras e Darkside