Memoráveis | Cinzas no Paraíso


No início do século XX, Bill (Richard Gere) foge de um crime que cometeu, levando junto dele sua esposa Abby (Brooke Adams), contudo os dois escondem o romance, e sua irmã mais nova. Os três vão parar numa fazenda no Texas onde o proprietário (Sam Shepard) se apaixona por Abby. Ao descobrir que o homem está gravemente enfermo e tem pouco tempo de vida, Bill passa a considerar a proposta, e induzir Abby a casar com o fazendeiro de olho nos futuros benefícios. O fazendeiro, no entanto, não morre e a situação começa a fugir do controle.

Com roteiro e direção de Tarrence Mallick, a história do triângulo amoroso que se forma é contada pela narração de uma criança. Os conflitos são postos aos poucos, as relações vão sendo construídas meticulosamente, sem pressa alguma e, muitas vezes, de forma bem sutil. É um roteiro simples, e seu maior trunfo é mostrar os sentimentos frente a uma realidade difícil. O amor sendo preterido por segurança, conforto, riqueza, um futuro. Encontramos pessoas reais, cheias de desconfianças, capazes de fazer coisas boas e ruins, de sentir amor e ódio ao mesmo tempo, enfim, não é uma história romântica. A narração é fora do tempo da ação do filme, são pensamentos que aprofundam o caráter filosófico da obra, isso é reforçado pelo próprio nome dias no paraíso, retirado de uma citação bíblica. No Brasil escolheu-se um título ainda mais dramático, “Cinzas no Paraíso”.

A direção é o ponto forte. Mallick dá ênfase em uma fotografia o mais natural possível (coisa que nos últimos filmes foi elevada em várias potências), junto ao diretor de fotografia Néstor Almendros, apresenta um produto sublime, com planos abertos que mostram bem a imensidão daquele lugar. Todo esse trabalho reforça também a união entre homem e natureza, o esforço dos trabalhadores, parecendo que tudo é uma coisa só, indissociável. Também é possível notar como a câmera é inquieta ao acompanhar e rodear os personagens em diálogos em campo aberto, contrastando com a câmera estática das cenas no interior da casa. A produção é muito detalhista, tudo que aparece em cena é meticulosamente colocado, das roupas às máquinas usadas na colheita. Outro destaque é a trilha sonora feita pelo mestre Ennio Morricone.

No Elenco, o destaque é Richard Gere, no início de carreira, fazendo um personagem ambíguo, ele ama Abby, é capaz de fazer tudo por ela, mas está cansado de  uma vida de privações e a usa como forma de mudar sua condição, entretanto acaba se arrependendo e daí nascem os maiores conflitos. Brooke Adams como uma mulher apaixonada que segue seu marido onde ele for, reluta em aceitar o plano proposto por ele e acaba criando sentimentos pelo fazendeiro, o que se transforma numa tortura. E Sam Shepard, fazendeiro sem nome, que acredita estar morrendo faz tudo o que pode para viver o maior tempo possível.

Cinzas no Paraíso não foi muito bem recebido no época do seu lançamento (1978), contudo ainda ganhou o Oscar de Melhor Fotografia e Mallick ganhou como Melhor Diretor no Festival de Cannes. Hoje, merecidamente, é considerado uma obra prima do cinema. Nele já vemos o traço filosófico e místico do diretor, mais evidente nos filmes mais atuais.