Antes Que Eu Vá | Crítica


Sabe, hoje de manhã eu acordei querendo mais dez minutinhos na cama, com preguiça de lavar o cabelo nesse friozinho da cidade da garoa, cidade que tem me acolhido há mais de um ano. Como em muitas manhãs desde então, eu acordo e me arrumo pra ir à uma cabine de imprensa. Sendo assim, eu sempre luto com a preguiça, o cansaço e algumas vezes o desânimo, porquê considero oportunidades como essas um presente, uma chance de encontrar um caminho melhor, de viver melhor também. Algumas coisas que nos acontecem diariamente passam batido, outras nos dão a sensação de déjà vu, outras nos irritam, outras nos deixam alegres e outras despertam gratidão. Quem me conhece sabe que sou por natureza curiosa e reflexiva, frequentemente buscando o porquê das coisas, respostas de quem não às possui, reciprocidade onde não há.

E o filme de hoje me despertou o desejo de escrever sobre isso. “Antes que eu vá”, conta parte da vida de Sam (Zoey Deutch), uma garota que morre e fica revivendo seu último dia algumas vezes, como num looping do tempo. Não sei se por uma coincidência da vida, se por ser uma coisa rotineira no trânsito, ainda mais um trânsito intenso e louco como o de uma grande cidade chamada São Paulo, o ônibus no qual eu estava indo pra sessão de hoje quase bateu em um carro há poucos minutos do ponto em que eu deveria descer. Logicamente eu ficaria aliviada e sensibilizada ainda mais considerando o contexto – eu já conhecia o tema abordado no filme e tenho um histórico de filmes no currículo em que coisas semelhantes acontecem e como isso muda o rumo dos personagens – , embora essas situações geralmente já mexam comigo, e fazem com que eu me sinta frágil, impotente e questionando o “E se?”.

Talvez essa urgência que eu tenho de realizar algumas coisas, a ansiedade e a impulsividade decorrente disso seja por medo de não ter tempo o bastante para isso. A proximidade de mais um aniversário parece agravar a situação, porém creio que é parte da minha essência não ser indiferente à vida, àqueles que me cercam ou apenas cruzam meu caminho, ao que leio, ao que vejo ou assisto, ao que ouço, ao que sinto. E com Sam, as coisas tomam esse caminho, embora seja um roteiro com um plot clichê, seu desenvolvimento não fica banal. A utilização de uma jovem de 17/18 anos não o torna apenas mais um drama adolescente, na verdade ao meu ver tem mais a ver com a energia desse momento na vida, onde tudo pode parecer realizável, possível, as atenções não estão voltadas para a finitude da vida, e sim para o futuro incrível que se deseja, as viagens, as festas, a faculdade, os namoros, as alegrias e aventuras surreais que estão sempre à frente.

Baseado no livro – que pretendo devorar e foi presente da editora Intrínseca e da Paris filmes. Obrigada! – a história começa com a protagonista narrando justamente o que ela gostaria de reviver no momento de sua morte – já que dizem que logo antes de morrer, sua vida inteira passa diante dos seus olhos – isso pode soar mórbido e é na verdade, afinal ela já está morta – a questão aqui é, por que não dar mais atenção àquilo que é bom em sua vida? Por que não focar na quantidade de coisas boas que já te disseram ou fizeram por você? Por que não agir com o outro da maneira que você gostaria que ele agisse com você? Por que não respeitar aquilo que é diferente de você ou do que você acredita? Por que não tentar ser mais sensível com e valorizar àqueles que te cercam?

A protagonista ainda diz : “Talvez você possa se dar ao luxo de esperar. Talvez para você haja um amanhã. Um, dois, três ou dez milhões de amanhãs… Tanto tempo, que você possa nadar nele, deixar rolar e enrolar-se nele, deixá-lo cair como moedas por entre os dedos. Tanto tempo, que você possa desperdiçá-lo. Mas, para alguns de nós, há apenas o hoje. E a verdade é que nunca se sabe quando chegará a sua vez.”

