Nota:

Título Original: Gueule D´Ange Lançamento: 25 de outubro de 2018 Direção: Vanessa Filho Roteiro: Vanessa Filho Gênero: Drama Elenco: Marion Cotillard, Ayline Aksoy-Etaix, Alban Lenoir, Amélie Daure, Nade Dieu, Stéphane Rideau, Rosaline Gohy, Rayan Ounissi-Herzog Nacionalidade: França
5.0

Quando a relação entre uma mãe e uma filha é frágil, complicada e tóxica, as consequências sempre são pesadas e graves para ambas as partes. “Meu Anjo” é um filme sobre isso. É sobre personagens com sérios problemas psicológicos que prejudicam um ao outro, às vezes de forma consciente, outras sem perceber. Infelizmente o potencial de sua história é desperdiçado por um roteiro confuso, frio e cheio de falhas.

A trama conta a relação entre Marlène (Marion Cotillard) e sua filha de 8 anos, Elli (Ayline Aksoy-Etaix). Acostumada com uma vida de festas, bebida e muita irresponsabilidade, Marlène está acostumada a deixar a própria filha em segundo plano para priorizar seus próprios interesses. A situação só piora na noite em que, para não contrariar a própria filha, Marlène decide levar Elli para uma festa. Ao reencontrar um antigo conhecido, a mãe manda a filha para casa sozinha e some, se limitando em demonstrar atenção à filha abandonada apenas através de recados na secretária eletrônica e visitas de conhecidos para checar seu estado.

O que parece ser uma história com abertura para explorar o psicológico de personagens tão machucados e problemáticos, se mostra um filme estranho, com um ritmo lento e muitas vezes confuso. O roteiro, que tem a assinatura da também diretora Vanessa Filho, tem momentos promissores, onde o espectador espera que a relação entre as personagens vai ser aprofundada, mas acaba se frustrando com cenas rasas que muitas vezes parecem não ter um objetivo claro.

A direção de Vanessa é distante, parecendo retratar os acontecimentos como quem observa algo surreal demais para dar uma explicação lógica para isso. O filme lida com temas como alcoolismo, abandono infantil, bullying, suicídio, flerta com a prostituição infantil, o machismo e, principalmente, retrata a inversão de papéis entre mãe e filha, onde a que deveria ser cuidada assume o papel de cuidadora e vice versa. Porém a origem desses problemas e traumas não fica clara em muitos momentos do longa. As personagens tem uma carga emocional elevadíssima, mas o espectador sai do cinema com a sensação de que não conheceu o suficiente elas a ponto de entendê-las.

A atuação de Marion Cotillard, que na maioria dos seus trabalhos é muito acima da média, se mostra bem limitada apenas a momentos de exagerada embriaguez, histeria e uma constante apatia. O retrato da personagem só piora depois que a mesma some de tela no segundo ato e reaparece no terceiro ato sem mostrar nenhum tipo de mudança clara ou evolução. A responsável por segurar o restante do filme depois do sumiço da mãe é a pequena e carismática Elli, interpretada por Ayline Aksoy-Etaix. A menina mostra um talento em crescimento e promete ser uma boa aposta para o futuro como atriz.

Infelizmente os momentos em que mais deveria se destacar e fazer a história crescer são os momentos mais confusos do roteiro. Se o primeiro (e longo) ato mostra como funciona a dinâmica entre Marlène e Elli, o segundo ato é um recorte de momentos da rotina da menina sem a mãe. Os acontecimentos não fazem muito sentido, não são bem explicados e se mostram sequências de cenas entediantes e sem propósito. Quando o terceiro ato finalmente chega, se mostra apressado, previsível e sem uma conclusão clara para nenhum dos envolvidos.

O filme que deveria aprofundar uma relação conturbada e problemática, termina sem uma conclusão clara e falha em desenvolver suas personagens. Nenhuma delas ganha o desenvolvimento que merecia a ponto de nos importarmos  com seus destinos. Suas histórias terminam praticamente no mesmo cenário em que começaram. E para a história de uma mãe e uma filha tão complicada, o mínimo esperado pelo espectador é que suas personagens cresçam e amadureçam para superar seus próprios demônios. Infelizmente, não é o caso de “Meu Anjo”.