Nota:

Título Original:  Cartas para um ladrão de livros Lançamento:  Breve Direção:  Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros Elenco: Laéssio Rodrigues de Oliveira Nacionalidade: Brasil Gênero: Documentário
8.0
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Ritmo, direção, incita debate sobre questões importantes
Cont
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A matéria original foi publicada em 01 de novembro de 2017 no Desde agora.

 

“Nós só existimos enquanto alguém se lembra de nós”.  Carlos Ruiz Zafón

 

A história que poderia ter vindo de um livro qualquer, até mesmo de um do escritor espanhol que usei na citação que abre este texto, tem as palavras como elo de aproximação entre protagonista e àqueles que escolheram dar voz a ela.

O documentário Cartas para um ladrão de livros expõe e reflete de maneira quase que secundária, porém instigante, sobre a necessidade de deixar um legado no mundo (tanto no que diz respeito àquele que se tornou o foco das lentes, quanto àqueles que as conduzem) e como isso geralmente é um guia contínuo das nossas decisões na vida, pois afinal qual seria o sentido de estar aqui, se não for para fazer algum sentido. Há de haver um propósito e quando você encontrar o seu, demovê-lo dele estará fora de cogitação.

E como bem disse Zafón, nossa existência depende do nosso legado, de termos feito algo que resiste na memória do outro. E assim o foi com Laéssio Rodrigues de Oliveira, o homem sem poder aquisitivo, que ao conhecer o talento da cantora luso-brasileira Carmen Miranda, começou a nutrir um desejo de possuir tudo aquilo que remetesse a ela na imprensa,  iniciando assim sua carreira como um ladrão de publicações raras. O que começou como alimento de suas ambições pessoais desencadeou na transformação de um homem considerado comum, no principal ladrão de obras raras do país.

Perfil irreverente, que se porta naturalmente bem diante das câmeras, parecendo muito a vontade, ele utilizou-se dos roubos para formar-se culturalmente. As peças para ele não eram apenas moedas de troca, abarcavam também a função de instrumentos catalisadores de conhecimento. Conhecimento do qual ele se orgulha e sabe bem como empregar.

Entre idas e vindas da prisão, cartas, ligações e encontros pessoais, até mesmo dentro de uma dessas penitenciárias pelas quais ele passou, somos conduzidos pelos olhares cuidadosos dos jornalistas e diretores Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros através de tempos e espaços diferentes que compõem o intrigante percurso desse homem.

Os diretores que já possuem outros três documentários de temas tão pertinentes quanto esse – Carne, Osso (2011), Jaci, sete pecados de uma obra amazônica (2015) e Entre os homens de bem (2016) – , visto que a história pessoal do ladrão de livros permeia a história do país, a sua relação e de seu povo com esses patrimônios, geralmente de desconhecimento, desvalorização, falta de uma estrutura de cuidados com restauro e preservação, bem como outras questões sociais, entre elas a realidade carcerária no Brasil, que impõe a reclusão em um mesmo ambiente de criminosos que cometeram crimes tão distintos como é o roubo de obras clássicas raras e assassinatos, podendo assim muito provavelmente comprometer um processo de reabilitação.

A despeito de toda essa trajetória que o transformou em alguém marcado por seus crimes, Laéssio demonstra não se arrepender nem mesmo de uma vírgula, afinal foi tudo isso que o levou a ser reconhecido e agora imortalizado em um filme.

Eu tive a chance de conversar com os diretores Caio e Carlos, logo após a primeira exibição na Mostra Internacional de Cinema São Paulo, que aconteceu na noite da última quinta, 26/10 e ainda por email no dia seguinte com o produtor do documentário, Gustavo Mello da Boutique Filmes, entrevista que vocês podem ler abaixo.

ENTREVISTA

Priscila: Carlos e Caio, eu gostaria que vocês contassem um pouco sobre como nasceu o projeto, que além de documentário também vai se tornar um livro e qual foi o sentimento de ter que falar com alguém que era um criminoso, porém ao mesmo tempo muito culto e que seria o protagonista dessa história?

