Topflix | She’s Beautiful When She’s Angry


 A escritora canadense, Rupi Kaur, escreveu em seu primeiro livro, Outros jeitos de usar a boca, publicado pela primeira vez em novembro de 2014:
“quero pedir desculpa a todas as mulheres
que descrevi como bonitas
antes de dizer inteligentes ou corajosas
fico triste por ter falado como se
algo tão simples como aquilo que nasceu com você
fosse seu maior orgulho quando seu
espírito já despedaçou montanhas
de agora em diante vou dizer coisas como
você é forte ou você é incrível
não porque eu não te ache bonita
mas porque você é muito mais do que isso”

No início dos seus então 22 anos, filha de uma imigrante da Índia — um país que ainda ostenta uma cultura onde as mulheres vivem em extremo pé de desigualdade em relação aos homens e são criadas, de acordo com crenças, para serem esposas e servirem aos seus maridos, além de serem sempre puras e discretas, tendo o cuidado de nunca trazerem vergonha às suas famílias — , Rupi foi dura, mas também delicada, ao tratar da sua condição de mulher dentro de uma sociedade ainda muito machista e opressora.

Mais de sessenta anos antes do lançamento do livro de Rupi Kaur, a filósofa francesa Simone de Beauvoir, um dos ícones representantes do feminismo mundo à fora, já apresentava uma definição do que era ser mulher na sociedade e que o papel da mulher era “da submissão e dominação, pois estariam enredadas na má-fé dos homens que as veem e as querem como um objeto. (…) A mulher não é definida em si mesma, mas em relação ao homem e através do olhar do homem. Olhar este que a confina num papel de submissão que comporta significações hierarquizadas.”¹ Na análise da filósofa, as mulheres eram pensadas como feitas para tal serventia e essa serventia, construída historicamente, é de que a mulher é feita para servir ao homem e cuidar de sua família. O homem é o provedor, a mulher é a mantenedora.

She’s Beautiful When She’s Angry (dir. Mary Dore, 2014) traz uma visão sobre os movimentos de libertação feministas que explodiram na década de 1960 nos Estados Unidos, quando as mulheres começaram a se reunir, a partir de um despertar coletivo de que o sexismo fomentava uma desigualdade que impedia o seu desenvolvimento como indivíduos e o respeito pelos seus direitos como humanos, e a lutar contra isso. Isso ocorre mais de quarenta anos após os movimentos sufragistas que, através da reunião de mulheres e manifestações, garantiram o direito ao voto às mulheres nos Estados Unidos, em 1919.

De forma bastante objetiva e bem trabalhada, o documentário discorre sobre essa reunião de mulheres e caminha por diversos assuntos resultantes da eclosão dos movimentos: os direitos das mulheres como um todo, mas também os direitos das mulheres de cor e as mulheres lésbicas, que experimentam a opressão social por pontos de vistas diferentes. Embora isso seja visto por muitos como uma forma de segregação dentro do próprio movimento feminista, a realidade é que essas vertentes procuram tratar de especificidades que o feminismo como um todo não consegue abranger, pois uma mulher branca experimenta uma opressão diferente da sofrida por uma mulher negra que, por sua vez, é diferente da opressão sofrida por uma mulher lésbica, e assim por diante.

Para exemplificar essa diferenciação e a importância de movimentos específicos dentro do feminismo, podemos usar os estudos da escritora e teórica Grada Kilomba, que acredita que a mulher negra é o outro da mulher branca que é o outro do homem, ou seja, o Outro do Outro, pois “as mulheres foram assim postas em vários discursos que deturpam nossa própria realidade: um debate sobre o racismo onde o sujeito é homem negro; um discurso de gênero onde o sujeito é a mulher branca; e um discurso sobre a classe onde ‘raça’ não tem lugar”¹, fazendo com que as mulheres negras ocupem um lugar muito crítico dentro da sociedade. A mestre em filosofia política e ativista do movimento feminista Djamila Ribeiro diz que “costumo brincar que não posso dizer que luto contra o racismo e amanhã, às 14h25 e, se der tempo, eu luto contra o machismo, pois essas opressões agem de forma combinada. Sendo eu mulher e negra, essas opressões me colocam em um lugar maior de vulnerabilidade. Portanto, é preciso combatê-las de forma indissociável”¹.

O filme ainda aborda a questão da libertação sexual das mulheres e, consequentemente, os direitos a métodos contraceptivos, a fim de evitarem gravidezes indesejadas, e também ao aborto, quando finda a concepção. Em suma, os movimentos feministas clamavam pelo controle das mulheres sobre o seu próprio corpo e refutavam leis que as impediam de tomar decisões que as afetavam diretamente e eram decididas por grupos de pessoas que não as representavam, formados majoritariamente por homens.

Ainda assim, somos brevemente apresentados a homens que procuravam entender e apoiar as reivindicações dos movimentos feministas, vendo a necessidade de mudança que a luta busca; e, em contraponto, a mulheres que repudiavam os movimentos e se assentavam em seus papéis inferiores aos dos homens.

A verdade é que, apesar de terem se passado quase sessenta anos do início desses movimentos feministas, não só nos Estados Unidos, mas no mundo inteiro, essas pautas se mantêm. Com certa evolução, não podemos negar, mas com a exigência por mudanças ainda mais efetivas. E, com elas, mantêm-se um número de mulheres em desacordo com os movimentos feministas, afirmando que eles não as representam. De certa forma, isso já é uma atitude feminista, pois os movimentos feministas não tiram o direito de uma mulher ser dona-de-casa, servir ao seu marido e cuidar dos seus filhos, por exemplo, mas busca dá-la a escolha de ser aquilo ou o que mais desejar ser.

