Atômica | Crítica


Por Aline Souza

aficionada conhecedora de quadrinhos, cinema e música. 

Novembro de 1989 é o mês o e ano do colapso do comunismo na Alemanha. Um agente da MI6 é assassinado carregando uma lista que contém o nome de cada agente secreto trabalhando nos dois lados de Berlim, mas a lista não é encontrada no seu corpo. Lorraine Broughton é enviada pra esse cenário de contra espionagem, tensão social e assassinato pra recuperar e devolver a lista pro MI6. Até muito pouco atrás esse seria trabalho pra um homem, mas não em Atômica, longa que estreia nessa quinta, 31/08, estrelado por Charlize Theron, que também assina como produtora.

Lançada em 2012 The Coldest City é uma graphic novel escrita por Anthony Johnston em parceria com o ilustrador Sam Hart. O autor é bem conhecido do universo Marvel pelas séries Daredevil Season One, Wolverine Prodigal Son e Wasteland, seu trabalho mais premiado.

A adaptação pras telonas ficou a cargo de David Leitch, coordenador de dublês conhecidíssimo de Hollywood, que empresta pra Atômica, sua primeira experiência na direção solo, já que em 2014 ele co-dirigiu John Wick, os longos planos sequência de lutas, características bem marcadas do seu trabalho em blockbusters como os da franquia Jason Bourne ou no clássico cult Clube da Luta e uma percepção da personagem que vai muito além do seu gênero.

O trabalho físico feito com Charlize Theron é visível nos hematomas reais que usa em cena, porém a força da personagem se constrói também no humor britânico, seco, de poucas palavras, e na sua capacidade de discernir quem é quem num ambiente onde todos são agentes duplos. A agente Broughton de Charlize Theron é tão forte física quanto mentalmente.

Adaptações de quadrinhos pro cinema normalmente não agradam aos fãs do gênero, muita coisa se perde ao espremer a história em pouco mais de uma hora e meia, contudo a adaptação de The Coldest City impressiona pela semelhança, nenhum elemento do enredo fica de fora, nenhum evento é suprimido, e algumas das cenas parecem ter emprestado o storyboard das vinhetas originais.

O filme aposta em duas mudanças radicais nas personagens coadjuvantes, James Macvoy faz um agente Percival modernizado, com um visual pós punk e hipster, de atitude agressiva e frenética que espelha bem a esquizofrenia de uma Berlim dividida, prestes a sucumbir. E a personagem de Pierre Lassale dá lugar a Delphine Lassale, interpretada por Sofia Boutella. A mudança de gênero de Lassale aconteceu pela insistência de Charlize Theron em tornar Lorraine bissexual. Quando questionada sobre essa escolha em diversas entrevistas ela disse querer garantir`a personagem um tipo de liberdade sexual que é muito mais associada aos homens no cinema. O romance entre Lorraine e Delphine acabou por render uma cena de sexo quentíssima e humanizar a agente Broughton.

A trilha sonora é um passeio pela música britânica dos últimos 40 anos, vai de Depeche Mode à David Bowie passando por Queen e Blur. A direção de arte faz a marcação dos dois lados do muro, tanto no figurino, quanto nos cenários, caóticos e excessivos na Berlim Oriental, sóbrios e sofisticados na Berlim Ocidental. Um neon saturado substitui o preto e branco noir dos quadrinhos.

Atômica surge em um momento de mudança profunda das protagonistas femininas. Vem na esteira do sucesso estrondoso da Mulher Maravilha que mostra nas bilheterias que o público quer ver mulheres em filmes de ação e que o tempo do protagonismo nas comédias apenas românticas acabou.

As sequências de luta no filme são brutais, na mais longa, que dura quase 20 minutos, são 5 homens atacando uma mulher e a socando repetidamente. Poderia ser desconfortável, mas não é, esse é o ponto de empoderamento dessa Loraine Broughton que transforma um saca rolhas numa arma, e enterra uma chave no rosto de alguém. Ela transita num mundo letal e responde letalmente.

Charlize Theron tira Lorraine Broughton dos quadrinhos pra colocá-la ao lado de Ellen Ripley e Sarah Connor no cinema, no melhor estilo vim, vi e venci, e ainda quebrando dois dentes no set durante as filmagens. Ela abre um caminho pra uma protagonista que é mais que heroica, é real, humana, justamente porque sangra. E muito.

Título Original: Atomic Blond

Lançamento:  31 de agosto de 2017 

Direção: David Leitch

Roteiro: Kurt Johnstad com base na obra de Anthony Johnston

Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, John Goodman, Til Schweiger, Eddie Marsan, Sofia Boutella, Toby Jones

Gênero: Ação, espionagem

Nacionalidade: EUA

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