E é verdade, não temos consciência de quão breve pode ser nossa vida como a conhecemos e é por isso que devemos – e tento exercitar a cada dia -, enxergá-la em sua melhor perspectiva, tentando acreditar que tudo vai dar certo, que mesmo as coisas ruins podem agregar algo de bom, valorizando as oportunidades e as pessoas que estão conosco no momento, tentando abstrair o que foi ruim e sendo grato pelas coisas boas.

Eu já passei por coisas ruins e ainda passo, todos passam, fato! Mas luto a cada dia para ouvir/ler mais “Eu te amo”, “Sinto sua falta”, “You are the best”, “Você sabe que eu não concordo, mas se você está feliz, se esse é o seu sonho, eu vou te apoiar”, “Você é a melhor filha, e eu agradeço à Deus por ter me dado você”, “Tia Pri”, “A gente não sabe quem a gente leva pro futuro, mas espero que você seja uma dessas pessoas”, “Você não é alguém comum, tem algo de diferente, você é desgravitacional”, “Show! Fico impressionado, você não​ brinca e nem dorme no ponto. Máquina de produção”, “Você foi meu porto seguro”, “Priscila Miguelll, você é genial, a cada dia fico mais fã”, “Obrigada por ser tão amigona. Você eh demais velho. Demais mesmo”, “Priiiiiiii!!’ De repente me bateu uma saudade!!?…Pri tá taaaaaoooo longe…Masss lembrei tbm q a Pri é ótima (e por isso a gente sente saudades❤)”, “Poxa Tenho orgulho danado de você​”, “Amo a sua compreensão”, “Tenho certeza que você vai brilhar”, “Muito obrigada pelo carinho e gentileza”, “O bom seria se a gente pudesse clonar 4 Pris. Aí nã teríamos preocupação” e poder de verdade ser uma pessoa que merece receber essas palavras.

A temática do filme pode ser considerada lugar comum, mas e daí, a vida é lugar comum e cabe a nós transformar essas experiências em extraordinárias. Pegar o que há de bom e modificar o que não for. E é isso que a Sam faz, é assim que ela descobre o poder que tem, é desse modo que ela transforma o que lhe aconteceu de ruim em algo bom. Em pouco mais de uma hora seu personagem consegue despertar interesse, irritação, empatia, respeito e inspiração. É uma história com a qual jovens e adultos podem se identificar, aprender e se emocionar, afinal são acontecimentos e sentimentos pertinentes a ambas as gerações, pois o que com Sam se desenvolve em ambiente escolar, pode se transferido para nossos ambientes de trabalho quando adultos.

Em acréscimo o longa possui uma fotografia que evidencia e enriquece as belas locações, a beleza dos dias chuvosos  com áreas montanhosas cercadas de mata e rio, construções de arquiteturas e belezas distintas que utilizam materiais como madeira, vidro, aço e concreto. Cada uma como que para destacar a energia das pessoas. Por exemplo, a escola em concreto e vidro pode realçar o quanto se está exposto e o quão inóspito pode ser esse ambiente para pessoas que sofrem bullying. Sua localização afastada de outros prédios também gera essa sensação, de isolamento, solidão acompanhada. A direção de arte também fez um excelente trabalho com a paleta de cores, integrando personagens, figurinos, objetos e locações de maneira adequada e atrativa.

Em síntese trata-se de um história interessante, bem desenvolvida, com personagens críveis, sem deixar melodramático e ainda com algumas  referências curiosas – atentar cena Juliette festa – . “Antes Que Eu Vá” chega aos cinemas amanhã, 18 de maio, e pode ser uma boa pedida por entreter e provocar algumas reflexões.

Título Original: Before I Fall

Lançamento: 18 de maio

Direção: Ry Russo-Young

Roteiro: Maria Maggenti, Gina Prince-Bythewood, adaptação da obra de Lauren Oliver

Elenco: Zoey Deutch, Halston Sage, Elena Kampouris, Logan Miller, Kian Lawley, Diego Boneta

Gênero: Drama

Nacionalidade: EUA

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