The Breakdown

Título Original: Deslembro Lançamento: 20/06/2019 Roteiro e Direção: Flávia Castro Gênero: Drama Elenco: Jeanne Boudier, Sara Antunes, Eliane Giardini, Hugo Abranches, Arthur Raynaud, Jesuíta Barbosa, Antonio Carrara e Marcio Vito Nacionalidade: Brasil, França, Qatar
8.0
Pros
Fotografia, direção, atuaçõe, trilha sonora
Cons
-

A ditadura existiu. Foi sofrida e difícil para muitos e muitos. Entretanto, para tantos outros, ela não passa de uma história que de tanto ouvir, parece que sabe, que conhece, e até que lembra.

É difícil dimensionar, ter a real noção do que as pessoas que lutaram contra, e as famílias que os perderam seja por um tempo, seja indefinidamente sentiram e passam até hoje. Afinal muitos foram os desaparecidos que suas famílias até hoje não conseguiram descobrir ao certo o que foi feito deles.

No imaginário e pelos relatos dos que sobreviveram e continuaram lutando por um país mais humano e igualitário para seu povo, sabemos que não houve empatia, muito menos compaixão. O que havia era o poder opressivo daqueles que se intitulavam governo  perseguindo, torturando e reduzindo todo e qualquer cidadão que acreditasse e lutasse por uma ideologia diferente.

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Essa é a história da nossa nação, uma história que não está morta e nem pode ser apagada. Mesmo parecendo distante, especialmente para aqueles que assim como eu já são de gerações posteriores, ela ainda se faz muito presente em nossa rotina. E considerando os acontecimentos recentes em nosso cenário político, diria até uma realidade que avança a passos largos sobre nós.

D e s l e m b r o  é isso, uma somatória de memórias da sua roteirista e diretora Flávia Castro, que ganharam força e novos contornos e detalhes pela habilidade de criar e desenvolver histórias dela, e assim nos apresenta uma perspectiva sobre aqueles anos e seus personagens.

A protagonista Joana (Jeanne Boudier) partilha com a sua criadora as vivências de um exílio e o retorno ao seu país de origem. Segundo Flávia, foi durante a montagem do documentário “Diário de uma busca”, no qual ela retraçava a trajetória do seu pai, militante e exilado político nos anos 70, que absorta por testemunhos, cartas, diferenças entre as suas lembranças com as de outros familiares, que surgiu a vontade de ir mais longe em um trabalho sobre a memória.

Ela indaga: “Quando a infância foi uma sucessão de exílios, fugas, luto e lutas, como será, depois disso, esse momento de transição?”

E é isso que acompanhamos ao assistir ao filme, esse confronto da personagem ao retornar ao país que ela já não reconhece como seu, do qual não lembra nem sente falta. O país e as pessoas sobre os quais ela já ouviu falar vão se materializando enquanto ela tenta se adaptar à essa nova realidade, que ela não quis, mas que se interpõe. Novas pessoas vão entrando em sua vida, e a reaproximação com o passado vai se dando pelas lembranças soltas que se confundem em sua mente.

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Essa confusão também contribui para uma desconstrução da personagem a partir de suas crenças. Da adolescente que está se tornando adulta, enquanto se apropria dessa personificação não somente para si, mas para aqueles com os quais convive. Especialmente com a mãe, com quem tem uma relação por vezes conflituosa, na qual ela tem muitos questionamentos mas é recebida por silêncios, fugas e falas repressivas, como se isso fosse mudar os fatos, ou ainda, proteger a garota deles.

Quando muitas vezes parece também ser uma forma de proteger a si mesma dessas memórias e incertezas que já a machucaram tanto.

D e s l e m b r o, diferente de outros filmes que conhecemos e retratam, relatam os bastidores dessa ditadura, traz a percepção daqueles que ficaram, que tiveram que conviver com as perdas, com o não esclarecimento dessas histórias, dos assassinatos. A percepção daqueles que tiveram que juntar cada pedacinho de si, das informações e da esperança de um dia ter mais do que apenas as vagas lembranças que vão se misturando com e ao tempo. A percepção daqueles que vão tentando se reconstruir, se reerguer, da forma que conseguem.

Tudo isso através de uma fotografia rica em tons acinzentados e terrosos, evidenciando essa mescla de personagens tentando seguir suas vidas no presente ainda que fortemente presos aos acontecimentos passados. A trilha sonora também merece destaque, com sua cadência e pulsar rock bossa samba.

Pra quem se interessou, o longa chega aos cinemas nacionais hoje, e vale esse encontro de uma hora e meia.