Homem-Aranha: De Volta ao Lar | Crítica 2 do Filme


Depois de uma trilogia, um reboot frustrado e anos de disputa pelos direitos do uso de imagem do Homem-Aranha no universo cinematográfico da Marvel, finalmente pudemos presenciar sua estreia no time dos Vingadores em “Capitão América: Guerra Civil”. O personagem foi apresentado de forma superficial e como coadjuvante, ficando no ar o gostinho de quero mais e a promessa de um filme solo para o nosso amigo da vizinhança. Agora, Peter Parker finalmente ganha seu protagonismo no MCU com “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”.
A trama se passa algum tempo depois dos acontecimentos de Guerra Civil. Peter Parker (Tom Holland) está de volta à Nova York, onde vive uma rotina que todo garoto de 15 anos super dotado teria em uma escola especial. Porém, quando não está no colégio, ele assume a identidade do Homem-Aranha e busca se consolidar como um grande herói na cidade, com a esperança de chamar a atenção de Tony Stark (Robert Downey Jr.). O Homem de Ferro se tornou uma espécie de mentor para o garoto depois de sua breve missão em Berlim, e desde então Peter almeja se tornar definitivamente um Vingador. Em paralelo a isso, um grande vilão cruza seu caminho na forma de Abutre (Michael Keaton), um criminoso que lucra comercializando armas e equipamentos fabricados com tecnologia alienígena de origem Chitauri, roubados diretamente dos destroços da Batalha de Nova Iorque.
O principal diferencial dessa nova adaptação do Homem-Aranha é o clima do filme e a personalidade de Peter. Diferente dos longas anteriores, aqui vemos um Peter Parker jovem, com seus 15 anos e transitando entre a pré-adolescência e adolescência. Ele tem que lidar com responsabilidades que parecem bobas, mas que afetam diretamente a sua vida pessoal, como as tarefas da escola, a primeira paixão adolescente, sua relação familiar e até mesmo uma necessidade de provar seu valor para uma figura paterna como Tony Stark.
Tony, inclusive, não é um destaque no filme a ponto de roubar o protagonismo, como muitos temiam. Ele entra na história como uma espécie de padrinho, que aconselha e ajuda Peter nos momentos que ele mais precisa. Sua participação faz sentido como a figura paterna que falta na vida de Peter e traz uma enorme conectividade desse filme com o restante do universo cinematográfico da Marvel. Elementos, personagens e cenários vistos em longas anteriores dos Vingadores retornam ou são mencionados para interligar os acontecimentos do passado com a história do Homem-Aranha nesse momento. O roteiro se mostra muito coeso com todo o cenário que já conhecemos em outros filmes dos Vingadores, seja explicando a origem do vilão e suas motivações ou mostrando como a Batalha de Nova Iorque impactou e ainda impacta os moradores de Nova Iorque, a ponto de influenciar a jornada do herói do próprio Peter.
A jornada do herói, inclusive, é o ponto central da trama. Apesar de não ser claramente um filme de origem (afinal, todos já sabem que Peter foi mordido por uma aranha, Tio Ben morreu, ele é órfão, etc), a história ainda assim funciona como uma espécie de origem para o personagem. O Peter Parker desse filme ainda é imaturo, irresponsável e até mesmo infantil. Apesar de ter seus poderes e de já ter trabalhado em parceria com Tony Stark durante Guerra Civil, o Homem-Aranha ainda não faz parte do time dos Vingadores e vive dia após dia tentando provar o seu valor, seja ajudando uma senhora perdida na rua ou impedindo um assalto à banco. O problema é que sua personalidade impulsiva e sua falta de senso de responsabilidade trazem sérios problemas ao personagem ao longo da trama. O Homem-Aranha aqui ainda não tem total controle sobre suas habilidades, muito menos a segurança necessária para usá-las. É muito interessante ver o Peter brincalhão e bem humorado ter que enfrentar seus dilemas e enxergar o mundo real como ele realmente é, assim como todo adolescente que conhecemos. Ser um herói é como ser um adulto: nem sempre é fácil.
O elenco merece destaque nesse momento principalmente por causa de Tom Holland, que consegue transitar bem entre momentos de elevado humor e carisma para cenas que exigem uma atuação mais emocional e séria. As habilidades acrobáticas do ator (que pratica ginástica olímpica desde pequeno) também trazem realidade para algumas cenas de ação sem precisar esconder o rosto, usar dublês ou computação gráfica. Michael Keaton está sensacional como um dos vilões mais interessantes do MCU. Apesar de ter algumas divergências com relação aos quadrinhos, seu personagem tem motivações palpáveis e claras, o que dá um valor maior ao vilão do que apenas ser o “cara que quer dominar o mundo” ou algo do tipo. Marisa Tomei dá vida a uma Tia May muito mais jovem do que estamos acostumados, porém a jovialidade da atriz traz intimidade para a relação que a personagem tem com o sobrinho. Além disso, o elenco inova ao trazer representatividade para o filme graças aos papéis dos colegas de escola de Peter. Vemos personagens negros, latinos e indianos se relacionando entre si. Todos são bem representados sem muitos clichês e possuem uma sintonia muito interessante e leve. A impressão é de acompanhar uma comédia adolescente dentro de um filme de super-herói.
Tecnicamente, o filme é impecável. Os efeitos são de ótima qualidade, a fotografia segue o padrão dos outros filmes do universo compartilhado da Marvel e a trilha sonora de Michael Giacchino ganha destaque, principalmente ao trazer uma nova identidade sonora ao Aranha, sem esquecer do tema clássico do personagem. O único problema do filme é a falta de uma ou mais cenas de ação realmente memoráveis. Nos filmes anteriores do Aranha, tínhamos sempre alguma sequência inesquecível e marcante. Na trilogia do Sam Raimi tivemos momentos clássicos, como o duelo com o Dr. Octopus no trem ou a luta contra o Duende Verde na Queensboro Bridge. Em “O Espetacular Homem-Aranha” tivemos momentos como a morte de Gwen Stacy, a caçada ao Lagarto nos esgotos ou o ataque de Electro na Times Square. Aqui faltou algo realmente marcante que trouxesse algum tipo de inovação para o filme em termos de ação. As cenas são interessantes mas não apresentam nenhum tipo de surpresa, com exceção de um momento no clímax em que vemos o Aranha sendo obrigado lutar em um ambiente pouco propício para o uso dos seus poderes.
“Homem-Aranha: De Volta ao Lar” vem para consolidar o Homem-Aranha mais fiel ao estilo e personalidade do personagem que conhecemos dos quadrinhos até agora. O filme e principalmente o personagem, são extremamente divertidos, sem forçar um humor pastelão ou sem timing. A ligação com o restante do universo da Marvel é forte e muito interessante de observar ao conectar elementos de filmes anteriores com a história desse. Ao final do longa, o espectador com certeza vai ficar com um gostinho de quero mais para continuar assistindo as aventuras do teioso (principalmente depois de uma das cenas pós-créditos – SIM, SÃO DUAS!). Mas para isso, será preciso esperar até Vingadores: Guerra Infinita para poder conferir os novos rumos que o Peter Parker vai tomar como Homem-Aranha daqui pra a frente.

Data de lançamento: 6 de julho de 2017 (2h 14min)
Direção: Jon Watts
Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei
Gêneros: Ação, Aventura
Nacionalidade: EUA
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