Nota:

Data de lançamento: 22 de março de 2018 (1h 50m) Direção: Greg Berlanti Elenco: Nick Robinson, Josh Duhamel, Jennifer Garner, Tony Hale, Katherine Langford, Alexandra Shipp, Logan Miller, Jorge Lendeborg Jr., Keiynan Lonsdale, Joey Pollari, Miles Heizer, Talitha Bateman. Gênero: Drama/Romance Nacionalidade: EUA
9.0

Querido leitor,

essa não é uma crítica como as que você tá acostumado a ler por aqui. “Com Amor, Simon” me tocou das mais diversas formas e eu precisava falar sobre esse filme de uma forma mais direta e pessoal, afinal eu sou gay e essa é uma crítica sobre um filme que fala disso. Portanto não vou escrever uma resenha naquele formato padrão de texto dissertativo. Essa crítica vai ser em primeira pessoa mesmo, como um e-mail (semelhante aos que Simon envia durante a história) ou uma carta, se você for mais das antigas e preferir algo mais tradicional. Não importa. O que importa é que esse texto é mais pessoal e faço questão de enfatizar isso.

Baseado no livro “Simon vs. a Agenda Homo Sapiens”, de Becky Albertalli, a história de Simon segue a regra de muitas comédias românticas e filmes sobre a juventude americana: um garoto, com grandes amigos, morando em um subúrbio de alguma cidade dos Estados Unidos, em pleno ensino médio e vivenciando as primeiras experiências amorosas e sociais da vida. Porém, nesse caso, há um ponto fora da curva, pois o protagonista é gay. Guardando esse segredo de todos, Simon vê a oportunidade de se abrir com alguém quando um anônimo, com o pseudônimo de Blue, posta em um blog da escola desabafando sobre ser gay e não ter coragem de se assumir. Imediatamente Simon assume um pseudônimo para si e começa a trocar e-mails com essa pessoa misteriosa. Os dois trocam confissões, desabafos, relatos e experiências, até o momento em que seus e-mails são lidos por um colega inconveniente que começa a chantageá-lo em troca de ajuda para conquistar uma de suas amigas. Apavorado com o perigo de ser exposto para todos, acompanhamos Simon tendo que lidar com sua própria sexualidade e com as pessoas ao seu redor enquanto tenta descobrir a real identidade de Blue e tenta não ter sua vida escancarada para todos.

O que parece ser uma história simples, traz sutilezas que dão força ao filme e conquistam quem o assiste. Tudo é tratado de forma muito leve, desde a homossexualidade do protagonista, passando por relações familiares e de amizade. O filme não é feito apenas para o público LGBT. As histórias de todos os personagens se conectam e é impossível não se identificar com pelo menos algum deles. Seus dilemas, temores, dúvidas e anseios são os mesmos que qualquer pessoa que já passou pela adolescência já conhece. Porém, o foco principal da trama é o Simon, e isso é o melhor do filme.

Quem é gay sabe o quão assustador é a descoberta da própria sexualidade e o quanto isso gera tensões em nossa vida. A simples ideia de que talvez o mundo nunca nos aceite como realmente somos é o suficiente para nos sufocar e causar uma série de atitudes com o único objetivo de esconder e reprimir essa bomba chamada homossexualidade. Simon toma atitudes desesperadas e impulsivas durante toda a história com esse objetivo. Ele é aquele gay enrustido, que vive dentro dos padrões heteronormativos por medo de ser descoberto até mesmo se escolher uma camisa que pareça ser menos hétero do que o normal e que está sempre sabotando relacionamentos com outras meninas por ter medo de assumir que ele na verdade gosta de meninos. A sensação é que o personagem está sempre nervoso toda vez que algum assunto desse tipo é mencionado. Sua relação com a família, apesar de saudável e feliz, é distante, pois ele vive eternamente tenso para não cometer um deslize que faça com que eles percebam a verdade. E isso é muito comum na vida real. Foi real pra mim por muito tempo e ainda é hoje, em alguns momentos.

