Como Nossos Pais | Crítica + Entrevista Laís Bodanzky e Maria Ribeiro


Com o vigor pulsante assim como a música escrita por Belchior e imortalizada pela voz e interpretação de Elis Regina, é Como Nossos Pais, longa da cineasta Laís Bodanzky que faz sua estreia hoje nos cinemas nacionais. Com propriedade Laís discorre e reflete sobre o papéis e necessidades da mulher do seu tempo, através de uma atuação extraordinária de Maria Ribeiro na pele da protagonista Rosa.

Na música, que compõe a trilha sonora e ocupa seu espaço praticamente como um personagem no filme, tamanho o peso de suas palavras e atemporalidade, Elis canta:

“Não quero lhe falar meu grande amor
De coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar”.

E Rosa é assim, uma mulher que não quer apenas sonhar, ela quer viver e ela quer poder compartilhar suas experiências, ela quer ter voz ativa, ela deseja significância, ela é um ser humano que precisa dar vazão à tudo aquilo que lhe instiga sem ser limitada pela sua condição de gênero enquanto mulher ou pelas funções que desempenha como filha, mãe, profissional, esposa. A identidade se apresenta não somente como uma busca inerente à condição ser humano, que à todo momento precisa se descobrir, se autoafirmar, como também um resgate e progresso nas relações que contribuíram e contribuem na sua história pessoal.

Laís constrói de maneira sólida o retrato de uma mulher que está aí, que não se esconde, que questiona, que não se satisfaz e provoca as transformações que anseia. Uma mulher que a todo tempo procura oferecer o seu melhor em tudo que se propõe a fazer, que acumula funções, que tem essa tomada de consciência de que isso não lhe garante em nenhum momento sucesso e reconhecimento, uma mulher que se reconhece como falha, que cobra do outro, porém que sabe que não basta exigir do outro atitude, se não possuir a capacidade de começar por si mesma esse movimento.

Não posso dizer, nem Laís tem a pretensão de colocar Rosa como um retrato da mulher brasileira, pois há a consciência da diversidade existente, contudo é possível afirmar que todas nós – até mesmo de outros países, visto a boa recepção que o filme tem tido no exterior – em diferentes níveis podemos partilhar, nos identificar e compreender muitas de suas problemáticas. As exigências e parâmetros aos quais somos impostas apresentam muitas semelhanças e cada uma de nós ao assistir pode identificar em sua própria realidade questões apresentadas no longa. Laís oferece um olhar e uma fala provocadores, que desperta a atenção e o desejo para aquilo que precisa ser revisto, repensado, reformulado ou criado.

Laís como cineasta se propões e consegue criar obras que refletem a nossa sociedade e as questões pertinentes à ela. Nunca á apenas uma história, é sempre uma apresentação de um recorte importante e necessário. Em seus filmes ela dá voz à quem precisa ser ouvido, respeitado, amado, acolhido. Em seus longas anteriores ela explorou sobre o preconceito com aqueles que sofrem algum distúrbio psíquico; a diferença de idade nos relacionamentos e ainda como o fato de ter passado dos 40, 50 anos não significa o fim da sexualidade, do desejo e das relações afetivas sexuais; homossexualidade; conflito de gerações; a objetificação do corpo feminino; a cultura machista da nossa sociedade e ainda a relação parental com suas expectativas, seus confrontos, distanciamentos e aproximações, esses dois últimos também muito presentes nesse.

“Minha dor é perceber 
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos 
Ainda somos os mesmos e vivemos 
Ainda somos os mesmos e vivemos 
Como os nossos pais…”

Esse trecho da música sintetiza muito bem esse sentimento comum à todos nós, que nos julgamos à frente, diferentes e até mesmo melhores na forma de enxergar e viver nesse mundo do que os nossos pais e familiares, como se desejássemos negar ou nos livrar das características do DNA e as referências e ideologias com as quais não nos identificamos, quando na verdade possuímos tantas semelhanças e muitas vezes até sem nos darmos conta replicamos os mesmos pensamentos e atitudes, que podemos observar tão bem na relação conflituosa de Rosa com sua mãe Clarice – vivida de forma divina por Clarisse Abujamra – e como elas estão sempre batendo de frente, situação que se reproduz nesse momento da sua vida mais especificamente com uma de suas filhas,  Nara (Sophia Valverde). É como se elas sempre estivessem desafiando o poder, o limite uma da outra em ambas as situações, contudo à sua maneira cada uma delas acredita no que está fazendo como algo correto, benéfico para a outra.

Em uma das cenas inclusive há um diálogo que representa bem isso, quando Rosa questiona Clarice sobre suas escolhas dizendo:

“Em nenhum momento você tentou se colocar no meu lugar? Você já parou pra pensar nisso?”

Então ela responde: “Eu só consigo me colocar no meu lugar. Ninguém iria entender por quê eu fiz isso. Você não ia me entender. As pessoas não iam me entender.”

Demonstrando que por mais que você pondere, tenha empatia e consiga compreender o outro e suas questões, de fato você só sabe o que você sente, e até mesmo isso em muitos momentos é questionável. Nós estamos fazendo o nosso melhor e é só o que podemos oferecer, sabendo que isso é variável, não somente conosco como com aqueles que nos cercam.

Laís conta suas histórias explorando detalhes e sutilezas do cotidiano, não apenas do que se pode ver ou ouvir, como também do que está nas entrelinhas e Como Nossos Pais é uma expressão maravilhosa de um tempo e das pessoas que o habitam.

Eu tive a chance e alegria de conversar com a Laís e a Maria sobre o filme e suas questões, que vocês podem assistir no vídeo abaixo.

O meu muito obrigada à Agência Febre, nas pessoas de Carminha Botelho, Ciro Bonilha e Renata Cajado, pela oportunidade. 

Título Original:  Como Nossos Pais

Lançamento:  31 de agosto de 2017 

Direção: Laís Bodanzky

Roteiro: Laís Bodanzky, Luiz Bolognesi

Elenco: Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner, Herson Capri, Sophia Valverde e Annalara Prates

Gênero: Drama

Nacionalidade: Brasil

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