Elegia de um crime | A dor transformada em arte


Nota:

Data de lançamento: 14 de março de 2019 Direção: Cristiano Burlan Elenco: Cristiano Burlan Gênero: Documentário Nacionalidade: Brasil Duração: 92 min
7.0

Aos 44 anos, o cineasta gaúcho Cristiano Burlan já perdeu a mãe, o pai e um dos irmãos. E não por motivos fatídicos, mas em condições adversas e, até mesmo, criminosas. Primeiro foi o pai, lembrado no média-metragem Construção, de 2007, cuja morte até hoje não foi esclarecida.

Nascido em Porto Alegre, mas criado na região do Capão Redondo, extremo sul de São Paulo, foi na capital paulista que Burlan perdeu, em seguida, o irmão Rafael Burlan da Silva, de 22 anos, morto por agentes da Polícia Militar do Estado, em 2001, o mesmo Estado que, ironicamente, o premiaria, doze anos depois pelo filme Mataram meu irmão, onde contou a história do irmão morto e as circunstâncias na qual sucumbiu.

Mais uma vez, em 2011, o cineasta enterraria um ente querido, dessa vez a mãe, Isabel Burlan da Silva, assassinada pelo companheiro, Jurandir Muniz de Alcântara, até hoje foragido pelo crime. Assim como das outras vezes, o cineasta não deixou mais esta morte de lado e decidiu eternizá-la em Elegia de um crime, que estreou em 14 de março em São Paulo e, no último dia 28, no circuito nacional. O longa encerra a Trilogia do Luto iniciada por Burlan em 2007.

Ao invés de lamentar ou se afastar das tragédias, em sua mais recente produção, o cineasta faz justamente o contrário, revisitando cada trecho da relação com sua mãe. De forma bastante íntima, despe-se de qualquer armadura que tenha construído em decorrência das perdas e senta com irmãos e outros familiares para ouvir histórias sobre a matriarca e relembrar os momentos de sua morte, algo que, provavelmente, preferiria nem tocar. A experiência, dessa forma, acaba nos abraçando, evocando compaixão e empatia, através da figura de um homem que já sofreu demais. O filme acaba sendo tanto sobre a mãe quanto o filho.

A obra também não esconde que o seu tema central, além da relação, é o feminicídio. Isabel vivia uma relação conturbada com o homem que a matou e o relacionamento seguiu fielmente a cartilha demoníaca que levaria ao crime: primeiro vieram o ciúme o sentimento de posse sobre Isabel, seguidos pelos abusos, os alertas de amigos e parentes para que a mulher se afastasse do parceiro abusivo e, então, o assassinato. Em depoimento à revista Época, afirmou que continua a rodar filmes como Mataram meu irmão e Elegia de um crime com “o desejo de que os filmes toquem, antes de mais nada, em questões muito atuais”. No entanto, “nem tudo cabe num filme ou deve ser mostrado. Se eu colocasse tudo que vivi, soaria inverossímil — nem todo mundo suporta a realidade.”

Elegia de um crime concorre na 23ª edição da Mostra Competitiva É Tudo Verdade, que acontece entre 12 e 22 de abril, em São Paulo e no Rio de Janeiro, e também apresenta outros grandes documentários, como Auto de Resistência, de Natasha Neri e Lula Carvalho, e Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi. Burlan tem a chance de vencer o festival pela segunda vez: em 2013, além do prêmio do Estado, Mataram meu irmão foi eleito como o melhor documentário na edição do festival daquele ano.