Jogo do Dinheiro | Crítica do filme


O mundo das finanças sempre foi um cenário complexo e complicado de se explorar no cinema, porém, recentemente, cada vez mais longas estão abordando essa temática e conseguindo espaço entre o grande público. Filmes como “O Lobo de Wall Street” e “A Grande Aposta” trouxeram a complexa e frágil realidade do mundo dos números para as grandes telas, mas é em “Jogo do Dinheiro” que vemos esse assunto atingir novos (e surpreendentes) pontos de vista em um grande e inteligente thriller de ação.

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George Clooney dá vida à Lee Gates, apresentador de um programa de TV sensacionalista sobre investimentos financeiros chamado Money Monster. Com uma atuação na medida certa, Clooney cria um Lee claramente cínico e canastrão, no auge do seu sucesso midiático e embriagado pelo glamour e poder da realidade capitalista bem sucedida em que vive. Por trás de todo o sucesso do seu programa está a solitária e durona diretora Patty Fenn, interpretada pela ótima Julia Roberts. Enquanto Lee é o trem desgovernado em alta velocidade entre os gráficos e números financeiros nas telas de todos os americanos, Patty representa os trilhos responsáveis por direcioná-lo no caminho certo e guiá-lo durante o programa ao vivo, quase como uma consciência falando em seus ouvidos através de um ponto de escuta.

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Essa fórmula mágica de show business de sucesso é ameaçada quando, durante uma exibição ao vivo, o programa é invadido por Kyle Budwell (Jack O’Connell), um cidadão desesperado por ter perdido todo seu dinheiro investido em ações de uma grande empresa, graças à uma dica financeira apresentada por Lee em seu programa uma semana antes. Armado e munido de uma grande quantidade de explosivos, Kyle transforma o apresentador e toda sua equipe em reféns para o mundo inteiro assistir, enquanto exige que o dono da empresa responsável pela sua perda apareça e traga a verdade sobre a suposta falha interna que o deixou pobre.

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O grande trunfo do roteiro, escrito por Jamie Linden, Alan DiFiore e Jim Kouf, é saber mesclar o entretenimento pipoca de um thriller de ação com uma profundidade reflexiva que vai além da realidade do mundo financeiro, explorando também pontos importantes sobre o mundo capitalista em que vivemos e o papel da mídia para com as grandes massas. Toda a questão econômica é apresentada ao espectador de forma simples e direta através de explicações lúdicas e dinâmicas que facilitam o entendimento até dos mais leigos nesse universo. Porém a grande ironia do filme está na forma como o mesmo explora a mecânica de funcionamento do programa de Lee e como ele influencia as pessoas que o assistem.

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Logo no início da trama, Patty deixa claro que o trabalho deles não é jornalístico. O que eles fazem ali é puro entretenimento. Não é à toa que Lee sempre inicia seu programa de forma exagerada, seja dançando com mulheres atraentes ou fazendo piadas com imagens e sons humorísticos. Seu papel ali não é informar, é entreter e criar a ilusão para o espectador de que o que ele diz é real e deve ser “consumido”. Esse circo televisivo pode ser percebido quando Patty decide transformar a ameaça de Kyle em uma forma de conseguir mais audiência para o programa, “dirigindo” de forma indireta toda a ação que acontece durante o decorrer da narrativa e fazendo o mundo inteiro parar para acompanhar o desfecho daquela situação. É aí que verdades começam a vir à tona e aos poucos se torna cada vez mais clara a forma como o poder econômico vigente na sociedade atual gera um ciclo sem fim de marionetes entre a mídia e o povo.

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O roteiro também foge do esperado ao desenvolver, em paralelo com as críticas sociais e econômicas, os personagens que ali se fazem presentes, trazendo questões humanas surpreendentes que mudam a forma como enxergamos determinados personagens e suas motivações durante a trama. Toda essa miscelânea de ação, críticas e ironias é apresentada através da montagem extremamente eficiente de Matt Chesse, repleta de cortes rápidos, trilha sonora moderna e empolgante, movimentos de câmera não convencionais e closes que dão a impressão de que somos parte dos espectadores do Money Monster e estamos ali apenas se divertindo com aquele espetáculo televisivo em forma de atentado.

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Apesar do final previsível e acelerado e da sua complexidade disfarçada de ação (algo que, talvez, o grande público crítico não perceba) o longa, dirigido pela também atriz Jodie Foster, traz um frescor ao gênero e apresenta um resultado mais do que satisfatório. Assim como Patty durante a trama, Foster agarra a oportunidade e apresenta algo cada vez mais incomum em Hollywood: um entretenimento com conteúdo que incentiva a reflexão sobre a nossa sociedade atual e seus sistemas impiedosos.

Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Jack O’Connell, Dominic West, Caitriona Balfe, Giancarlo Esposito, Christopher Denham e Lenny Venito
Direção: Jodie Foster
Roteiro: Jamie Linden, Alan DiFiore e Jim Kouf
Produção: George Clooney, Daniel Dubiecki, Lara Alameddine, Grant Heslov, Tim Crane e Kerry Orent
Trilha sonora: Dominic Lewis
Edição: Matt Chesse

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