Era o Hotel Cambridge | Crítica


Inaugurado em 1951, com seus 119 apartamentos o Hotel Cambridge, localizado no número 216 da Avenida 9 de Julho foi sinônimo de luxo e sofisticação por vários anos na cidade de São Paulo. Contudo com o crescimento da capital e o êxodo de moradores de alto poder aquisitivo para outras áreas mais desenvolvidas da cidade, a região acabou sofrendo uma grande degradação, o que consequentemente prejudicou a qualidade de vida na região com o aumento da criminalidade, prostituição, e ainda especulação imobiliária, levando não somente o Cambridge, como outros imóveis a serem abandonados e desapropriados pela prefeitura municipal.

Tal realidade acabou atraindo pessoas sem moradia, incluindo refugiados e é um pouco das histórias dessas pessoas que a diretora Eliane Caffé decidiu retratar em seu filme “Era O Hotel Cambridge” que estreia na próxima quinta, 16 de março, levando para as telas uma mescla muito interessante da realidade com a ficção. Segundo a equipe, a preparação do projeto levou dois anos e foi gerido por um coletivo que permitiu transformar todo o edifício (que é zona de conflito real) no set criativo da filmagem. Esse coletivo foi composto por quatro frentes principais: equipe de produção do filme; lideranças da FLM (Frente de Luta pela Moradia); grupo dos refugiados e núcleo de estudantes de arquitetura da Escola da Cidade. Por meio de oficinas dentro da ocupação surgiu a matéria prima para o aprimoramento do roteiro e da direção de arte.

Com um olhar sensível e apurado, Eliane junto à sua equipe – que inclui sua irmã Carla Caffé, responsável pela direção de arte, Luis Alberto de Abreu e Inês Figueiró que contribuíram com o roteiro – , desvendam de uma forma muito audaz uma realidade muito particular e inexplorada, afinal para quem não conhece, a impressão é de que são apenas pessoas mal intencionadas querendo se aproveitar de bens alheios, quando na verdade há muitas outras questões a serem consideradas.

Liderados pela corajosa e determinada Carmen – que assim como outros personagens desta história vislumbraram em São Paulo a chance de uma vida melhor, mas se depararam com a incerteza e insegurança das ruas – , as pessoas que ocupam o edifício são seres colocados à margem da sociedade, que sofrem com o preconceito da população e descaso do governo que cobra mas ainda não consegue oferecer ou manter direitos básicos com qualidade para toda a população como saúde, educação, segurança pública, moradia, emprego.

Embora muitas pessoas – como o próprio filme expõe através de comentários de ódio e discriminação em postagens na internet – enxergam nessas pessoas apenas um mal para a sociedade, esquecendo que tais problemas sociais podem se recair sobre qualquer um de nós, o longa nos mostra como trata-se de uma questão muito mais complexa. Nenhuma das pessoas ali gostam, desejaram ou imaginaram um dia estar nessa situação, contudo uma série de acontecimentos os colocaram nessa posição. Desta maneira o filme alcança os espectadores com as histórias, gera empatia e causa reflexão, como não poderia deixar de ser, afinal trata-se de uma realidade que atinge à todos nós, direta ou indiretamente.

Título Original: Era O Hotel Cambridge

Lançamento: 16 de março

Direção: Eliane Caffé

Roteiro:  Eliane Caffé, Luis Alberto de Abreu, Inês Figueiró

Elenco: Zé Dumont, Suely Franco, Carmen Silva, Isam Ahamad Issa e Guylain Mukendi

Gênero: Drama

Nacionalidade: Brasil

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