Entrevistamos Flávia Castro, diretora do filme nacional Deslembro que conta a história de Joana (Jeanne Boudier) uma adolescente que residia na França, mas após ser decretada a lei da Anistia no Brasil, ela precisa retornar com a sua família para o seu país de origem. Deslembro foi exibido pela primeira vez no Festival Internacional de Veneza e foi vencedor do 21° Festival de Cinema Brasileiro de Paris. Confira entrevista!

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CS O filme tem uma fotografia clássica e casa perfeitamente com a trilha sonora, remete ao estilo do Rio de Janeiro nos anos 70 durante a ditadura, as vozes dos personagens tem entonações mais baixas, sussurros quase, foi intencional, para criar a atmosfera em que o Brasil estava passando?

Flávia Castro A gente não optou por não fazer uma reconstituição de época do filme, essa parte toda visual é trabalhada de forma bastante atemporal, ainda que tenha alguns pontos marcados para sugerir o tempo que a gente estar, como orelhão, alguns objetos e tal, mas nunca foi minha intenção fazer uma reconstituição de época meticulosa, a fotografia do filme tem dois tempos, um tempo que é Paris e que é mais vibrante colorida, tanto nos objetos na direção de arte, na fotografia e depois vem o Rio invernal, frio, que corresponde muito ao que a Joana está sentindo e está vivendo, então tudo que a gente vê no filme é um reflexo do estado emocional da Joana.

Sobre se a questão se é intencional ou não os sussurros, não é intencional, eu acho que talvez isso venha naturalmente pela situação, dos momentos do passado da Joana, na infância, essas cenas da memória da Joana, em que de fato não se podia falar, porque os pais eram clandestinos, um risco se falar alto. Então por isso esse tom.

CS O longa conta com dois idiomas que conversam em harmonia, o francês e o português, ficou muito bacana na montagem da personagem e sua trajetória, o que você esperava passar com essa mistura?

Flávia Castro A mistura dos idiomas no filme eu acho que é uma coisa que muita gente que vai para o exílio, assim como os refugiados hoje em dia na Europa, e em diversos países, eles vivem isso em suas casas, é muito mais comum do que se imagina. Eles transitarem por diversos idiomas por conta dos exílios forçados. E foi isso que eu quis colocar no filme, uma coisa que fez parte da minha vida, inclusive por razões não políticas, meus filhos por exemplo, tem essa questão do bilinguismo, eles nasceram na França e vieram para o Brasil pequenos. E na minha casa mesmo depois de adulta continuou esta história de se falar várias línguas, sem que isso tivessem relação com política, e sim por pessoas que vieram de diversos lugares, e que tinha morado em diversos países.

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Isso corresponde ao que muitas famílias vivem mundo a fora quando são obrigadas a morar em outro país, a se exilar, assumindo a língua do país, ao mesmo tempo que continuam com a delas.

filme nacional deslembro

CSApesar de Deslembro ser um relato de exilados da ditadura, ele é um filme cheio de doçura. É bonita a trajetória da família de volta ao Brasil e toda a conexão que isso envolve. Você encontrou alguma dificuldade para fazer essa ponte, tratar de um assunto tão doloroso para a história do país de forma doce e suave?

Flávia Castro Eu fico feliz de você ter achado suave, acho que não foi intencional, eu não pensei em fazer um filme leve ou pesado, a questão que me colocava, o que me interessa é sempre a subjetividade dos personagens e a pequena história, o cotidiano, são as relações familiares, então o filme trata muito mais disso do que de fato de política, ainda que ele trata do que se passa no Brasil quando essa história acontece e é o ponto de partida da própria busca da Joana no filme.

CS A sua história de vida está muito marcada pela questão da anistia, pois assim como a personagem principal, Joana, você e sua família voltaram ao Brasil nesse período. Muitos dos elementos encontrados em Joana e sua família também estiveram na sua vida entre a infância e adolescência, como Led Zeppelin, Botafogo de Futebol e Regatas (apesar de você ser gaúcha), entre outros assuntos e elementos que aparecem ou são citados no filme?

Flávia Castro Os elementos do filme alguns são muito próximos de mim e outros não, como o The Doors, o Botafogo na verdade, era porque eu queria que o pai tivesse uma ligação com o futebol, em compensação o Caetano Veloso foi a minha total descoberta muito da língua portuguesa através da poesia dele, das canções, isso foi muito forte para mim e é para o personagem, depois que ela vai se entregando e se interessando pelo Brasil no filme, e a literatura, e não só os livros que estão ali, a música e a literatura.

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CS Muitos brasileiros se exilaram na França durante o período de ditadura militar, como Cacá Diegues, Nara Leão, Samuel Wainer, Juscelino Kubitschek, além do repórter Reali Jr., que escolheu trabalhar como correspondente na capital francesa, para o Estado de S. Paulo e Jovem Pan.

Apesar do grande número de brasileiros em mesma situação, pelo começo do filme, Joana aparentava ter um convívio maior com sua família, sem tantos brasileiros à sua volta.

Era perigoso para os brasileiros se encontrarem em Paris?

Flávia Castro Não era perigoso, os brasileiros em Paris se encontravam muito, inclusive lutavam juntos pela anistia e para poder voltar.

CS Quem foram as pessoas e situações que mais te influenciaram a fazer cinema, sendo elas da área de cinema ou não? Franceses, brasileiros do cinema de vanguarda, brasileiros na França, imigrantes, família?

Flávia Castro O cinema entrou em minha vida porque eu queria escrever e não sabia mais em que língua escrever, Caetano diz “minha língua é minha pátria”, pois eu não tinha pátria nem língua e o cinema entrou nesta fresta.

CS O filme é o único brasileiro em competição na seleção oficial do festival internacional de Veneza, quais são as expectativas e como você lidou com isso?

Flávia Castro A carreira internacional do Deslembro com esse início na seleção internacional de Veneza foi incrível, porque o filme tem uma recepção bastante emocional das pessoas, independente delas entenderem e conhecerem bem a nossa história ou não, tem ali uma coisa que poderia acontecer em outros países, e uma identificação com os personagens, por uma coisas que você falou antes, nas relações familiares, então a recepção do filme em Veneza foi maravilhosa, e depois o filme seguiu viajando e ganhou vários prêmios de público e de crítica, na França, além do Rio.

Então, eu acho que os filmes brasileiros nos último anos têm viajado bastante, têm ido para os principais festivais internacionais, e isso é fruto da política que a gente teve para o cinema na última década e é muito bom estar fazendo parte dessa leva de filmes que leva a nossa história e a nossa memória para o mundo.

Em relação às expectativas, que você pergunta, para mim, a expectativa maior é aqui no Brasil, que o filme seja visto por pessoas jovens, pessoas que não viveram essa época, e como uma forma de lembrar, relembrar que a ditadura existiu no Brasil, e que iremos continuar combatendo essa negação da história que tem sido feita nos últimos anos por aqui.

CS Quais são os seus projetos para o futuro? Algum longa já em produção?

Flávia Castro Estou escrevendo, estou com um projeto novo de longa, que ainda está em gestação e não posso ainda falar, e tem um outro projeto que estou trabalhando que se chama “Retratos de um Homem Invisível” que é uma mistura de documentário com ficção.

O filme de Flávia Castro estreia nesta quinta-feira nos cinemas nacionais e conta no elenco Sara Antunes, Hugo Abranches, Antonio Carrara, Eliane Giordini.