Invocação do Mal 2 | Crítica


O gênero do terror tem um grande e simples desafio a ser superado a cada novo filme lançado: assustar. Na história do cinema, grandes filmes tiveram êxito em arrepiar e causar medo em seus espectadores, porém outros falharam nessa difícil tarefa. Brincar com o psicológico de milhões de pessoas, trazendo à tona seus piores pesadelos, sensações e temores não é para qualquer um. James Wan é o tipo de diretor que sabe como contar uma história de terror com perfeição, e sua obra comprova isso através de filmes como Sobrenatural, Jogos Mortais e Invocação do Mal.

Até agora.

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Invocação do Mal 2 se passa anos depois dos acontecimentos assustadores vividos por Ed e Lorraine Warren no primeiro longa da franquia. Agora, no final dos anos 70, o casal de investigadores paranormais busca se afastar dos casos de assombração após uma experiência traumatizante em Amityville. Enquanto isso, uma família passa a testemunhar fenômenos assustadores em sua casa, na Inglaterra. Relutantes, os Warren são convocados pela igreja para investigar o caso e tentar ajudar os Hodgson a se livrar do espírito maligno que aterroriza sua casa.

Durante boa parte do primeiro ato, o longa explora duas linhas narrativas separadas, contextualizando a situação atual de quase aposentadoria dos Warren e, em paralelo, apresentando a família Hodgson e o início das manifestações paranormais que passam a atormentá-la. Talvez esse seja o melhor momento do filme. Ao contar a história dos dois núcleos familiares separadamente e só depois unir os dois, o longa se permite “atrasar” o terror para que o espectador conheça e se familiarize com aquelas personagens e com o cenário em que elas vivem. E quando o terror finalmente começa, entre o primeiro e segundo ato, o mesmo é executado de forma eficiente, apostando em cenas carregadas de tensão, sombras, sons e silhuetas.

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Durante todo a trama, Wan tem o cuidado de explorar e desenvolver seus personagens, excluindo a possibilidade de torná-los descartáveis para o espectador. Assim como visto no primeiro filme, o roteiro alterna cenas de suspense e os sustos com belas cenas e diálogos focados nos dramas vividos por aquelas pessoas em situação tão extrema. Somos apresentados à rotina da família Hodgson, à sua casa e seus problemas, causando uma empatia instantânea com aquelas pessoas que não fizeram nada de grave a não ser estar no lugar errado na hora errada. E aqui vemos uma direção afiada que utiliza a câmera para trazer o público para dentro da história de forma orgânica e imersiva, através de planos sequência, movimentos de câmera incomuns e transições temporais inteligentes. A sensação é que estamos dentro da tela e suscetíveis a todos os acontecimentos que podem acontecer dentro dela.

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A continuação, porém, peca ao tentar superar o seu original. Com um orçamento duas vezes maior, Wan deixa de lado o terror psicológico, tão eficiente na primeira parte do filme, e utiliza mais artifícios de computação gráfica que seu antecessor. Monstros e espíritos gerados por computador se tornam frequentes entre a metade do segundo e todo o terceiro ato do longa, na tentativa de criar cenas mais grandiosas e perigos maiores. O diretor parece não perceber que explorar a imaginação do espectador pode ser muito mais assustador do que mostrar de forma exaustiva criaturas bizarras e monstros de CGI. Tal exposição gráfica causa um sentimento de artificialidade que quebra o medo de quem assiste ao filme, pois a pessoa passa a ver muito e imaginar menos.

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Apesar do sensacionalismo em alguns momentos, o longa é eficiente em contar uma história coesa e que prende o espectador. Baseado em fatos reais e no famoso caso do Poltergeist de Enfield, o longa toma liberdade para assumir um caminho próprio para contar sua história. A começar pelo fato de que, na vida real, Ed e Lorraine tiveram uma participação mínima nas investigações, que não foram concluídas e levaram ao veredito de que os acontecimentos vivenciados pela família Hodgson foram uma farsa. No filme, porém, eles não só são os protagonistas do caso, como encontram uma explicação diferente (e um pouco confusa) para os eventos investigados.

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Apesar de seus pontos negativos, o filme é feliz em explorar todo clima do fim da década de 70. A trilha sonora é extremamente angustiante e tenebrosa, com algumas surpresas, ao apresentar músicas de Elvis e de pop/rock da época. A fotografia, apesar de simples, acerta ao apostar em tons de cinza, que remetem ao urbanismo do cenário onde se passa a história, sem cair no clichê de escurecer os ambientes e as cenas para aumentar a tensão. Algumas das cenas mais arrepiantes acontecem durante o dia, com a luz iluminando todo o cenário. O design de produção e figurino reproduzem fielmente toda a realidade de uma família inglesa humilde, bem como os cômodos e a casa do mais documentado caso de Poltergeist da história. Diversas passagens do filme são reproduções quase exatas de cenas, diálogos, cenários e imagens registradas do caso original.

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Entre o elenco, os destaques ficam para Vera Farmiga e Patrick Wilson, que possuem uma química ainda mais crível que no primeiro longa, interpretando o casal Warren. Farmiga entrega uma Lorraine ainda mais emotiva e sensitiva que consegue causar calafrios e ao mesmo tempo afetar o emocional do público com seus dilemas e temores. Entre o núcleo dos Hodgson, o elenco infantil se destaca, principalmente Madison Wolfe, que interpreta Janet, principal alvo da entidade paranormal que assombra a família e protagonista das cenas mais assustadoras do filme.

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Com uma história envolvente, e uma direção competente, Invocação do Mal 2 entrega um filme satisfatório, se comparado à outros do gênero, mas que não consegue chegar ao patamar dos grandes clássicos. Apesar de ser muito melhor que Annabelle, spin-off originado da franquia, ainda fica aquém no que se refere à qualidade de Invocação do Mal, seu antecessor. Wan se perde ao esquecer que os melhores filmes de terror apostam no imaginário do público e nas sutilezas para criar medo através de suas assombrações, e não em fórmulas hollywoodianas regadas por efeitos especiais e cenas grandiosas. Às vezes o menos é mais, e menos faria desse filme uma continuação muito melhor do que ela é.

Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Frances O’Connor, Madison Wolfe, Simon McBurney, Steve Coulter, Franka Potente, Lauren Esposito, Benjamin Haigh, Patrick McAuley, Maria Doyle Kennedy, Simon Delaney, Bob Adrian
Direção: James Wan
Roteiro: Carey Hayes, Chad Hayes, James Wan, David Leslie Johnson,
Produção: Richard Brener, Rob Cowan, Walter Hamada, Jenny Hinkey, Dave Neustadter, Peter Safran, James Wan
Trilha sonora: Joseph Bishara
Edição: Kirk M. Morri

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