Nota:

Título Original: Edmond Lançamento: 27 de junho de 2019 Direção e Roteiro: Alexis Michalik Gênero: Comédia, Drama Elenco: Thomas Solivérès, Olivier Gourmet, Mathilde Seigner Nacionalidade: França
7.0

Dia desses eu usei em uma conversa a frase já batida, mas nem por isso menos pertinente de que nós somos a somatórias das vivências que temos.

Tudo, cada pequeno detalhe que vivenciamos desde que ainda nem temos uma consciência já formada sobre isso se torna referência e influência no que se sucede.

Sendo assim, achei justo começar por aqui divagando sobre isso, pois nada me escapa mais aos dedos quando começo a escrever, que as experiências, observações e elementos múltiplos que de alguma maneira me chegam diariamente.

Tudo isso, que às vezes é quase banal e aleatório, constroem uma rede infinita de referências se armazenando e se desenvolvendo na criação de uma nova obra, produto, questão, conhecimento e por aí vai.

Dito isso, considero Cyrano Mon Amour hoje nos cinemas – um filme que divaga e explora muito bem todas essas questões, nos conduzindo por uma história, que assim como aquela criada pelo protagonista e seus companheiros, e até mesmo a vida, nossa, diária, não é nada mais, nada menos que uma grande colcha de retalhos, ou como já me utilizei anteriormente, um gigantesco quebra-cabeças.

É como se tudo fosse uma co-criação, onde cada elemento ainda que passivamente também seja responsável pelos rumos que a história toma.

Edmond (Thomas Solivérès) é um jovem poeta, cuja a arte nunca lhe rendeu o tão sonhado reconhecimento pessoal e financeiro que todo artista deseja. Em um momento crítico de desespero, boas intenções e muitas trapalhadas – posso assim dizer – ele acaba transformando uma ideia vaga e muitas situações envolvendo  desconhecidos e amigos no material crucial para a criação de sua grande história.

E aí, você pode pensar: “Mas é claro, ele é o protagonista, com certeza iria se dar bem.” 

E lógico que isso tem sua relevância, contudo é importante ressaltar que é preciso estar atento também aos processo vivido, que o filme consegue nos apresentar de forma bonita, divertida e honesta.

Algo que muitas vezes fica em evidência quando se fala de profissões criativas, é que os criativos criam a partir “apenas” da sua cabecinha cheia de ideias, não se dando conta que na verdade não é bem assim que as coisas funcionam na prática.

Pois é, artistas também precisam de prática e de alimento para a sua criatividade. ou seja, nada acontece magicamente. Existe um um processo a ser vivido. É “Dom”, é “Talento”, contudo é preciso estudo, pesquisa, aprimoramento, lapidação e consciência de que é preciso colocar a mão na massa, não dá apenas para ter aquela ideia mágica e plim! Não, é desgaste, são tentativas atrás de tentativas, é escrever e apagar, é recomeçar, reformular, mudar de ideia vezes e vezes, é encontro, é partilha e claramente, é teste. 

Não existem fórmulas mágicas, pelo contrário, há muitas variáveis. O que existe, isso sim, é uma bagagem que vai sendo construída e testada, passando a ser uma orientação, quando a partir de algo que já funcionou, considera-se portanto que existe a possibilidade de funcionar novamente.

Assim como as formas de bolo, por exemplo. Cada bolo feito numa forma x será “igual”, se colocados lado a lado. todavia olhando mais de pertinho e analisando detalhes, poderemos descobrir um mais inclinado à esquerda, enquanto o outro tem uma leve protuberância ao centro, e um terceiro parece mais rebaixado em uma das bordas. (Vide personagens discorrendo sobre em O Mundo de Sofia)

Podemos dizer isso inclusive sobre nós, que apesar de pertencermos à mesma espécie, somos únicos nas combinações de nossas características e sutilezas. Um DNA, aquele código que nos identifica e difere de qualquer outro ser.

Em Cyrano, que foi inspirado na trajetória do escritor Edmond Rostand, autor de Cyrano de Bergerac, isso também é explorado, mostrando como as características pessoais se bem aplicadas, irão trazer resultados muito melhores, que ficar insistindo em algo sem ter desenvolvido a habilidade necessária.

É na prática que se descobre a viabilidade de qualquer ideia, e Edmond precisou estar no centro nervoso de todo esse processo criativo e prático para alcançar o tão sonhado sucesso que um artista pode desejar. 

Ser ouvido, ser admirado, ser sentido e vivido através de sua arte, de tudo aquilo que ele se esforçou tanto para criar, levar à público e assim deixar a sua marca no mundo.