Carlos: Desde o começo esse personagem já me chamava atenção pelo fato de ter uma trajetória muito “sui generis”, uma pessoa que furta livros raros e que derepente é acusado pela Polícia Federal de comandar inclusive quadrilhas de dentro de presídio. Então, esse personagem sempre me pareceu bastante rico, porém ao mesmo tempo o Laéssio foi representado como um criminoso, a esmagadora maioria das matérias basicamente eram feitas para pichar a imagem dele, o que é natural e esperado, afinal de contas ele cometeu uma série de crimes. Mas, quando eu comecei a entrar em contato com o Laéssio, quando ele me ligou e começamos a trocar cartas, eu percebi que de fato o Laéssio é um personagem muito singular, que a história dele pelo que ele me narrava pelas cartas, pelo que ele me falava pelo telefone era de fato interessante, uma história muito boa e que merecia ser contada pra além das colunas policiais. E quando eu conversei com o Caio – o grande pai do filme é o Caio – ele me disse: “Cara, você pode escrever, fazer matéria, livro, mas  ela rende um filme. Você precisa contar isso num filme.” E como a gente já tinha feito vários documentários em parceria, sendo esse o nosso quarto longa, fez sentido.

Caio: Quando o Carlos me falou da história, eu já achei que era maravilhosa, mas quando a gente sentou com o Laéssio pra gravar a primeira entrevista, a gente até se surpreendeu com a facilidade que ele tem de falar as coisas, e aí realmente tem uma conquista do Carlos pelas palavras ali nas cartas conseguir despertar nele a vontade de falar, e quando ele começou a falar, ele revelou esse personagem que é fascinante. Então a gente até imaginou em fazer um documentário só de entrevistas no começo, já que ele falava com tanta honestidade, inclusive sobre o que ele fez. Mas depois aconteceu um monte de coisas no meio, ele foi preso durante as gravações, foi solto, então o filme foi ganhando esse caráter de documentário de acompanhamento.

 

Priscila: Qual o impacto que vocês já sentem após todo esse período que levou pra fazer o filme – cinco anos no total – e estar se apresentando na Mostra em São Paulo, a reação e perguntas do público? (Teve um debate após à sessão.)

Carlos: Esse é um processo muito longo. O filme estreou no Festival do Rio, agora está aqui na Mostra, vai entrar em cartaz, depois vai pra TV, e assim, o bacana do documentário é exatamente o fato de que ele tem uma vida muito longa. O bacana do cinema é esse tempo, a grande diferença do cinema pro jornalismo, que é a nossa área de origem é justamente o tempo. O tempo que as coisas demoram para serem feitas, mas acima de tudo o tempo que as coisas perduram. Então, enfim, a história do Laéssio está contada pra sempre e eu acho que daqui a alguns anos quando alguém quiser entender a história do Laéssio, se alguém quiser entender, o documentário vai tá aí pra registrar. Enfim, muito além das coisas que as matérias de jornal do dia-a-dia não dão conta.

 

Priscila: Carlos, no início do filme através de uma das cartaz você diz ao Laéssio que não tinha um julgamento formado sobre ele, nem como uma pessoa ruim, nem como uma pessoa boa. Nesse processo todo de fazer o filme, deu pra definir alguma coisa?

Carlos: Cara, o Laéssio num é um santo e ele próprio não se apresenta como tal, ele não é um pobre coitado, até porque ele refuta esse título. Eu acho que pra esse filme no final das contas pouco importa a trajetória do Laéssio como ladrão de obra de arte e livros raros, o Laéssio podia ser um ladrão de qualquer coisa, ter cometido qualquer outro crime. Eu acho que o mais rico do filme na minha opinião é a personalidade do Laéssio, a vaidade do Laéssio. Essa ideia de deixar uma marca no mundo, é uma busca existencial quase. Eu acredito que esse é o grande mérito do filme. É óbvio que a gente precisa contextualizar o que ele fez pra dar dimensão da trajetória criminal dele, mas sinceramente eu acho que ela acaba sendo secundária, pois o Laéssio como personagem ao meu ver é o grande valor do filme.

