The Breakdown

Data de lançamento: 15 de fevereiro de 2018 (2h 14min) Direção: Dee Rees Elenco: Garrett Hedlund, Jason Mitchell, Carey Mulligan, Mary J. Blige, Jonathan Banks, Rob Morgan, Jason Clarke Gênero: Drama Nacionalidade: EUA Duração: 134 min
8.0

A convite da Diamond Films e da Rádio Eldorado, o Cinema Sim pôde conferir Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi, filme de Dee Rees baseado na obra homônima de Hillary Jordan, que concorre em quatro categorias no Oscar 2018. A sessão foi procedida por um debate sobre as questões raciais abordadas no filme, dentre outros assuntos relacionados, mediado pela cantora Paula Lima e com as presenças do cantor Chico César; a atriz Naruna Costa; o cineasta e autor do manifesto que deu origem ao Dogma Feijoada, movimento que redesenha a participação de negros nas produções cinematográficas e audiovisuais, Jeferson De; e do professor de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica — PUC, Claudinei Affonso.

Mudbound é um drama passado em meados da Segunda Guerra Mundial. Laura (Carey Mulligan, As Sufragistas), uma jovem professora, se casa com Henry McAllan (Jason Clarke, A Hora Mais Escura) e, após alguns anos, ambos se mudam para uma fazenda com suas filhas e o pai de Henry, Pappy McAllan (Jonathan Banks, Breaking Bad). Com a fazenda, “ganham de brinde” a família de Hap (Rob Morgan, Stranger Things) e Florence Jackson (Mary J. Blige, Rock of Ages: O Filme), que cuidam das demandas com as plantações, no intuito de fazer com que a terra inóspita que os McAllan adquiriram volte a ter vida e eles possam tirar seu sustento dela. Sem outras oportunidades, a família Jackson luta para sobreviver, trabalhando dia e noite em uma terra que nunca será deles, para que, no futuro, seus filhos talvez venham a ter um destino diferente.

Nesse meio tempo, Jamie McAllan (Garrett Hedlund, On the Road), irmão de Henry, e Ronsel Jackson (Jason Mitchell, Straight Outta Compton: A História do N.W.A.), filho de Hap e Florence, vivem suas vidas em meio à guerra, embora não tenham ciência da existência um do outro. Quando retornam às suas famílias, ao fim da guerra, a experiência faz com que os dois acabem se aproximando, o que acaba gerando desconforto aos outros, principalmente a Pappy, extremamente racista e que não quer ver o filho às voltas com um “crioulo”.

O filme se passa, aproximadamente, 80 anos após a abolição da escravatura nos Estados Unidos, por meio de Ato de Emancipação assinado pelo então presidente Abraham Lincoln. No entanto, o acontecimento não garantiu direitos igualitários às pessoas negras, mas as marginalizou, deixando-as sem oportunidades para estudar ou trabalhar, suscitando, ao invés, uma estrutura de discriminação e segregação racial que permeou por muitos e muitos anos.

Entre 1876 e 1965, vigoraram leis nos estados do Sul dos Estados Unidos, incluindo o Mississipi, que promoviam uma divisão entre cidadãos negros e brancos, nos mais diferentes espaços. Negros e brancos não podiam dividir salas de aula, sentarem próximos uns aos outros e nem, ao menos, usarem os mesmos banheiros e bebedouros. Haviam vizinhanças onde seus moradores brancos não permitiam a morada de pessoas negras e o racismo e a intolerância não eram, de forma alguma, mascarados, como acontece até hoje, mas completamente explícitos.

O filme Loving: Uma História de Amor (Loving, dir. Jeff Nichols, 2016), por exemplo, se passa nessa época e conta a história real de Richard e Mildred Loving, um casal interracial do estado de Virginia que acabou preso por terem violado as leis que proibiam o casamento entre negros e brancos. O julgamento que procedeu a prisão acabou criando um precedente que afetou as leis que corroboravam com a proibição.