O roteiro acerta em usar um tom descontraído para lidar com esse tema, brincando com situações como o primeiro amor, o momento certo de assumir (questionando também a necessidade imposta pela sociedade de fazê-lo), entre outras. Em nenhum momento a sexualidade de Simon é tratada como algo negativo. O que está em foco nessa história são as questões psicológicas dele em aceitar e compartilhar isso com o mundo. Como um reflexo de uma geração muito mais a favor da diversidade e ignorando completamente vários movimentos em favor do conservadorismo e do retrocesso, vemos personagens com mentes muito mais abertas e até militando contra quem pensa de forma contrária, não importa se são jovens adolescentes, membros da família de Simon ou até mesmo professores da escola.

O elenco brilha nesse sentido. Os jovens estão muito confortáveis em seus papéis e emanam a energia que todo adolescente costuma ter, com suas piadas, festas, músicas e cultura pop. Nick Robinson (Jurassic World, A 5ª Onda) dá vida a um Simon enérgico mas ao mesmo tempo contido. Com algumas ressalvas para alguns momentos em que poderia se soltar mais (principalmente uma cena que exige dança do personagem), ele consegue segurar o filme e se dá bem nas cenas mais dramáticas que exigem um pouco mais de emoção. O elenco de adolescentes ainda traz nomes como Katherine Langford e Miles Heizer (13 Reasons Why), Alexandra Shipp (X-Men: Apocalipse), Logan Miller (Antes Que Eu Vá) e Keiynan Lonsdale (The Flash). Existe química entre os personagens e é delicioso acompanhar suas histórias e interações. O elenco adulto dispensa apresentações e é encabeçado por astros como Josh Duhamel, Jennifer Garner e Tony Hale.

A representatividade está presente em todo o elenco assim como na própria mensagem do filme. Se na nossa adolescência éramos obrigados a crescer assistindo comédias românticas completamente heterossexuais, machistas e até mesmo homofóbicas, onde o gay era rebaixado ao posto de coadjuvante, afeminado e caricato amigo das protagonista ou simplesmente servia de chacota para piadas de mal gosto dos héteros, com esse filme nos vemos retratados na tela do cinema e naqueles personagens tendo um gay como protagonista e centro da história e até outros personagens LGBT diferentes dele. Com o tempo, a homossexualidade está deixando de ser um tabu e vem se tornando algo comum no cinema (vide produções recentes com esse foco, como Me Chame Pelo Seu Nome, Moonlight e Hoje Eu Quero Voltar Sozinho). Vemos nesse filme reflexos de nós mesmos, de nossos pais, de nossos amigos. A proximidade das situações que os personagens vivem com nossas vidas chega a ser assustadora, seja para lidar com bullying e comentários maldosos, fofocas e intrigas adolescentes, passando por paixões virtuais (e nem tão virtuais assim) e até mesmo o pavor de ter que se assumir para nossas famílias sem saber se seremos aceitos ou não. Vivi histórias parecidas e foi impossível não me emocionar ao me ver no lugar de Simon.

O trunfo dessa história é tratar do amor em suas diversas formas e nossas loucuras internas em viver sempre em busca dele. No final, a mensagem que “Com Amor, Simon” deixa é que todos nós podemos, devemos e merecemos amar e sermos amados. É o tipo de filme que deve ser assistido, sentido e compartilhado com nossos amigos, familiares e amores. Como diz Simon logo no início do filme, nós somos todos iguais. Temos uma família normal, ótimos amigos, vida comum. Mas todo mundo possui alguma questão a resolver dentro de si. Eu, como o Simon, sou gay e não poderia estar mais feliz com quem eu sou. E não tem nada errado nisso. E você? Qual segredo te impede de mostrar quem você é para o mundo?

Com amor, Felipe. <3

Com Amor, Simon estreia nos cinemas brasileiros, dia 22 de março.

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