Priscila: Carlos, como você vê essa semelhança que há de você como jornalista e escritor ter essa necessidade de comunicar uma história e com isso deixar seu legado no mundo, sabendo que o maior desejo do Laéssio da maneira dele também é deixar uma marca assim?

Carlos: Engraçado, que o próprio Laéssio já me disse isso. Esse fato de que, da mesma forma como ele gostaria de deixar uma marca no mundo, é evidente que a gente também quer. A vaidade é de ambos os lados, e é claro que a gente tem vontade de produzir filmes pra deixar nossa marca como autor, como pessoas que estão produzindo cinema, enfim que estão escrevendo sobre isso e registrando o mundo. O bacana é isso, é tentar inverter um pouco as lentes, mudar um pouco o foco, expandir, dar um zoom out na realidade pra que alguns assuntos que são extremamente interessantes não sejam explorados por uma única via, com um viés maniqueísta. É óbvio que o Laéssio é um criminoso que cometeu uma série de crimes que ele precisa pagar por isso, já pagou muito e continua pagando. É evidente que o filme não tem nada a questionar sobre isso, mas ao mesmo tempo eu acredito que é importante mostrar quem é essa pessoa. Sinceramente é uma boa história, eu continuo achando que essa é uma história muito boa pelos personagens envolvidos e pelo próprio Laéssio.

Caio: E assim, o Laéssio ele é uma peça de uma engrenagem mais complexa  e que o filme tem um limite na hora de tratar, mas não dá pra fazer assim, como sempre fizeram de jogar todas as culpas em cima do Laéssio, pois ele tem a sua dose e vai pagar por isso, como já está pagando, mas como diz uma personagem do filme, a Dra Beatriz Kutner, existe uma elite que está acostumada a tratar o passado brasileiro como mercadoria  a ser consumida privadamente, o que é monstruoso.

Carlos: E tem uma coisa importante também a ser dita. O Laéssio já ficou preso quase dez anos, foi condenado de novo a prisão, pode ficar mais um bom tempo na cadeia e lembrar que o Laéssio não está em casa de tornozeleira eletrônica. O filme fala muito sobre nosso país também, as próprias declarações do delegado que a gente colocou no filme, são muito emblemáticas nesse sentido. O Laéssio cometeu crimes e tá pagando por eles, mas outras pessoas que também cometeram esses crimes aparentemente se safaram.

Priscila: Embora sejam jornalistas, por que vocês optaram por fazer um documentário ao invés de uma ficção?

Caio: Primeiro que a nossa praia é documentário, eu nem saberia fazer ficção. E segundo é que a realidade tem esse poder de nos surpreender a cada momento, e embora seja um pouco sacrificante não saber onde isso acaba, mas o documentário tem esse prazer, essa curiosidade de você acompanhar a realidade e não saber onde ela termina. Não cabe roteiro e esse é o grande barato de fazer documentário.

Priscila: Vocês poderiam falar sobre a importância do documentário para o cinema de forma geral, conhecendo a história do cinema no Brasil e considerando o bom momento que esse mercado está tendo?

Carlos: Eu acho que o documentário vive um paradoxo, pois ao mesmo tempo em que o Brasil produz muitos documentários, até por uma questão financeira, pois é de fato mais barato que fazer ficção, porém não só por isso. Eu eu acredito que há na verdade uma vontade de se fazer documentário e que existem muitos bons documentaristas no Brasil, é um gênero que tem status artístico “per se”, e é importante que se diga isso. Porém ao mesmo tempo eu acho que documentário ainda carece de um certo reconhecimento, ao menos na minha visão existe uma cena pro documentário bastante forte, mas essa cena ainda é um pouco nichada e precisa crescer. Então, é o lance de fortalecer mesmo o documentário como gênero cinematográfico importante, bacana, que precisa ser visto e surpreender as pessoas.