Em seu discurso “Todos nós deveríamos ser feministas”, de 2014, popularizado pela música “***Flawless”, presente no quinto álbum de estúdio da cantora Beyoncé Knowles, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie define uma pessoa feminista como aquela que acredita na “igualdade social, política e econômica dos sexos.” Ou seja, o feminismo não se trata de um movimento que procura subjugar os direitos dos homens, mas equiparar os direitos das mulheres. É um movimento que busca as mesmas oportunidades dadas a homens para as mulheres, assim como a quebra de padrões de gênero historicamente perpetuados que alimentam resoluções machistas até hoje. Se a intenção é ferir, o único ferido é o status quo do homem branco cisgênero e heterossexual que abusa de privilégios que a sociedade o contempla.

Dia 8 de março, Dia da Mulher, é um dia de comemoração para algumas e de luta por igualdade e respeito para muitas outras, como Muriel Fox, Ellen Willis, Jo Freeman, Jacqui Ceballos, Alice Wolfson, Fran Beal, Marilyn Webb, Roxanne Dunbar-Ortiz, Heather Booth, Judith Arcana, Virgina Whitehill, Alix Kates Shulman, Ruth Rosen, Chude Pamela Allen, Karla Jay, Carol Giardina, Kate Millett, Alta, Trina Robbins, Denise Oliver, Rita Mae Brown, Ellen Shumsky, Linda Burnham, Susan Brownmiller, Marlene Sanders, Nona Willis Aronowitz, Mary Jean Collins, Susan Griffin e Vivian Rothstein que lutaram — e ainda lutam — pelos direitos das mulheres; o direito ao reconhecimento da participação das mulheres na história; pelo controle e manutenção do seu próprio ser; além de contra a desigualdade e a violência que atinge as mulheres diariamente.

Finalizo esse texto com um manifesto que acredito que possa fazer com que qualquer homem ou mulher que costuma recusar o discurso feminista e o classificá-lo como “mimimi”, reflita novamente sobre a luta das mulheres durante a história e como ela não surgiu ontem, apenas se faz ainda muito necessária devido ao lento progresso nas mudanças, embora acredite que não são muitas as pessoas com esse pensamento que chegariam ao fim deste texto.

Ainda assim, o manifesto é de 1980 e foi apresentado no II Congresso da Mulher Paulista, ocorrido nos dias 8 e 9 de março daquele ano, nas dependências da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Elaborado pelo movimento Lésbico Feminista, parte do Grupo Somos de Afirmação Sexual, em apoio e a partir da preocupação com as prostitutas de São Paulo, que sofriam contínuas agressões físicas e extorsões por parte da Polícia, o documento acabou se tornando o primeiro a tratar das questões de violência doméstica e sexual dentro do Movimento Feminista brasileiro². Ele dizia o seguinte:

“Mulheres Violentadas”
“Enquanto um grande número de policiais tem sido mobilizado para reprimir manifestações estudantis, greves de operários, bancários etc. a população é deixada indefesa diante da crescente onda de violência que atinge o país.
A violência sexual tornou-se cotidiana e as mulheres são suas principais vítimas. Estamos sendo arrastadas, espancadas, esfaqueadas e forçadas às mais dolorosas e humilhantes práticas sexuais por homens que ficam impunes inclusive em casos de morte.
As mulheres violentadas que abrem inquérito são submetidas a um vergonhoso exame pericial e mesmo quando os indícios provam o estupro, ainda assim, a polícia mostra-se omissa. Além disso, durante o transcorrer do processo e do julgamento, todo tipo de calúnia será usado contra a vítima, na tentativa geralmente bem-sucedida de inocentar o criminoso.
O sistema machista e corrupto não protege a mulher. A lei protege o estuprador.
Mulheres de 6 a 60 anos são consideradas sedutoras, perversas e imorais sem o menor direito ao respeito dos homens. Quando isso vai acabar?
Nós mulheres brasileiras exigimos justiça.
Queremos uma resposta efetiva e concreta.
Queremos a revisão do Código Penal em relação ao estupro.
Queremos o fim da impunidade para os violentadores.
Queremos nossa dignidade física e moral asseguradas.
Precisamos acabar com o silêncio existente e denunciar os criminosos. Neste sentido conclamamos as mulheres violentadas a procurarem as associações interessadas nesses casos e que as ajudarão a lutar por seus direitos.
Anote e passe para suas amigas.”
Ação Lésbico-Feminista do Grupo Somos

She’s Beautiful When She’s Angry está disponível para streaming na Netflix.

¹ Os trechos mencionados foram retirados do livro O que é lugar de fala?, de Djamila Ribeiro, que faz parte da coleção “Feminismos Plurais”, do Grupo Editoral Letramento em parceria com o selo Justificando.

² Esse manifesto pode ser encontrado no livro Ditadura e Homossexualidades: Repressão, Resistência e a Busca da Verdade, da Editora Edufscar, que conta com artigos organizados por James N. Green e Renan Quinalha, referentes à repressão aos membros da comunidade LGBTQ durante a época da Ditadura Militar no Brasil (1964–1985). O texto em questão é de autoria de Marisa Fernandes e é intitulado “Lésbicas e a Ditadura Militar: uma luta contra a opressão e por liberdade”.

Publicado originalmente aqui.

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