O Filme da Minha Vida | Crítica 2


“Às vezes a gente quer dar sentido as coisas que são muito simples.” Johnny Massaro

Essa fala do ator que dá vida ao protagonista Tony Terranova de “O Filme da Minha Vida” é a representação perfeita do pensamento humano que na busca instintiva está sempre ansiando por mais, quando muitas vezes não há porquês, as coisas simplesmente têm sentido nelas mesmas. A fala é parte da resposta à seguinte pergunta:

“Como você viu na sua cabeça o personagem do Tony?
Não sei responder direito – e já não me cobro mais saber responder (risos). Às vezes a gente quer dar sentido a coisas
que são muito simples.”
 
Com ela o ator consegue expressar a compreensão de que o próprio personagem necessita para encontrar a sua identidade, quando se sente perdido em meio aos acontecimentos e pessoas que o acompanham em sua trajetória. Desde de pequeno, Tony tinha uma admiração gigantesca pelo pai e seus olhinhos brilhavam diante daquele ser que era seu exemplo, seu ídolo, seu companheiro de aventuras. Porém sem explicações, após Tony retornar da capital onde completava seus estudos, esse mesmo pai, Nicolas – vivido por Vincent Cassel – o deixa para trás junto de sua mãe, Sofia (Ondina Clais). E a vida que era cheia de luz e sorrisos para aquela família se transforma numa espera reflexiva e em alguns pontos até mesmo contemplativa, que vai ganhando camadas de profundidade e contextualização à medida que ele vai desenvolvendo sua relação com os outros personagens.
O longa é uma obra que respira e transpira poesia, cheio de analogias e metáforas que nos permitem acompanhar a evolução do personagem, a conquista de uma segurança no agir, uma maturidade desenvolvida através do tempo, de suas experiências e descobertas. Selton Mello com sua extrema sensibilidade para contar histórias, nessa adaptação do livro “Um Pai de Cinema” do escritor chileno Antonio Skármeta, nos apresenta um drama repleto de sutilezas desde o desenvolvimento dos diálogos, da captura de expressões, gestos e olhares pertinentes, dos tempos das falas, da ambientação até fotografia e trilha sonora que nos permitem uma imersão completa no mundo de Tony Terranova. É um filme rico em referências, onde cada momento, cada cena foi pensada para ser significativa, onde cada detalhe foi moldado para construir a pintura que se revela diante de e para nossos aguçados sentidos, nos permitindo preencher novos traços com as nossas próprias referências e imaginação. É como aquele álbum com as fotos da família, já amareladas e até danificadas pelo tempo, a cada imagem a história vai ganhando vida, as lembranças se misturam e se confundem, contudo muitas delas ainda aquecem o nosso coração.

O protagonista é um romântico amante da escrita, sonhador, que vê o mundo pela ótica daqueles que possuem esperança, que preferem acreditar no melhor das pessoas, mesmo quando elas cometem erros talvez considerados por muitos imperdoáveis. Meu porém com o filme provavelmente esteve apenas aí, por imaginar um embate – que acontece, todavia em outro contexto – quando ele opta apenas pela compreensão, talvez por querer minimizar os danos que àquela altura já haviam sido muitos. Porém ao considerar toda a sua trajetória, esse é de fato o caminho que faz mais sentido. É uma história de buscas, questionamentos, encontros, dúvidas, memórias afetivas, reencontros, nostalgia, conflitos, risos, lágrimas e uma realidade humana daqueles que estão sempre a um passo de novas descobertas, pois assim que se apresenta uma nova perspectiva, o todo ganha um novo sentido.

Título Original:  O Filme da Minha Vida

Lançamento: 03  de agosto

Direção: Selton Mello

Roteiro: Marcelo Vindicatto, Selton Mello

Elenco: Johnny Massaro, Vincent Cassel, Bruna Linzmeyer, Selton Mello, Ondina Clais, Bia Arantes, Martha Nowill, Erika Januza, Miwa Yanagizawa

Gênero: Drama

Nacionalidade: Brasil

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