Depois da Tempestade | Crítica


“Eu não consegui ser quem eu queria, mas eu vou seguindo em frente.”

Vinda de um país que consegue mesclar e valorizar o antigo e o novo, tradições e novidades tecnológicas, a história de “Depois da Tempestade”, do diretor Kore-eda Hirokazu que faz sua estreia em circuito nacional nessa quinta, 17 de novembro é de uma sensibilidade profunda e pertinente à tudo que nós ocidentais conhecemos deles.

Os japoneses são reconhecidos como um povo forte e com uma tremenda capacidade de se reinventar – com a maior expectativa de vida do mundo – , resiliência poderia ser facilmente definida como Japão. Um país que sofre com grandes desastres naturais todos os anos, como os tufões, tremores de terra, já superou em sua história mais recente um tsunami e ainda os ataques nucleares à Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945, durante a Segunda Guerra Mundial.

E é durante uma noite de tempestade em que o país recebe mais um tufão, o 23º do ano no Japão, que acompanhamos Shinoda Ryota (Hiroshi Abe), um escritor em decadência que tem desperdiçado tempo, dinheiro e suas relações familiares com apostas em jogos de azar, tentando reconquistar esses laços perdidos. Completamente viciado em suas apostas, como se elas fossem as soluções para todos os seus problemas e apegado ao passado no qual recebeu um importante prêmio como escritor, Ryota não consegue se reerguer, porém está sempre em busca de uma forma de fazê-lo, ainda que os caminhos escolhidos por ele não sejam os mais acertados.

Depois da Tempestade

Com diálogos que apresentam questionamentos e afirmativas bem filosóficos como:

“O que você queria ser?

Você é o que queria ter sido?

Eu ainda não sou o que eu queria ser.”

 

“Ninguém alcança a felicidade sem abrir mão de algumas coisas.”

Podemos perceber o quanto as frustrações de sonhos e expectativas levaram um homem que poderia ter valorizado e mantido tudo que teve e conquistado muito mais se perder completamente. Tentando fugir de ser como o pai, um apostador inveterado – já falecido mas que se faz presente através dos diálogos da viúva com seus filhos – que sempre deixou a família em apuros, nosso protagonista acaba por se transformar no mesmo que tanto repudiava.

Depois da Tempestade

Porém Ryota ainda conta com a esperança e fé de sua amorosa e divertida mãe, Shinoda Yoshiko (Kirin Kiki) – uma senhora muito ativa, que está presente nos melhores diálogos, sendo dela o grande destaque do filme, aquela que une e ajuda a todos, sempre com falas sábias e muito bem-humoradas apesar de todas as dificuldades que já enfrentou e enfrenta, aquela que mesmo com todas os golpes da vida se mantem firme e confiante de que as coisas vão melhorar –  e seu filho, o tímido e preocupado Shingo (Taiyo Yoshizawa), uma criança que se encontra dividida entre a vontade de rever os pais juntos, como uma família e o medo de que isso nunca seja possível.

Ryota não é um personagem que desperta simpatia, pelo contrário, em vários momentos o sentimento na verdade é totalmente o inverso. Ao invés de pedir ajuda, ele continua mentindo e enganando aqueles que se importam, se comportando de maneira mesquinha, machista, infantil e egoísta/interesseira. Daí percebemos como muitas vezes podemos nos comportar da mesma forma, pois mais do que aos outros, enganamos a nós mesmos quando cedemos às nossas fraquezas. Ao se agarrar a ideia de que só como escritor ele se realizaria, Ryota deixa passar boas oportunidades de trabalho por considerá-las inferiores, desta forma se afundando mais em dívidas, não tendo condições de se sustentar decentemente, pagar a pensão do filho e auxiliar a mãe já idosa e tão sofrida.

Depois da Tempestade

O filme que participou da seleção oficial Un certain regard do Festival de Cannes e recebeu recentemente o Prêmio da Crítica de Melhor Filme Internacional na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, faz jus a todo esse reconhecimento e vai além de tudo que já foi dito aqui – e que pode até parecer spoiler, mas o filme é muito mais como tudo é apresentado, do que apenas esses fatos já mencionados – , por explorar tão bem e com um olhar tão humano o cotidiano e luta dessa família carente e despedaçada ao tentar se reconectar.

Título Original: Umi yori mo Mada Fukaku
Direção:
Kore-eda Hirokazu 
Roteiro:
Kore-eda Hirokazu 
Elenco:
Hiroshi Abe, Yoko Maki , Taiyo Yoshizawa, Kirin Kiki, Sosuke Ikematsu,

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