Nota:

Título Original: Antes que eu me esqueça Lançamento: 24 de maio Direção: Tiago Arakilian Roteiro: Luisa Parnes Gênero: Comédia dramática Elenco: Danton Mello, José de Abreu, Guta Stresser e Augusto Madeira, Mariana Lima, mais Nacionalidade: Brasil
9.0
Pros
Atuações, história, trilha, fotografia
Cons
-

A cada filme uma experiência que provoca sensações, sentimentos e desperta memórias.

Algumas difíceis de esquecer, outras às vezes já até guardadas escondidinhas entre tantas outras. Porém nunca saímos ilesos de uma sessão, ainda que a sensação predominante não seja positiva, algumas vezes até de arrependimento e desperdício de tempo, outras no entanto nos leva a crer que ainda bem que não deixamos essa chance passar.

E foi exatamente isso que pensei ao me deparar com Antes que eu me esqueça. Como se tivesse sido uma sorte – ainda que ele tenha me feito recordar uma perda dolorosa e a possibilidade de outra iminente – eu ter conseguido ir naquela cabine de imprensa, um convite que surgiu inesperadamente, mas que desde o primeiro momento, apenas por seu título já me cativou e instigou o desejo de assisti-lo.

No longa somos apresentados à história de Polidoro – numa interpretação cheia de sutilezas pelo ator José de Abreu – um senhor nos seus 80 anos, que depois de aposentar-se da carreira de juiz e ficar viúvo, vive sozinho em seu apartamento em Copacabana.

A relação com os filhos não é muito estreita. Enquanto sua filha Beatriz (Letícia Isnard) quer interditá-lo judicialmente por acreditar que ele anda cometendo devaneios a torto e a direito, o filho Paulo (Danton Mello) vive afastado há anos, depois de uma briga logo após a morte da mãe.

Metódico e de alguma forma ao mesmo tempo possuidor de uma certa irreverência, Polidoro decide acabar com a estabilidade de sua confortável vida de juiz viúvo aposentado tornando-se sócio de uma boate de strip-tease.

Isso agrava o ímpeto de Beatriz em interditá-lo judicialmente, conduzindo-os à uma audiência, para a qual seu irmão foi intimado a depor sobre a situação do pai. Entretanto com o afastamento, Paulo é considerado incapaz de opinar sobre as decisões do pai e o juiz então determina que seja feita uma avaliação de Polidoro por Paulo, em encontros regulares entre pai e filho – devidamente fiscalizados pela promotora que representa Polidoro, Maria Pia (Mariana Lima) – forçando uma reaproximação que embora nenhum deles tenha noção, irá transformará suas vidas e o rumo dessa história.

O que se segue são fragmentos de uma relação negligenciada há anos e repleta de mágoa, arrependimento, e feridas que ainda sangram sendo reconstruída, curada e renovada pelos laços que vão além do sangue. É a retomada de um carinho, de uma admiração, de um respeito esquecido no tempo. Tudo isso feito de uma maneira sensível, bonita, divertida e reflexiva, muito bem conduzida pelo diretor, Tiago Arakilian e embalada por belas canções clássicas que parecem ser intrínsecas àquelas vidas assim como ar que respiram, pois permeiam as melhores e piores lembranças desses dois homens.

A sintonia entre José e Danton é forte, e suas cenas provocam empatia e uma melancolia por compreender assim como eles que o tempo que viveram afastados nunca será recuperado, e que agora o tempo a frente é tão frágil quanto a consciência de Polidoro que o está abandonando pouco a pouco desde que foi diagnosticado com Alzheimer. Com a reaproximação do pai, Paulo também se chocou com essa inesperada realidade.

Uma realidade mais comum para muitas famílias a cada dia, como é o caso da minha própria, onde esse mal está caminhando junto há gerações. Talvez até por isso atualmente eu tenha ainda mais o impulso e necessidade de escrever, de registrar meu momentos, seja ainda por fotos, vídeos e áudios. Afinal, o Alzheimer nos leva de nós mesmos, e leva aqueles que amamos antes do tempo, embora seu físico esteja ali, é como se seu espírito já tivesse viajado para um outro tempo e espaço.

Mais do que uma obra audiovisual, Antes que eu me esqueça é um lembrete de que devemos valorizar o que temos, enquanto temos. É também uma espécie de advertência. Somos todos frágeis e passíveis ao tempo. A velhice não significa aposentar-se da vida, não reduz o valor de alguém e é o caminho pelo qual todos iremos percorrer, se não partirmos desta vida antes.

Além de José de Abreu e Danton Mello, ainda temos que destacar a atuação de Augusto Madeira como David, um amigo-irmão de Paulo e de Guta Stresser como Joelma, uma mulher que mesmo com seu tom jocoso na maior parte do tempo, demonstra ser uma observadora nata, que diz muitas verdades de forma bem direta e é capaz de captar e absorver aprendizados de suas vivências.

O filme faz sua estreia hoje, 24 de maio e é uma produção para ser vista com as pessoas que você ama, admira e sentirá sua falta quando não estiverem juntos. Aproveite para convidá-las e vivenciar essa obra nos cinemas. 😉