O Labirinto da Solidão | Identidade X Loucura?


A atual conjuntura política em nosso país tem afetado diretamente e, infelizmente  de forma negativa a nosso audiovisual e arte e cultura de forma geral, visto que muitos dos incentivos fiscais vêm sendo cortados bruscamente.

Não acredito que o futuro de um país sem investimentos e cuidados extremamente atenciosos com sua educação e cultura possa ser muito melhor do que o presente que vivenciamos agora, contudo ainda alimento a esperança de que a despeito disso, elas floresçam gloriosas, assim como desejo isso para outras áreas também indispensáveis como saúde, segurança pública, dentre tantas outras necessidades básicas que possuímos.

Cannes

Se por um lado é um momento preocupante, por outro também são dias de celebrar o cinema brasileiro, que esteve representando linda e fortemente o nosso audiovisual em Cannes, um dos mais conceituados festivais  para esse mercado.

Mercado esse que é resistência e luta diária.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão – sétimo longa do Karim Aïnouz – e The LighthouseRobert Eggers de A Bruxa – produzidos pela produtora nacional RT Features de Rodrigo Teixeira conquistaram os prêmios Melhor Filme na mostra Un Certain Regard – a primeira vez que um filme brasileiro é contemplado com o prêmio máximo nesta categoria (fonte @sinnyassessoria), e o melhor filme da Quinzena dos Realizadores da FIPRESCI – Federação Internacional de Críticos de Cinema, respectivamente.

Bacurau, do cineasta Kleber Mendonça – Aquarius – e que traz Sônia Braga entre os protagonistas também teve seu grande momento, conquistando o prêmio do Juri no festival.

Cinema de Guerrilha

Contudo o caminho aos tapetes vermelhos e premiações não vêm do nada, até lá, e mesmo nele, nosso audiovisual é repleto de muito esforço, suor e paixão.

E é pra falar um pouquinho sobre esse cinema, que sobrevive e ganha espaço pela paixão e luta de muitos artistas em nosso país, que trazemos a cineasta Raquel Freire, da Somaê Filmes, que está lançando hoje, às 19h30, o filme independente e inspirado no livro homônimo de Octavio Paz, Labirinto da Solidão, que traz uma reflexão sobre identidade e loucura.

Sinopse

O Labirinto da Solidão conta a história de Isabel, uma mulher que tinha tudo o que sempre quis e, de repente, se vê com a vida vazia. Tudo o que acreditava perdeu o sentido. O filme é sobre identidade, escolhas de vida e loucura.

Entrevista

Como você conheceu o escritor Octavio Paz e de que maneira a forma de escrever dele contribuiu/contribui na sua própria maneira de contar história, visto que você assina direção e roteiro dessa produção inspirada na obra dele?

Meu primeiro contato com o autor Octavio Paz foi na faculdade de Jornalismo. Lemos e analisamos a obra O Labirinto da Solidão. A maneira como o autor falava sobre solidão me instigava muito, pois, até o momento, nunca tinha parado para pensar neste tema.

Do livro, veio a compreensão de que nascemos e morremos sozinhos (nossas maiores experiências solitárias), mas passamos a vida tentando evitar a solidão. Essa frase ficou na minha cabeça.

Tempos depois, passei por um período da minha vida em que essa compreensão começou a fazer sentido para mim, pois estava me sentindo só, estava vivendo uma fase de solidão. E comecei a me questionar por que me sentia daquela maneira, por que estava só. Aí, voltei a ler o livro e entendi que eu passei muito tempo tentando não me sentir só e, para isso, estava levando uma vida baseada em agradar pessoas ao meu redor. Mas não deu certo, claro, e por isso sentia a solidão.

Daí, surgiu a ideia para o roteiro: Uma mulher que vive tentando agradar a todos, ser perfeita e estar sempre rodeada de amigos, mas que não presta atenção em sua própria vida e suas reais necessidades.

Além desse meu momento e do livro, me inspiraram também algumas histórias de amigos e família para escrever o filme.

 

Vocês conseguiram contato com o escritor para apresentar o filme? Houve algum diálogo anterior, até mesmo para processos de autorização e uso de elementos do livro?

Não houve. O escritor faleceu em 1998, no México. O filme é inspirado em sua obra pelo tema e percepções, somente.

O cinema de guerrilha tem sobrevivido através da paixão e dedicação de outros cineastas que assim como você, apesar dos desafios, vivem paralelamente as funções de profissionais em jornadas habituais para pagar boletos.

São esses mesmos personagens da “vida real” que se equilibram para no tempo livre produzir e desenvolver suas obras artísticas, a custos baixíssimos e mediante muita colaboração.

Considerando tudo isso, na sua perspectiva, qual a importância do cinema de guerrilha e especificamente no cenário nacional atual, como ele pode fortalecer esse mercado?

O cinema de guerrilha, hoje, tem importância muito grande no atual cenário cultural do nosso país. Primeiro, por produzir obras que independem de recursos públicos, editais e patrocínios tão difíceis de conseguir. Já que a verba destinada à cultura é pouca e não contempla a todos os agentes. No cinema, os recursos são ainda menores e as produtoras mais experientes do mercado têm a preferência.

