The Breakdown

Título Original: Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald Lançamento: 15 de novembro de 2018 Direção: David Yates Roteiro: J.K. Rowling Gênero: Fantasia/Aventura Elenco: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler, Alison Sudol, Ezra Miller, Jude Law, Johnny Depp, Zoë Kravitz, Carmen Ejogo Duração: 134 min. Nacionalidade: USA
6.0

A autora e roteirista J.K. Rowling se tornou famosa e amada em todo o mundo desde que lançou Harry Potter e a Pedra Filosofal nas livrarias. O primeiro livro da franquia do jovem bruxo foi apenas o começo do que seria uma revolução na literatura mundial e a origem da uma das franquias cinematográficas mais lucrativas da história. Com o fim da história de Potter nas telonas, não demorou muito para que a Warner desse início a uma nova saga baseada no mundo bruxo. Foi quando Animais Fantásticos e Onde Habitam chegou aos cinemas com um roteiro original de J.K. Rowling e a promessa de cinco filmes que se passariam muitos anos antes do nascimento do Menino Que Sobreviveu.

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald se passa meses depois dos acontecimentos do primeiro filme, quando Gerardo Grindelwald (Johnny Depp) foi preso em Nova Iorque. O magizoologista Newt Scamander (Eddie Redmayne) é convocado pelo Ministério da Magia para encontrar e matar Credence (Ezra Miller), o jovem que, por reprimir sua magia durante a infância, se transformou em um Obscurus, criatura repleta de magia negra e com poderes instáveis o suficiente para expor o mundo dos bruxos para os trouxas caso não seja controlada. Newt recusa a tarefa, mas, a pedido de Dumbledore (Jude Law), viaja para Paris com a intenção de proteger o garoto. As coisas se complicam quando Grindelwald foge de sua prisão e volta à Europa com o objetivo de recrutar Credence como parte de seus seguidores, já que acredita que o garoto é a única forma de derrotar seu maior inimigo: Dumbledore.

A história parece simples, mas o roteiro de J.K. Rowling foca não apenas na trama principal, mas em inúmeras tramas paralelas e mal aproveitadas. O ritmo da história é lento, com muitos momentos de diálogo e explicações em excesso. O espectador é obrigado a juntar as peças de um quebra-cabeça confuso cheio de novos personagens e a forma como eles se interligam. Os acontecimentos são baseados em pura coincidência, muitas vezes com situações sem nexo e extremamente apressadas. Claro que J.K. tem total liberdade para criar o que ela quiser nesse universo, mas nesse filme ela extrapola o limite de elementos novos inseridos na trama por pura conveniência e necessidade de fazer as engrenagens da sua história funcionarem.

O roteiro desperdiça a oportunidade de explorar a ambiguidade política e moral dos seus personagens e aprofundar arcos interessantes, como a relação entre Queenie (Alison Sudol) e Jacob (Dan Fogler), o triângulo amoroso de Newt com Leta Lestrange (Zoë Kravitz) e seu irmão Theseus Scamander (Callum Turner) ou até mesmo o envolvimento de Credence com Nagini (sim, a cobra de Lord Voldemort está no filme, interpretada por Claudia Kim). Tudo fica apenas num nível superficial de profundidade, frustrando o espectador que anseia por conhecer mais dessas relações.

Parece que alguns personagens foram adicionados à história apenas para o deleite dos fãs, em um mal explicado e incoerente uso de fan service que o público comum, que não está familiarizado com a saga de Harry Potter, dificilmente vai compreender. Desse ponto de vista, o roteiro entrega um presente para os fãs, com uma chuva de referências e surpresas para os conhecedores do universo bruxo. Novos personagens trazem informações importantes sobre o futuro dos próximos filmes, cenários já conhecidos da saga Potter reaparecem, e antigos personagens assumem papéis extremamente inesperados para a história. É impossível negar que as possibilidades para os próximos filmes são inúmeras e empolgantes.

Apesar de representar papéis mal explorados pelo roteiro, o elenco brilha em entrega e carisma. Redmayne volta a dar vida a um Newt extremamente sensível e adorável. Sua paixão pelas criaturas mágicas é reforçada, enquanto novos bichos são introduzidos na história e sua dedicação a eles é potencializada. Entre os novos personagens, é possível destacar a presença de Zoë Kravitz, que faz uma personagem complexa e dividida entre o passado obscuro de sua família e seu desejo de trilhar um caminho diferente do deles.

Porém, o destaque fica mesmo para Jude Law e Johnny Depp. O primeiro dá vida à um Dumbledore com muita ironia, humor e leveza. É impossível não notar trejeitos do Dumbledore que estávamos acostumados a ver nos filmes de Potter (mesmo com a enorme diferença na aparência dos dois). Já Depp, apesar das polêmicas por trás da sua permanência na produção em virtude de escândalos pessoais, entrega uma atuação mais sóbria do que o seu padrão, dando vida à um vilão manipulador e com grande potencial para ser profundamente explorado nos próximos filmes. Os dois personagens não se encontram no filme, mas já conseguem construir uma química interessante entre si, principalmente quando a relação homoafetiva entre eles é explorada (mesmo que de forma leve).

Em termos técnicos, o filme evolui em qualidade nos efeitos especiais, com criaturas mais realistas, cenários mais grandiosos e cenas de ação com mais magnitude que Animais Fantásticos e Onde Habitam. O design artístico que deu o Oscar de Melhor Figurino para o primeiro filme da saga se mantém no mesmo nível. A sobriedade das roupas no período pós primeira guerra combinam perfeitamente com a fotografia habilidosamente trabalhada do longa em  tons mais escuros e sombrios.

David Yates, que dirigiu os quatro últimos filmes da franquia de Harry Potter e o primeiro filme da saga de Animais Fantásticos, retorna ao papel de diretor sem muita inspiração além do costume de seu trabalho. O diretor, que sempre disse priorizar o psicológico dos seus personagens ao invés de explorar as cenas de ação dos roteiros que adapta, prova seu argumento nesse filme. As cenas de ação são confusas, com excesso de closes, fazendo o espectador se perder várias vezes sobre o que está acontecendo em tela. Isso é uma pena, visto que as cenas de ação do filme tinham potencial para ser muito mais grandiosas.

Com um roteiro confuso e o ritmo de um filme de transição que funciona para interligar capítulos de uma franquia, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald chega aos cinemas com menos fôlego que seu antecessor. J.K. Rowling ainda tem um longo caminho a percorrer para provar que, além de uma ótima escritora de romances, também pode ser uma roteirista de qualidade. Um filme feito claramente para agradar aos fãs sem se preocupar com o restante de seu público pode representar uma perda na força da franquia no imaginário dos seus espectadores. A direção sem muita inovação traz a dúvida se já não teria passado da hora de David Yates deixar a cadeira de diretor do mundo bruxo para alguém que traga mais frescor à franquia. Apesar dos pontos negativos, o filme possui seus pontos positivos ao trazer grandes surpresas para os fãs e apresentar um capítulo mais sombrio que seu antecessor. Vamos torcer para a franquia perceber seus próprios erros e voltar a ter a mágica que uma saga sobre um mundo de bruxos merece ter.

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