Esse período ficou conhecido como a Era Jim Crow, nomeada dessa forma por conta do comediante novaiorquino do século XIX, Thomas D. Rice, que criou um personagem estereotipado onde buscava representar os negros do sudeste dos EUA: pintava-se de preto – feito popularmente conhecido, até hoje, como blackface – e portava-se estupidamente, vestindo trapos e fazendo trapalhadas. Foi nessa época que Martin Luther King Jr., um pastor e protestante político, também passou a ser conhecido e acabou se tornando um dos mais importantes líderes do movimento a favor dos direitos civis dos negros nos EUA.

Em 1963, cinco anos antes de ser assassinado, Dr. King proferiu seu famoso discurso, durante a “Marcha sobre Washington” que até hoje é lembrado e repercutido. Conhecido como “Eu tenho um sonho” (“I have a dream”), ele dizia sonhar com uma época onde “pequenos rapazes negros e moças negras possam dar-se as mãos com outros pequenos rapazes brancos e moças brancas, caminhando juntos, lado a lado, como irmãos e irmãs.”

O filme de Dee Rees, terceiro longa da diretora negra, trabalha essa segregação de muitas formas, mas principalmente na relação entre Jaime e Ronsel, a sua trama principal. Enquanto Jaime é recebido como um herói da guerra, apesar de ter se tornado menos que um homem em consequência dos traumas sofridos, Ronsel não é visto como mais do que um negro em Mississipi. Sua mãe insiste para que o filho procure algo mais para o seu futuro, mas o pai diz que Ronsel deve ficar e ajudá-los na fazenda, que é o lugar onde deve estar.

Assim como o livro de Hillary Jordan em que é baseado, o filme aborda a história a partir dos diversos pontos de vista de seus personagens, com narrações em off que trazem um ar poético ao longa, lembrando A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011), de Terrence Malick. Em um ritmo lento, o filme leva um tempo para chegar à relação entre Jamie e Ronsel, mas as questões raciais e sociais tratadas nesse meio tempo, com cada personagem as abordando a partir de suas experiências, ocupam toda atenção. Tanto que, durante essa primeira parte do longa, as cenas em que vemos Jamie e Ronsel na guerra, embora sejam necessárias para o desenvolvimento da história, acabam se tornando inconvenientes por acrescentarem pouco àquele momento.

Em suma, Mudbound é sobre compaixão, empatia e, sobretudo, amor. É sobre reconhecer o próximo como um similar e não como superior ou inferior. É também sobre entender o seu papel e lutar pelo seu espaço. Cada personagem da história traz um nível de reconhecimento da situação em que se encontra, seja a família Jackson ou a família McAllan, assim como o próximo, e alguns estão confortáveis em suas próprias peles, enquanto outros não concordam com algumas situações e fazem o que podem para mudar a situação.

O contraste é facilmente visto nas duas famílias. Hap Jackson tem seu destino feito, apesar de entender que poderia ter mais se tivesse outras oportunidades, enquanto Florence sabe que aquilo não é vida para se viver. Henry McAllan acredita que as coisas são daquele jeito e aproveita dos seus privilégios, enquanto sua mulher, outrora conformada com a sua vida doméstica e a posição submissa dentro do casamento, passa a crescer sobre o marido a fim de moldar as situações de forma mais justa.

O filme foi indicado em quatro categorias no Oscar 2018, dentre elas a de “Melhor Atriz Coadjuvante” para Mary J. Blige, irreconhecível no papel de Florence. Além disso, a atriz e cantora também concorre com a interpretação da tocante música “Mighty River”, na categoria de “Melhor Canção Original”. Ademais, o filme ainda concorre em “Melhor Fotografia” e Dee Rees concorre na categoria de “Melhor Roteiro Adaptado”, enfrentando Aaron Sorkin, outrora vencedor na categoria por A Rede Social (The Social Network, dir. David Fincher, 2010), com A Grande Jogada (The Molly’s Game, 2017), onde também fez sua estreia como diretor.

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi estreou nos cinemas brasileiros na última quinta-feira, dia 15.

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