Assim, o cinema de guerrilha existe e é importante para:

  • Transmitir uma mensagem ao público e impactar pessoas com histórias;
  • Por colocar a criatividade e ideias em primeiro plano – já que a falta de recursos nos obriga a pensar em soluções para realizar os filmes;
  • Por mostrar o poder da coletividade e colaboração – ao unir pessoas com diversos talentos em prol de um mesmo objetivo;
  • Por dar voz aos pequenos produtores e realizadores. E hoje isso se torna ainda mais possível pelo alcance que a internet e redes proporcionam;
  • E, principalmente, pela possibilidade de criar, experimentar, tentar, ousar. Afinal, a arte é isso. E o cinema de guerrilha não precisa se enquadrar em um estilo, ou padrão. É um cinema mais livre, experimental. Que não deixa de fora a qualidade e esforço, claro, mas que não precisa se prender às receitas de sucesso de bilheterias.

A partir do título, discorra um pouco sobre solidão? Podemos dizer que o ser humano do nosso tempo já não sabe mais viver os momentos desacompanhados?

A solidão hoje, a meu ver, é o medo de grande parte da sociedade. E esse medo se dá, principalmente, por nós não entendermos exatamente o “sentir-se sozinho”. No livro O Labirinto da Solidão, Octavio Paz explica que o ser o humano se reconhece no outro. Mas é somente em contato consigo mesmo que ele pode se conhecer. E isso só se da quando ele está só.

Ao estar em contato com nós mesmos, é possível entender nossos pensamentos, sentimentos e emoções. É possível compreender quem somos e nosso propósito neste mundo, o que realmente faz sentido para nós.

Ao estar em contato com os outros, aprendemos, temos percepções e compreensões das pessoas à nossa volta. E é natural que isso nos influencie. No entanto, é necessário compreender o que é realmente seu e o que vem das pessoas. E avaliar o que faz ou não sentido para nós.

O termo solidão é quando o “estar só” incomoda, causa angústia, medo. É como se não quiséssemos esse contato conosco, com nossos pensamentos. A solidão é o medo de olhar para dentro e se reconhecer.

Nos dias atuais, percebo que estamos cada vez mais fugindo desse contato conosco, seja com a presença de amigos e família ao redor, seja nas redes sociais, compartilhando seus momentos e acompanhando os das outras pessoas em “tempo real”. E isso é perigoso, pois a vida se torna automática e pode acontecer de você não saber o porquê de estar fazendo algo e perceber que muitas coisas na sua vida não têm sentido.

No filme, é exatamente isso o que acontece com a personagem. Ela não se vê na própria vida que levava.

De que maneira obras como a tua podem contribuir e atrair mais mulheres para o mercado audiovisual, não somente em posições “tradicionais”, leia-se atuando e produzindo, contudo assumindo direção de fotografia e direção, por exemplo?

Ao escrever e dirigir o filme, assumindo a produção e liderança da uma equipe, sinto uma grande responsabilidade e, ao mesmo tempo, orgulho por mostrar que nós somos capazes de fazer tudo o que nos propomos.

Muitas mulheres precisam compreender que nós somos as protagonistas e responsáveis por nossas vidas. Podemos ajudar os outros, ser auxiliares e assistentes, mas sabendo que são degraus para posições maiores. Não devemos nos contentar em ser “ajudadoras” apenas, se o que queremos realmente é algo maior. O caminho para a liderança é longo e difícil, mas devemos almejá-lo e conquistá-lo, sim! Nós merecemos.

No filme O Labirinto da Solidão, procurei mostrar a mulher como centro da história e abordar diversos aspectos da nossa vida, seja no amor, trabalho, maternidade e em contato consigo mesma.

Ao falar sobre “atender expectativas alheias”, nós, mulheres, sabemos bem o que é isso. Desde crianças, somos ensinadas a ser perfeitas para ser amadas – pode parecer radical, mas no fundo, é isso mesmo. Se olhar ao redor, vai perceber que sempre temos a obrigação de dar conta de tudo. Estudar, ter uma carreira bem-sucedida, casar-se, ter filhos, ser uma boa mãe e esposa, ser amáveis, compreensivas, estar sempre de bom humor e belas. É preciso cuidar do nosso corpo, ao mesmo tempo que cuidamos de tudo ao nosso redor. Afinal, somos cuidadoras.

Se algo não vai bem em alguma dessas áreas, é como se falhássemos. Então, nós sempre estamos tentando ser melhores e provar que somos capazes.

Hoje, isso está mudando e estamos tendo a consciência de que não precisamos ser como a sociedade quer que sejamos. Que temos que agradar a nós mesmas antes dos outros. Isso é ser “líder de nós mesmas”, dos nossos sonhos e objetivos. É fazer o que realmente queremos e almejamos. E não o que dizem que devemos ser ou fazer.

 

Ficha técnica:

Direção e Roteiro: Raquel Freire

Direção de fotografia e assistente de direção: Adriano Gomez

Produção Executiva: Joseph Merencio e Jordania Miranda

Montagem: Raquel Freire e Adriano Gomez

Direção de Arte: Raquel Freire

Cinegrafista: Bino Reises

Produção: Somaê Filmes

Elenco:

Luciane Massaro, Rodrigo Sanavio, Manuela Prado, Juliana Werneck de Abreu, Jordania Miranda, Lena Mota, Aline Bimbatti e Margot Varella.

 

Première

Hoje, 27 de maio, às 19h30, o Cine Olido (Centro Cultural Olido, Av. São João, 473)