#garotas – O Filme | Crítica


Feminismo, liberdade de expressão e sexual, igualdade de gêneros: A mulher nunca esteve tão presente nas discussões de nosso cotidiano. #garotas – O Filme vem para reforçar essa tendência em nosso cinema nacional com um longa que fala de sexualidade de forma aberta, despojada, desconstruindo pré-conceitos e contrastando realidades e ideologias presentes em nossa sociedade. É o tipo de longa que não se faz presente no circuito comercial e traz uma nova faceta para as produções brasileiras.

A história acompanha três garotas de vinte e poucos anos acostumadas a uma vida de muita festa, loucuras e liberdade. Beth (a ótima estreante Giovana Echeverria) acabou de voltar depois de um ano morando em Nova Iorque. Milena (Barbara França) e Karina (Jeyce Valente), suas melhores amigas, aparecem em sua casa para botar o papo em dia e chamá-la para uma balada, afinal é Reveillon e elas precisam comemorar. Mas Beth está diferente e recusa o convite. Já que Beth não vai à festa, suas amigas decidem levar a festa até ela e transformam sua casa em uma grande balada. Enquanto isso, somos remetidos a um ano antes, quando as meninas comemoravam a virada do ano com uma Beth muito menos regrada e muito mais inconsequente. Essa mudança de comportamento gera uma ruptura na amizade do trio.

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Abusando de uma linguagem moderna presente em filmes como Se Beber Não Case e Projeto X, vemos um filme cheio de cortes bruscos, montagem não linear e uma câmera nervosa. Porém o erro está exatamente em abusar desse estilo, jogando o expectador num vai e vem constante de narrativas, graças a montagem paralela, que aos poucos nos mostra o que aconteceu no reveillon de um ano atrás e o que está acontecendo na festa de reveillon atual. O que deveria enriquecer a narrativa, só torna o filme mais lento e às vezes chato, já que os flashbacks não têm função real para o desenvolvimento da trama e só se tornam úteis nos minutos finais do filme.

Mas o filme não erra apenas nos momentos de flashbacks. Ao direcionar o foco da narrativa para os coadjuvantes, o longa esquece que o que importa é contar a história do trio de protagonistas e decide apostar no humor através de situações desnecessárias e piadas sem graça. Personagens como Bernardo (Raphael Logam) e Mateus (Erick Vesch) não só em nada acrescentam à trama principal do filme, como são interpretados de forma fraca e estão no filme apenas para se envolver em piadas sexuais de pouca originalidade e tramas de pouca relevância. Seus papéis poderiam facilmente ser reduzidos ou até mesmo cortados da história.

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Apesar dos problemas, o filme leva o crédito por tratar de temas interessantes e atuais e destacar o papel e importância da mulher nesses contextos. Produções como #garotas – O Filme são bem incomuns no cinema brasileiro ao gerar polêmicas abordando temas sérios de maneira crua, atual e até mesmo um pouco suja. O filme se torna um retrato realista da juventude ao abordar temas importantes alternando entre momentos cômicos e dramáticos, bem como acontece na vida de todo jovem.

O trio de protagonistas é carismático e interpreta bem seu papel. Suas atuações às vezes soam artificiais pelo excesso de gírias, palavrões e pelo jeito descolado que elas agem, mas elas funcionam bem como um retrato da juventude moderna e sexualmente efervescente, e conquistam logo o espectador com seus dramas e suas personalidades tão diferentes através de interpretações bem naturalistas. O contraste narrativo que mostra as duas facetas de Beth, a irresponsável e a certinha, separadas pelos 365 dias, possui apelo dramático para prender a atenção do público, que fica querendo descobrir o que levou a personagem a mudar dessa forma em tão pouco tempo

A trilha sonora também merece destaque pelo tom moderno e jovem, com canções de Matanza, Banda Uó, Mahmundi, Maffalda, Maldit e Painside. A coordenação fica por conta de Rodrigo Gorky, do Bonde do Rolê, com faixas inéditas do grupo, além de uma canção original executada por Danni Carlos.

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Ao final do filme, fica a impressão que o mesmo sabe o que quer expressar, mas se perde em decidir no que focar. Ao misturar o estilo mais sério como o da série Skins, o humor sexual de American Pie e ainda acrescentar uma estrutura narrativa parecida com a de Se Beber Não Case, a produção perde o rumo e se mostra insegura sem deixar claro os seus objetivos. As cenas de humor pouco acrescentam e as cenas dramáticas demoram para acontecer e quando acontecem, são desajeitadas e às vezes soam falsas. Mesmo não abordando todos os seus temas da forma correta, o filme ainda assim representa um marco no cinema brasileiro e deixa em aberto um caminho para que mais produções jovens e questionadoras sejam produzidas em nosso país. Afinal, assim como as protagonistas do filme, nunca é tarde para amadurecer, não é mesmo?

Veja o trailer:

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Ficha Técnica:

Gênero: Comédia Dramática
Direção: Alex Medeiros
Roteiro: Alex Medeiros
Elenco: Alex Nader, Barbara França, Bruno Dubeux, Erick Vesch, Giovana Echeverria, Ingra Liberato, Jeyce Valente, Lazuli Galvão, Maria Carolina Ribeiro, Natasha Sierra, Nicola Siri, Paulo Giardini, Rafael Canedo, Raphael Logam
Produção: Rafael Costa
Fotografia: Alexandre Berra
Montador: Marcio Papel