Deixa a luz do sol entrar | Um olhar genuíno sobre a luz desse filme


Por Viviane Monteiro

 

Viviane Monteiro é atriz, comunicóloga, fundadora da Cia Lâmina de Teatro e pós-graduada em “Corpo: Dança, Teatro e Performance” pela ESCH-SP.  Curiosa, sensorial e sinestésica, Viviane exercita seu olhar artístico escrevendo sobre tudo o que lhe atravessa.

 

A dificuldade de viver em um mundo verborrágico. Um filme extremamente delicado, feminino, inquieto. Um “bom dia” na peixaria é quase um livro do Freud. As dúvidas, as inseguranças com a aparência, com o sexo, a fantasia do amor ideal, a espera constante do príncipe encantado que vai suprir exatamente todas as necessidades infantis e todas as carências enfiadas goela abaixo de uma mulher. Os questionamentos, a inquietação constante, as explicações para tudo. A dificuldade de entrega. A necessidade de que o outro fale o que você está pensando. A necessidade de que o outro aja por você. Ir de encontro ao que já está estabelecido na nossa cabeça, é muito arriscado, afinal. A dificuldade de se olhar e realmente se enxergar. Quão difícil é bancar uma decisão. E seguir adiante. Bancar as próprias escolhas. Quanta gente envolvida no meio das nossas decisões… “Tem dias bons e dias ruins” o taxista diz, e coloca uma música, com a melhor das intenções, mas tudo o que se quer é saber um pouco sobre o outro. O outro humano. Uma outra pessoa. Ouvir a voz do outro. Ser percebido genuinamente pelo outro. Se perceber através do outro. Um outro tão frágil quanto você. As decisões. As escolhas. As renúncias em prol dos ganhos existenciais e como é difícil… E a cada passo adiante um arrependimento pelo passado que era “perfeito”. Claro. Já estabelecido, já programado, já verbalizado, já explicado, esclarecido.

“Eu sou assim, o outro é assado, assim seguimos, roboticamente. Intimidade construída. Dá trabalho, não sei se quero. É. Não quero. Mas a gente já conhece esse terreno aqui, então que fiquemos nele”. O arrependimento imediato quando todas as nossas projeções não vêm empacotadas em um saquinho de carne, osso e existência.

Um arrependimento seguido de vários julgamentos por ir de encontro a gente.  A busca. A eterna busca por sentir e se entregar. Sentir. Difícil…

Os amigos que sabem tudo e não se dão a nada. Os conselhos bem elaborados freudianamente, gramaticalmente e egoisticamente deles. Aqueles conselhos bem… pueris. As explicações para cada sensação. As explicações para o que não tem explicação.

“Deixe a luz do Sol Entrar” é exatamente sobre não conseguir deixar a luz entrar. Sobre pegar todas as palavras que se conhece a fim de encontrar a luz, porém, permanecer na escuridão com todas elas. Guardadinhas. No seu caderninho existencial do verbo. As palavras. As explicações. Em um saquinho. Sobre não saber como permitir que a luz entre. A luz. Exatamente sobre verbalizar tudo a fim de explicar o que não pode ser explicado. O que só se pode ser sentido. Redundante? Sim. O filme se repete poeticamente em cada piscar de olhos. Poeticamente. Desde um plano fechado em uma mão, passando pela textura do tecido da roupa da personagem, até os sapatos que eles usam. Nunca amei tão profundamente uma redundância. Necessária e urgente neste agora. Cada um com um objetivo na história e todos com as mesmas questões. As relações só podem ser vividas, quando vividas. Segundo após segundo. Aqui. Agora. No momento presente. Em um mundo em que todo mundo sabe tudo, explica tudo e ninguém sente nada. Isto é algo a se olhar e a direção faz isso impecavelmente. Se permitir é realmente uma tarefa a ser exercitada diariamente. Se deixar levar por uma música, até que o amor aconteça naturalmente e coincidentemente quando se veste o par de botas que nos cabe. Aquelas que não nos deixam tão longe do chão. Aquelas que nos deixam mais confortáveis com nosso corpo, do jeito que ele é e com a idade que tem. Aí sim, talvez, as relações verdadeiras – as perfeitas, não existem. As verdadeiras, aconteçam. No ritmo da música, inesperadamente. E o mais engraçado: quando se desce para a pista de dança para dançar consigo. Aí sim as coisas acontecem. Consigo. Talvez esta seja a conexão mais importante. Não digo “uma cegueira sobre si”, falo mesmo de um “se permitir e se reconectar. Consigo”. É pena que só dura alguns segundos até se duvidar do que se sente. Duvidar de si e da intuição e correr logo para um analista para buscar todas as explicações possíveis. Terapia. Astrologia, talvez? Medo do sofrimento. Se sofre por medo de sofrer. Volta-se ao verbo. À palavra. Às explicações. Afinal, sentir é assustador. Sentir é realmente assustador. Corre-se para um outro ser humano, com dificuldades tão profundas quanto às nossas, para dar voltas e voltas e chegar à lugar nenhum. Porque não existe lugar.

O Sol entra pelas frestas dos poros quando se está confortável com as botas, quando se dança consigo e quando não se espera. Só se vive. A atuação impecável de Binoche me fez marejar os olhos. Não consegui chorar. Encontrei um espaço que não sabia que existia dentro de mim. Um espaço para tudo isso. Para olhar com carinho para todos esses medos. A direção é feminina e impecável. O vômito de palavras não sessa até o final do filme. As explicações seguem durante os créditos. Redundantes. Vazias. Ansiosas. Até que a gente para de ler, ouvir ou prestar atenção e pensa: vai viver! A gente começa a se comunicar com a personagem e fala desesperadamente: amiga, vá viver. Ponto. Pare de pensar!

Mas cá estou eu, ironicamente e hipocritamente verbalizando tudo. Escrevendo tudo. Tudo o que senti. Porque há tempos não saía de um filme tão tocada. A sensação era realmente de estar preenchida por um buraco negro no peito. Sim. Preenchida pelo vazio do não saber. Não consegui chorar, nem falar, mas precisava escrever.