Memoráveis | A utopia realista de Karim Aïnouz. Você conhece?


Eu não conhecia o Karim Aïnouz.

Quer dizer, continuo não conhecendo, mas o trabalho dele, bem esse já tinha marcado a minha vida e eu nem sabia.

Recentemente ele foi destaque no badalado Festival de Cannes com A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, e portanto, com isso, pareceu um momento muito apropriado pra conhecer e/ou relembrar algumas de suas obras anteriores.

Inclusive o meu muito obrigada à Paula e à equipe da Sinny Assessoria que nos ajudaram nessa empreitada.

Sorte a minha!

O Céu de Suely havia ficado na mente depois de um texto de Tiago Silva na Memoráveis.

E Madame Satã era “um tem que ver” daquelas listas de clássicos nacionais e que trouxe Lázaro Ramos aos holofotes.

E de fato, depois de assisti-los, entendi o porquê deles terem esse peso todo na mídia.

Como eu disse no início, fui marcada pelo seu trabalho, mais especificamente pelo seu olhar que me apresentou Alice, não aquela do Lewis Carroll, mas com livre inspiração na personagem original.

Ele foi responsável pelo roteiro e assumiu a direção em parceria com Sérgio Machado, da série da HBO que tinha Andreia Horta como protagonista, ela que até hoje me traz luz aos olhos.

A série de 2008 contou com 13 intensos episódios, e em 2010 ganhou mais 2 episódios especiais.

Eu assisti Alice sem imaginar que um dia eu também seria a moça caindo na toca do coelho chamada São Paulo.

Quando aqui, principalmente no início, conhecendo alguns lugares clichês, vivendo as minhas próprias experiências, era nela que por muitas e muitas vezes eu pensava. Querendo ou não, ela se tornou minha referência.

E a São Paulo que também virou o meu lar há mais de 3 anos, ainda por vezes me vem muito carregada do que guardei de Alice.

Tanto que assim como a personagem eu não vim planejando ficar, no entanto fui ficando, ficando e estou até hoje.

Nessa maratona pelas obras de Karim, pude admirar o quanto de humanidade e sensibilidade ele consegue trazer para seus personagens. Seus protagonistas, cada um com personalidades distintas, mas que ali em seu âmago possuem essa intensidade toda de se jogarem no que sentem, no que acreditam de uma maneira tão apaixonada.

Pesquisando sobre o artista, entre entrevistas em vídeo e matérias escritas, encontrei algumas coisas bem interessantes, inclusive esse podcast no Spotify chamado Didididiê Go Podcast que conta com um especial – dividido em duas partes – sobre o Karim e suas obras.

O Diego Góes faz uma espécie de apresentação comentada e traz uma perspectiva bem curiosa ao destacar que todos os protagonistas de Karim têm em comum a situação de abandono, seja por relacionamentos amorosos sexuais ou não, algo que o próprio cineasta teve na sua realidade familiar.

Algo que para mim também fez muito sentido ao ouvir e relembrar cada uma naquele flash rápido pela mente em situações como essa.

Sendo assim, estou deixando os links para quem se interessar. No total são quase 20 minutos e é uma boa introdução na trajetória de Karim e suas produções.

Didididiê Go – Especial Karim Aïnouz 1

Didididiê Go Especial Karim Aïnouz 2

 

Eu achei que o filme funciona como um conto.

Um jeito de falar de uma questão que é super ampla de um jeito íntimo.

Falar de homossexualidade e aceitação, partindo de um viés mais amplo político, de regionalismo, Brasil x Europa, pra uma visão mais aproximada da experiência de uma pessoa, que faz escolhas e se sacrifica.

E cara é muito louco, porque as escolhas que a personagem do Wagner Moura faz são pra fugir de uma

sensação de isolamento, justamente se isolando.

Ele ta maravilhoso nesse filme.  Aline Souza, sobre Praia do Futuro

Conheci o trabalho do Karim Aïnouz em 2002 quando vi o seu “Madame Satã” a história do transformista carioca foi um impacto tanto pela história em si do personagem quanto como ela era mostrada, de forma bem nua e aliviando bem pouco.

Vi outros filmes dele como “Praia do Futuro”, contudo foi ao ver “O Céu de Suely” (que vejo muita relação com este último que citei) que de fato, vi algo diferente.

Para mim esse é o melhor filme do Karim, uma história simples, cheia de desespero, inadequação, questionamentos.

Mostra uma face do Brasil que muitas vezes negamos ou gostaríamos de negar como a Hermínia (Há inclusive uma crítica minha no site).  Tiago Silva

Por tudo que já foi colocado, é impossível não ver o cinema de Karim como um cinema que toca na alma, que carrega em si uma ampla capacidade de impactar, emocionar, e nos fazer pertencentes a esse mundo que ele cria a partir de sensações e sentimentos tão conflituosos e ao mesmo tempo tão naturais.

Karim como um bom contador de histórias também nos revela ser um bom ouvinte, alguém que observa e captura – inclusive em uma entrevista que também deixarei abaixo ele comenta sobre ter começado pela fotografia, da necessidade de registro e a relação disso com uma doença que está lhe roubando a visão – além do óbvio, do concreto as nuances que constroem mais do que uma personagem, é de verdade um ser humano ali na tela.

Um ser que poderia ser eu, poderia ser você, poderia ser ele, e é de alguma forma um pouquinho de nós, a medida que os conhecemos e nos identificamos com o que eles estão vivendo ali. E com o que trazemos de suas experiências pra nós.

As coisas que mais me chamaram atenção em Praia do futuro foram a fotografia, a trilha sonora (cada música me pareceu escolhida a dedo para intensificar mais as cenas que já seriam intensas por si só), e a maravilhosa atuação de Wagner Moura.  Tainara Belusso

 

Nesse sentido considero suas obras um realismo poético. Nesses sonhos de finais felizes atropelados pela vida.

Qual a obra memorável do Karim Aïnouz pra você?

 

Essa é a entrevista que eu mencionei alguns parágrafos atrás. Outro detalhe curioso é o que ele comenta sobre a ideia inicial para o filme que veio a se tornar Praia do Futuro,. A revelação mostra um filme um tanto quanto diferente do que chegou às telas. Isso é muito legal, quando você tem a chance de ter acesso a arquivos e materiais assim.

Viva ao cinema do Karim! Viva o cinema nacional!