The Breakdown

Título Original: Nguoi Vo Ba Lançamento: 2018 Direção e Roteiro: Ash Mayfair Gênero: Drama Elenco: Le Vu Long, Tran Nu Yen Khe e Mai Thu Huong Maya, mais Nacionalidade: Vietnã
10.0
Pros
História, direção, fotografia.
Cons
-

Foi num belo domingo de sol e Mostra SP que eu assisti A Terceira Esposa, primeiro longa da cineasta Ash Mayfair, e que filme. Já senti o impacto na primeira cena, em que parecia que se eu esticasse um pouquinho o braço, minha mão iria tocar o rosto da protagonista e aquelas cores que ornavam toda a imagem projetada diante dos meus olhos. Era como se eu pudesse sentir a textura em cada detalhe.

O olhar da protagonista, meio receoso, meio de descoberta e curiosidade, meio de distância. Suas vestes, seu penteado, a forma como era conduzida naquele barquinho. Tudo muito simbólico, tudo muito significativo.

O local, a Vietnã rural do século 19, porém se me dissessem que era a de hoje, eu acreditaria. Não há um calendário, não há nenhuma menção específica dos personagens com relação a isso. Há apenas hábitos e costumes de uma sociedade patriarcal, machista e opressora.

Entretanto tudo isso é mostrado pela ótica daquelas que são os objetos de desejo e escravização. Que são criadas e tratadas como seres feitos para não pensar, não ter desejos próprios, apenas seguir comandos, sorrir e atender prontamente aos homens que querem lhe possuir física e psicologicamente. Ah, e claro, sempre abrir as pernas para os desejos, os egos e os interesses dessas figuras, sejam o pai, o marido ou qualquer outro homem na posição hierárquica imposta por eles.  Oh, e como eu poderia me esquecer, parir mais homens para fortalecer essa mentalidade escrota.

Os olhos escolhidos para vivenciar e nos apresentar essa história são os da jovem de 14 anos, May, que vê sua vida se transformar quando ela se torna a terceira esposa de um rico dono de terras. Se inicialmente ela é acolhida, lhe oferecem tudo para que tenha uma vida cômoda e confortável, por outro lado ela começa a sentir a pressão para a conquista de uma posição de liderança entre ela e as outras esposas, considerando que é a mais jovem e  possuidora de uma beleza grande, delicada, tudo parece estar a seu favor, porém não é apenas isso, pois o fator primordial para se estabelecer nessa posição seria dar ao marido um herdeiro homem, algo que não depende apenas dela, está além de desejar e pedir aos deuses.

Todas essas questões vão eclodindo, os conflitos começam a se desenvolver, e a intensidade com que tudo aquilo a impacta vai aumentando cada vez mais. Assim como ao espectador que vai sendo colocado cada vez mais próximo daquela realidade e do que ela significa para cada um dos personagens.

Embora seja um filme sobre o reflexo do patriarcado na vida das mulheres, os homens pouco falam, e quando aparecem suas presenças são colocadas como que um poder que paira e observa à distância, o bastante para induzir todos no caminho que querem. Por outro lado, percebemos que ainda que tudo seja assim, essas mulheres abrem caminho para se expressarem, para encontrarem alguma satisfação, alguma realização e prazer. Cada uma das personagens representa desejos distintos na busca por realizar-se de alguma maneira.

Ash conduziu tudo de uma forma muito sensível e intensa, onde em cada detalhe – e são muitos, considerando que é um filme bem rico neles – é possível perceber o seu cuidado, a sua atenção. É uma história que reverbera e se torna marcante em quem assiste.

E se depois de tudo isso eu já não estivesse suficientemente comovida e feliz por ter tido acesso a uma obra como esta, eu ainda tive a chance de no domingo seguinte sentar e conversar com ela pessoalmente – que esteve por alguns dias em São Paulo para participar na divulgação do filme na Mostra –  num papo que foi tão emocionante, que eu praticamente nem me recordo das palavras que foram verbalizadas – algo incomum para mim – fiquei apenas com a sensação de ter estado com alguém que tá fazendo a diferença nesse mundo, que me compreendia mesmo com meu inglês aprendiz, e que mesmo que não conseguíssemos nos comunicar no mesmo idioma, não era algo que mudaria a conexão e emoção que se estabeleceu ali naquele momento, proporcionada pela sua obra.

Para quem quiser conhecer mais do seu trabalho, estou deixando o link do seu perfil no Vimeo, onde tem alguns de seus trabalhos, como é o caso de Letter to Her.

 

Acredito que a entrevista deve ser disponibilizada em nosso canal em alguns dias.

Fiquem atentos para os próximos trabalhos de Ash Mayfair. Enquanto eu torço para que venham muitos tão ou mais sensíveis e bons como é o caso de A Terceira Esposa.

E como eu disse à ela, espero que além de acompanhá-la com suas obras, que eu também possa reencontrá-la no futuro em outras Mostras e Festivais.

Meu obrigada a equipe da Mostra, em especial a Leila Bourdoukan que proporcionou essa entrevista e ao Henrique Nascimento, que me acompanhou e auxiliou para que tudo fosse feito da melhor maneira.

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