Além da Ilusão | Crítica


O cinema é a arte de compôr através de imagens uma história que envolva e conquiste. E para captar essas imagens, todo um universo é pensado e construído a partir de ideias, objetos, figurinos, pessoas e muitas referências entre outras coisas. Cada um dos profissionais da equipe têm em suas mãos a possibilidade de transformar inteiramente o produto final. Em “Além da Ilusão”, filme da diretora e roteirista Rebecca Zlotowski, que estreia nessa quinta, 27, ela explora como era o processo cinematográfico na França dos anos 30 e o conecta com um outro mundo que requer fé na magia, que é a espiritualidade e mediunidade, através da história de um produtor de cinema naturalizado francês e duas irmãs americanas que estavam em turnê com seu show onde faziam contato com espíritos.

Rebecca mesclou elementos de histórias que realmente aconteceram – não necessariamente na época escolhida para o filme – com ficção para desenvolver seu roteiro. Natalie Portman é a protagonista ao lado de Lily-Rose Depp e Emmanuel Salinger, e é mediante o olhar dela e suas lembranças que vislumbramos os acontecimentos, é tudo incerto, inconclusivo, é como se todos os fatos estivessem envoltos numa penumbra. É como se fosse justamente para que saíssemos da sessão com a sensação de incompreensão que o filme gera, afinal há muitas questões sendo levantadas mesmo quando feitas de forma sutil.

O encontro desses três personagens, muda completamente a trajetória que eles poderiam ter tido, ao mesmo tempo que criam uma relação praticamente familiar, na qual Laura (Natalie) nutre uma admiração e interesse romântico por André (Emmanuel) e ele cuida do bem-estar delas, ele aparenta fazê-lo por estar apenas interessado nas habilidades que ela e a irmã possuem. Ele acaba por querer transformar o dom delas em filme, apresentando assim um novo caminho para Laura, que é ser atriz, o que representa também a possibilidade de ter uma condição financeira melhor. Porém ao fazer isso, ele consegue afastá-la fisicamente da irmã, o que lhe permite ter com Kate (Lily-Rose) algumas sessões particulares sem que Laura saiba, gerando assim um atrito entre as irmãs quando Laura descobre.

André quer revolucionar a maneira de se fazer cinema na época, e quer usar pra isso experiências sobrenaturais, Laura quer conquistar uma vida melhor para ela e Kate, já Kate demonstra querer formar uma família junto deles, cada um com um sonho, cada um com um destino, sem se dar conta de quão breve aquilo tudo pode ser. A diretora inclusive utiliza no cartaz a frase “Você nunca sabe o que está prestes a mudar” e em um dos diálogos tem algo como:”Estávamos vivendo aquilo antes da guerra, sem saber o que viria, porém sempre estamos vivendo antes da guerra”. Isso nos leva a pensar que geralmente somos assim, não nos damos conta da importância do momento presente, de que a palavra escrita agora pode ser a última, ou que o sorriso na despedida, pode ser a última lembrança deixada para alguém ou ainda que ao fechar os olhos seja a última vez que o faça.

Trata-se de um filme muito rico em sua fotografia e atuações, em especial a de Natalie que consegue ser brilhante utilizando apenas um olhar. Embora tenha me causado mais dúvidas e a sensação de ter perdido algo ou ainda a mistura de muitos elementos sem a devida conclusão, creio que seja um pouco essa a sensação de estar vivendo, onde muitas vezes não temos noção de como tantas situações podem se conectar e se resolver. Talvez seja isso que a diretora tentou nos mostrar, algumas coisas passarão sem as respostas que tanto procuramos e desejamos, elas apenas acontecerão. E isso basta.

Título Original: Planetarium

Lançamento: 27 de abril

Direção: Rebecca Zlotowski

Roteiro: Rebecca Zlotowski, Robin Campillo

Elenco: Natalie Portman, Lily-Rose Depp, Emmanuel Salinger

Gênero: Drama

Nacionalidade: França, Bélgica

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