Memoráveis | ‘Narradores de Javé’ explora a dificuldade em organizar nossa própria história


Os moradores de Javé, minúscula cidade no interior da Bahia, que está prestes a ser inundada em decorrência da obra de uma barragem estão desesperados com essa nova realidade, eles se unem e têm a ideia de tombar a cidade, através de um documento “científico” que contaria a gloriosa história da cidade de Javé. O problema é que na cidade todos são analfabetos ou semi-analfabetos, cabendo ao ex carteiro Antônio Biá, banido por inventar histórias dos moradores para manter o correio funcionando, é o único capaz de cumprir essa tarefa. Só que a história nunca tem só uma versão.

Com roteiro e direção de Eliane Caffé, somos levados a uma cidade que luta para sobreviver, tentando entender quem é, e de onde vem. Tudo isso é apresentado através de uma tragicomédia que mescla muito bem as duas formas narrativas. A medida que Antônio Biá vai recolhendo as histórias fantásticas que o povo vai lhe contando, percebemos que existe um conflito entre história oficial e a história real. Enquanto vamos conhecendo a fundo a versão de cada morador tomamos contato com as lembranças, fantasias, glórias e tristezas do povo. Cada um conta sua versão da história, dando enfoque maior a um ou outro personagem, exaltando no fim das contas a si mesmo. Aqui é bem interessante perceber que a história contada é sempre uma perspectiva daquele que conta, com seus valores, paixões e ódios.

A direção retrata a vida daqueles habitantes de forma melancólica em alguns momentos e em outros em total descontração, isso tudo de um modo bem dosado. A coleta dos relatos de cada morador é sempre um ponto interessante e nunca acaba da maneira que imaginamos. E há momentos em que a estória faz uma autorreferência e reforça toda a percepção que o espectador tem de tudo que já foi contado.

Seu personagem principal, o Antônio Biá vivido com maestria por José Dumont encarna um homem que é capaz de tirar proveito daquela situação sabendo do inevitável. Temos também a participação de Rui Resende, vivendo o Vado, que despreza Biá, mas sabe que se há alguma salvação, vem daquela figura odiável para ele. Gero Camilo como o impagável Firmino, sempre com alguma objeção ao que está sendo falado. Nelson Xavier, vivendo Zaqueu, o narrador da história que trabalhava como uma espécie de caixeiro, atendendo aos pedidos dos moradores. E aqui fica uma dúvida, será que a história contada por Vicentino é mesmo a história “real”, mais um interpretação ou invenção do mesmo? Nelson Dantas, em um dos seus últimos trabalhos no cinema como vicentino, sério e resoluto, ele é o homem que passa maior seriedade da história, mesmo com pitadas de fantasia, e sem se vangloriar. E Henrique Taubaté Lisboa o seu Cirilo, o “louco da cidade” chamado de santo e que representa a consciência do povo frente ao que está vindo.

“Narradores de Javé” foi premiado em festivais nacionais e internacionais e, infelizmente, foi pouco visto no Brasil. Ele explora justamente nossa dificuldade em organizar nossa história de maior cultura oral em relação à escrita.