The Breakdown

Título Original: O Doutrinador Lançamento: 01 de novembro de 2018 Direção: Gustavo Bonafé Roteiro: Luciano Cunha, Gabriel Wainer, Rodrigo Lages, L.G. Bayão e Guilherme Siman Gênero: Ação Elenco: Kiko Pissolato, Tainá Medina, Samuel de Assis, Carlos Betão, Tuca Andrada, Eduardo Moscovis, Helena Ranaldi, Marília Gabriela, Natália Lage Nacionalidade: Brazil
7.0

É impossível encontrar alguém que não concorde que o cinema de super-heróis é uma das principais fontes de renda da indústria do cinema moderno. Os personagens que têm saltado cada vez mais das páginas das HQ’s (não gibis, não esqueçam) para as grandes telas são a principal fonte criativa dos filmes de maiores sucesso de bilheteria e público atualmente. Indo no sentido contrário desse movimento, é raro ver produções brasileiras que apostem em filmes com essa temática. Ficamos sempre na zona de conforto das comédias escrachadas e dos dramas de salas de arte que pouco ganham reconhecimento das grandes massas. O Doutrinador chegar para mudar isso e, quem sabe, começar um novo capítulo na história do cinema brasileiro.

O filme, baseado na HQ de Luciano Cunha, conta a história de Miguel, um agente da polícia federal que perde a sua filha para uma bala perdida e falta de assistência do médica. Ciente dos esquemas de corrupção por trás do sistema de saúde brasileiro, Miguel assume a identidade mascarada de O Doutrinador, com o objetivo de se vingar de políticos corruptos que comandam a política nacional ao seu bel prazer. Com a ajuda da hacker Nina, Miguel irá sacudir as estruturas políticas do país enquanto elimina, um a um, a quadrilha responsável por destruir seu país e prejudicar o povo brasileiro. O longa, que foi adiado por dois meses por causa das eleições, chega aos cinemas numa época de instabilidade política, com um novo presidente eleito e muitas críticas à corrupção que assola o Brasil. É impossível não criar paralelos entre a sua história e o que vemos diariamente nos jornais e nas notícias ao nosso redor.

Miguel é claramente um anti-herói. Suas ações não são completamente justificáveis e muito menos os seus meios. A violência é sua principal arma e talvez, esse seja o ponto mais interessante do longa. A forma brutal como o diretor Gustavo Bonafé (Legalize Já) dirige as cenas de ação beiram o gore. Há muito sangue, cabeças explodindo, mortes grotescas e muita pancadaria. Apesar da inspiração visual em obras como as de Tarantino, o filme peca em não inovar muito na forma como pensa suas cenas de ação, se limitando a cenários repetitivos de galpões, prédios fechados e ruas desertas, o que dá a impressão ao espectador de que ele está vendo um episódio longo demais de Arrow, e suas pouco inovadoras cenas de luta.

Apesar de pecar um pouco na ação, Bonafé traz uma visão refrescante e diferente do que estamos acostumados no cinema brasileiro. A história, que se passa na cidade fictícia de Santa Cruz, possui uma atmosfera cyberpunk digna de um mundo baseado em quadrinhos. As imagens aéreas da cidade possuem uma fotografia muito bonita, com muitos letreiros e iluminação neon. Os cenários são sujos, escuros, decadentes e frios. A inspiração visual em obras como Batman e Watchmen são claras e funcionam muito bem em tela dando ao filme um visual interessante.

Apesar de toda sua inovação para o cinema brasileiro, O Doutrinador peca em não dar a devida atenção a um dos principais fatores para o sucesso de filmes de heróis: a história e seus personagens. Com uma trama muito semelhante à de Frank Castle (O Justiceiro) e outros anti-heróis que, ao perder um membro da família, assumem uma nova identidade para buscar vingança, o filme se torna repetitivo e pouco surpreendente ao usar uma fórmula já conhecida do público para moldar sua própria narrativa.

Os acontecimentos da história são cheios de furos e conveniências que mostram uma certa preguiça em explicar algumas coisas para o espectador. Talvez esses gaps sejam uma consequência do fato de que a produção foi idealizada simultaneamente como um filme e como uma série de TV (que estreará em 2019). Há a impressão de que coisas precisaram ser cortadas do filme e que estamos vendo um resumo de duas horas de uma temporada que deve durar umas 10 ou 12 horas.

O texto do roteiro é fraco e não ajuda seu elenco a dar profundidade e criar proximidade do público com seus personagens. Miguel é interpretado por um Kiko Pissolato com muito preparo físico, mas sem muita personalidade e muito limitado apenas à violência e a um jeito bruto de ser. Seus melhores e mais empáticos momentos são os primeiros minutos do filme, quando sua atuação é mais baseada em sentimentos e na sua relação com sua filha. Nina, a hacker vítima de um sistema corrupto que se torna braço direito de Miguel, é interpretada por Tainá Medina e consegue ser a personagem mais interessante da história, com suas alfinetadas de humor e seu jeito sarcástico de ser. Infelizmente a personagem é pouco aproveitada e não é explorada como deveria pelo roteiro.

Quem gosta de histórias de herói sabe que o vilão é parte fundamental do seu sucesso. O roteiro de O Doutrinador desperdiça um ótimo vilão, interpretado por Eduardo Moscovis, que mesmo com pouco tempo de tela, consegue mostrar um grande potencial desperdiçado. Ao invés disso, a trama escolhe explorar uma quadrilha de políticos corruptos pouco ameaçadores, com atuações extremamente caricatas (se prepare para cenas medonhas de reuniões luxuosas e vilanescas cheias de frases de efeito e risadas malignas em conjunto). Não se importar com esses antagonistas talvez seja o motivo para que o público não sinta tanto impacto ao vê-los sendo aniquilados, um a um, pelo Doutrinador.

Com um terceiro ato mais longo que o necessário e algumas subtramas descartáveis, O Doutrinador pode ser considerado o início de um novo nicho do cinema brasileiro. Apesar de suas falhas de direção em cenas de ação e sua superficialidade ao explorar seus próprios personagens, o filme mostra que temos potencial para competir de igual para igual com muitas produções estrangeiras de ação e aventura. Ainda estamos longe de grandes nomes como Marvel e DC, mas é muito bom ver que o Brasil também possui capacidade para ter seu próprio super-herói ou até seu próprio universo compartilhado de heróis. Não custa nada sonhar, né?

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