Priscila: Gustavo, eu gostaria que você contasse um pouco sobre como se iniciou a parceria com o Caio e o Juliano, que pelo que ouvi comentarem antes da sessão já vem de projeto anterior. E ainda o que especificamente despertou o seu interesse para estar nesse projeto?

Gustavo: Converso com o Caio e com o Caju algum tempo. Já tínhamos ensaiado uma parceria anterior, que acabou não dando certo. Quando eles me contaram sobre o novo filme que estavam planejando e sobre a história do Laéssio, tive certeza que a Boutique deveria produzir aquele documentário. A história simplesmente precisava ser contada e eu e minha produtora queríamos estar à frente desse projeto.

Priscila: Considerando que o documentário instiga o debate sobre a relação que o governo (e até mesmo a população em geral) têm no nosso país com as obras literárias e demais expressões que compõem o nosso patrimônio artístico/cultural, sendo muitas vezes de descaso, desconhecimento e desvalorização, eu gostaria de saber o quanto isso interferiu no processo de captação de recursos, se foi um desafio a mais ou se não foi um diferencial?

Gustavo: Nossos coprodutores e apoiadores sempre acreditaram na força dessa história, desse personagem, e na relevância do tema. Mas principalmente, sempre acreditaram na seriedade do trabalho dos diretores e da produtora. Não encontramos qualquer resistência no momento de financiamento do filme.

 

Priscila: Para você como produtor, qual a importância do filme documental e se é um gênero que interessa a Boutique desenvolver mais no futuro, sabendo que você já tem uma vasta experiência com programas de tv não ficcionais (tendo consciência que trata-se de linguagens distintas e até mesmo de verbas disponíveis) que tocam em questões como males causados pelo uso/consumo de cigarros, como foi no caso do quadro apresentado pelo Dr. Dr. Drauzio Varella no Fantástico?

Gustavo: “Cartas” inaugura a área de Cinema da Boutique. É algo que estávamos planejando há algum tempo e estamos muito felizes que esse documentário incrível esteja inaugurando a nossa carteira. Eu atuo como produtor e diretor na área de não-ficção há mais de 10 anos, embora não exclusivamente nessa área aqui na Boutique. Então é muito natural lidar com todas as possibilidades que o gênero proporciona, sejam os investigativos, realities, quadros para TV aberta ou séries temáticas. Mas atuar numa produção cuja a janela principal são as salas de cinema te leva a tomar decisões diferentes em relação a cronograma, orçamento e distribuição.

 

Priscila: Eu questionei o Caio e o Carlos sobre a vida do documentário após a Mostra SP, sobre a possibilidade de ir para o streaming, mais especificamente a Netflix, levando em conta que a Boutique foi a responsável por 3%, a primeira série nacional na plataforma e sabendo que eles inclusive já possuem documentários originais, portanto podendo ter interesse nessa obra. Eles me informaram que como é uma coprodução entre a Boutique Filmes, Globo Filmes e a GloboNews, a exibição ocorrerá primeiro pela GoboNews e que não têm conhecimento sobre os caminhos seguintes. Você pode falar um pouco sobre, se já tem algo definido quanto a isso?

Gustavo: O filme irá percorrer festivais nacionais até o começo do ano que vem, depois teremos um lançamento comercial em sala de exibição e logo após ele fará sua estreia na GloboNews. Em paralelo ele segue carreira em festivais internacionais. A distribuição em VOD ainda está sendo negociada com alguns interessados, assim como a distribuição internacional. É preciso ter muita calma para tomar as decisões de distribuição, o filme só está no seu segundo festival, ele ainda terá uma longa carreira. Conforme ele for ganhando mais alcance, as decisões serão tomadas naturalmente. E só corrigindo, o documentário é uma coprodução entre a Boutique Filmes, Globo Filmes e a GloboNews.

Obrigada à Marione Tomazoni, à TZM e aos entrevistados. Sucesso pro filme.