Entrevista com Sérgio Machado – “Mais violinos e menos violência”.


O Cinema Sim bateu um papo com Sérgio Machado, o diretor do Filme “Tudo que aprendemos Juntos”. O longa conta a trajetória do músico violinista Laerte que após perder um teste para a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, se vê obrigado a aceitar um emprego de professor de música numa escola em Heliópolis, interpretado pelo ator Lázaro Ramos. “Tudo que aprendemos Juntos” já está em cartaz nos cinemas brasileiros e é uma ótima pedida para o final de semana!

  • Podemos dizer que você e Lázaro são bons amigos e de longa data? Como você pensou nele para o filme?

Sim, somos amigos irmãos. Fizemos muitas coisas juntos, o primeiro teste de cinema do Lázaro, eu que fiz. E uma coisa curiosa, é que apesar disso tudo, de toda essa amizade, ele não foi a primeira pessoa que eu pensei para fazer o filme.

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No primeiro momento eu chamei o Wagner. Mandei para o Lázaro o convite para fazer o papel do melhor amigo do personagem principal. Aí ele falou para mim que este era o personagem da vida dele e ele precisava contar essa história.

Hoje vendo o filme pronto, eu fico pensando “Como é que eu não pensei nisso antes?” Não tinha ninguém igual a ele para fazer o filme. Ele teve uma história parecida, fez parte do Teatro do Olodum, teve um mestre chamado Zebrinha. De certa forma, Lázaro é o que os meninos sonham ser, e os meninos são o que ele já foi.

  • O fato de seus pais serem músicos, e você ter crescido próximo/dentro da rotina da Orquestra da Bahia, influenciou no seu interesse em fazer o filme?

Total. Este é o primeiro projeto que a ideia não veio de mim, quem me convidou foram os irmãos Gullane.

Não foi uma coisa que imediatamente eu topei em fazer. Pedi um tempo para pensar, fiquei uns 15 dias aqui em Praia do Forte na Bahia, para pensar e decidir se ia fazer ou não o filme. Isso tem muita relação com a minha família, meu pai e minha mãe estudavam música aqui na Bahia, fui criado entre violinos e música clássica.

Eu tenho zero talento, acho que pulou uma geração, mas meu filho foi nas filmagens e ficou encantado e disse que queria aprender, eu achei que era história, mas ele leva o maior jeito, está empolgado. E foi convidado a tocar na Orquestra de Heliópolis, e eu vi essas mudanças nele. Como a música transforma.

  • Para você, qual a mensagem principal do filme?

Eu acho assim, que a mensagem principal é que hoje em dia as pessoas estão construindo muros com medo um do outro, separando o rico do pobre, muros simbólicos que separam a música clássica do rap, o que eu mais quero fazer com meu filme é quebrar muros e construir pontes. Talvez o lema do filme seja esse “mais violino e menos violência”, que a música tem o poder de mudar, transformar.

(crédito imagem: Daniel Váina).
  • Quanto do roteiro é baseado no fato e quanto é baseado na obra “Acorda Brasil”?

O que vem de principal da peça, é que a grande transformação do país vai vir quando as pessoas tiverem acesso à cultura, quando tiverem uma melhor educação. E tinha também na peça do Antônio Ermírio, uma espécie de triângulo amoroso do professor e dois alunos, e isso está no filme. É uma mistura da peça e da história real. O cara é um músico que trava, e eu pensei nisso como se fosse eu, e se um dia eu travasse? O filme é um pouco sobre isso, sobre este medo.

  • Percebemos que Lazaro transparece uma afinidade muito grande com o instrumento, como foi essa preparação?  Ele chega a tocar no filme?

Usamos milhões de recursos, desde dublê, computação, é uma soma de técnicas. Ele estudou violino durante dois meses, mas ele tem uma facilidade incrível.

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  • Do seu ponto de vista qual o melhor momento do filme “Tudo que Aprendemos Juntos”?

O melhor do filme é o Lázaro na sala de aula com os meninos. A mágica do filme acontece nestes momentos.

  • Do início da sua carreira até hoje, qual foi o filme/projeto em que mais se identificou e mais te trouxe orgulho em ter feito? 

Não sei, é difícil, ‘Cidade Baixa’ foi um projeto muito forte, esse eu tenho um carinho muito grande e o primeiro ‘Onde a Terra Acaba’. Eu sempre estou interessado no próximo trabalho, o próximo que vem sempre é o que eu mais gosto.

Se for para responder agora seria ‘A Luta do Século’, que irá estrear no ano que vem. E eu não gosto de ver os filmes que eu já fiz, não sou muito saudosista.

  • Se você pudesse premiar um filme brasileiro com um Oscar, qual seria?
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(crédito imagem: Daniel Váina).

Eu adoro ‘Limite‘ do Mário Peixoto e Edifício Master, e os filmes do Eduardo Coutinho.

  • Como você enxerga os mecanismos de financiamento do cinema no Brasil? Quais os pontos positivos e negativos?

Tem uma questão que me preocupa, é mais fácil conseguir o dinheiro para fazer o filme do que para escrever, às vezes você está com um roteiro nem tão bom, mas você consegue dinheiro para fazer.

Mas agora eles mudaram isso, existe agora um negócio chamado Núcleo, eu até estou com um Núcleo aqui na Bahia, com o Lázaro, o Wagner, e duas produtoras.

Com esses Núcleos, eu acho que vai melhorar muito, você ganha um dinheiro para desenvolver o projeto. No governo anterior, na política dos Editais você acabava concorrendo com outros cineastas e acabava perdendo muita coisa boa. O cinema é uma prática coletiva.

  • Sabemos que não é fácil à caminhada para os novos profissionais do cinema no Brasil. O que esse aspirante deve ter para conseguir um dia chegar a uma produção como essa.

Tem um espaço grande, aqui na Bahia menos, mas no Rio e São Paulo tem um espaço grande. E não é fácil em qualquer carreira, dentista, advogado enfim. Acho que precisa de disciplina e perseverança. Depois vem estudar, ver muito filme, se dedicar.

  • Quais as expectativas para a vida de “Tudo que Aprendemos Juntos” nos cinemas?

A expectativa é que seja visto por um maior número de pessoas possível. Todos os lugares que fomos, desde a Suíça até Heliópolis, a reação do público está sendo muito boa.

  • Quando veremos mais um projeto de Sérgio Machado?

Estou terminando um filme que irá falar sobre a trajetória de Reginaldo Holyfield e Luciano Todo Duro, a Luta do Século, que irá lançar agora no início de 2016. E estou filmando um filme chamado O ‘Adeus do Comandante’, inspirado no conto no Milton Hatoum, e estou fazendo também um desenho animado com Walter Salles, ‘A Arca de Noé’. Eu sempre gosto de fazer coisas diferentes, estou sempre variando.

Veja o trailer: