Mulher-Maravilha | Crítica


Quando “Homem de Aço” chegou aos cinemas, uma realidade muito mais sombria e realista envolvendo os heróis da DC começou a ser formada nos cinemas, diferente do que já tinha sido feito nas suas produções anteriores. Numa tentativa falha de competir e superar o enorme e bem sucedido universo expandido da Marvel nos cinemas, a DC deu start em uma corrida mal planejada para construir sua própria identidade e conquistar o seu espaço nas telonas através de seus mais icônicos heróis. O resultado disso foram três filmes (“Homem de Aço”, “Batman Vs. Superman: A Origem da Justiça” e “Esquadrão Suicida”) cheios de falhas de direção, roteiro e atuação, que trocaram os pés pelas mãos ao tentar forçar referências, conexões e easter-eggs para cima dos fãs.

Preocupados demais em chegar aos esperados encontros dos personagens e a formação da Liga da Justiça, pouco foi feito para contar a origem desses heróis e suas sagas individuais, dando a impressão que a reunião dos mesmos era mais importante do que a jornada que os levou até aquele momento. “Mulher-Maravilha” chega aos cinemas indo contra essa maré, trazendo um revigorante frescor para esse novo universo construído de forma tão pesada até agora, além de uma esperança para o que ainda pode ser feito com esses personagens nos cinemas.

Apesar de trazer pequenas ligações com os outros filmes do universo DC, a trama de “Mulher-Maravilha” é toda focada na origem da heroína, partindo do argumento iniciado em “Batman Vs. Superman” onde uma foto tirada durante a Primeira Guerra Mundial mostrava que Diana Prince (Gal Gadot) teve algum papel naqueles acontecimentos. Somos levados então para o  início do século XX, onde a jovem princesa Diana é treinada isolada do mundo na ilha de Temiscira, até que um piloto inglês sofre um acidente e acaba sendo salvo por ela. Ao descobrir que uma enorme guerra está sendo travada além dos limites da sua ilha, Diana decide partir ao lado de Steve Trevor (Chris Pine) com a certeza que é seu destino deter Ares, o Deus da guerra e o provável responsável pela corrupção da raça humana.

Diferente dos filmes anteriores da DC, o clima desse filme é muito mais leve e otimista. A fotografia é mais viva e as cenas são mais claras. O tom pesado é deixado de lado desde as primeiras cenas, quando somos apresentados a uma Temiscira iluminada pela luz forte do sol, cheia de verde e tons claros. Até mesmo quando saímos dos domínios das Amazonas e acompanhamos Diana em ambientes cinzentos como Londres e campos de batalha violentos, a mudança de palheta de cores não faz com que as cenas sejam escuras a ponto de não conseguirmos discernir o que está acontecendo nelas.

A trilha sonora de Rupert Gregson-Williams explora o tema criado para a personagem em “Batman Vs. Superman”, trazendo uma identidade para o filme e para a heroína ao ser executada nos momentos mais épicos e empolgantes da história. As cenas de ação são muito bem coreografadas e filmadas de forma belíssima, numa mistura frenética de movimentos de câmera e efeitos de slow e fast motion que funcionam muito bem em tela. O estilo de luta das Amazonas funciona muito bem na câmera lenta, produzindo imagens incríveis em que Diana e suas irmãs amazonas desafiam a gravidade através de seus movimentos e habilidades.

O design de produção é um primor. Os cenários de Temiscira chamam a atenção pela beleza de sua arquitetura e simbologia, remetendo às mais belas e paradisíacas ilhas gregas. Os figurinos de Lindy Hemming são ricos em detalhes, seja no lar das amazonas, com suas armaduras que misturam metal e couro, nos ambientes urbanos, com grandes vestidos, casacos e peles na moda da época ou até mesmo nos campos de batalha, com uniformes ingleses e alemães e grande quantidade de civis em cena.

O elenco está em ótima sintonia. Gal Gadot foi a escolha certa para esse papel. Sua Diana é um mistura de empoderamento e girl power com uma apaixonante inocência e senso de justiça. Seu amadurecimento durante a trama, ao se descobrir uma verdadeira heroína em um mundo cheio de injustiça e dor, é tocante e traz uma lição de caráter para o espectador como poucos filmes de super-herói conseguem. Chris Pine funciona bem como Steve Trevor e seus melhores momentos são as cenas em que ele é obrigado a lidar com o estranhamento de Diana face à realidade de nosso mundo. Os dois tem química e são um bom casal para acrescentar um pouco de romance à trama. Danny Huston se mostra um ótimo vilão no papel do General Ludendorff e David Thewlis interpreta Sir Patrick, responsável por ser o mote inicial de boa parte da história. O elenco de Amazonas, apesar de aparecer apenas no primeiro ato, é marcado pela presença ilustre e poderosa de Robin Wright (“House of Cards”) e Connie Nielsen.

Com tantas qualidades, porém, o maior trunfo do filme é sua mensagem de empoderamento e feminismo. Só o fato de ser um filme de herói dirigido por uma mulher (Patty Jenkins) e com uma protagonista do sexo feminino, já é o suficiente para fazer história na indústria do cinema. E ao perceber isso, é impossível não pensar na ironia de que esse é o melhor filme do universo expandido da DC até agora, superando produções que tinham homens como protagonistas e diretores. Mas “Mulher-Maravilha” consegue ir além dessa marca.

Em diversos momentos, o roteiro brinca e discute situações onde a soberania dos homens, tão forte naquela época, é posta em cheque por Diana. Ela não se cansa de criticar o papel da mulher na sociedade moderna, sua forma de se vestir, de se comportar, de falar e de agir, seja usando roupas curtas demais para a época, entrando em ambientes exclusivamente reservados para homens ou liderando ataques em meio à Primeira Grande Guerra. Além disso, outros temas são pincelados na trama, como o rebaixamento do papel do homem no prazer feminino ou até mesmo a presença da homossexualidade entre as Amazonas.

Enquanto nossa realidade vem testemunhando um progresso que defende um retrocesso de ideias, “Mulher-Maravilha” vem para nos mostrar que ainda há esperança por um mundo mais amoroso e justo para a raça humana. Apesar de ter um terceiro ato com pequenos problemas narrativos, dificilmente o espectador vai sair do cinema sem se sentir otimista após duas horas e vinte de tanta positividade, heroísmo e justiça. Em uma indústria dominada por homens (e aqui me refiro tanto aos heróis quanto a quem produz e dirige esses filmes), a DC inova com um longa que serve de exemplo de força, garra e representatividade para a geração atual de mulheres e minorias que se sentem tão mal representadas nas grandes telas do cinema. Tudo isso sem deixar de lado o carisma de uma das heroínas mais famosas da história, com uma trama coesa, que diverte e ao mesmo tempo nos diz mais do que aparenta em suas entrelinhas.

Wonder Woman — EUA, 2017
Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Allan Heinberg, Zack Snyder, Jason Fuchs
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, David Thewlis, Connie Nielsen, Elena Anaya, Lucy Davis, Danny Houston, Saïd Taghmaoui, Ewen Bremner, Eugene Brave Rock
Duração: 141 min

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