Nota:

Data de lançamento: 18 de julho de 2019 (1h58min) Direção: Jon Favreau Elenco: Donald Glover, Beyoncé Knowles-Carter, James Earl Jones, Seth Rogen, Billy Eichner, John Oliver, Alfre Woodard, Chiwetel Ejiofor, JD McCrary, Shahadi Wright Joseph, John Kani, Florence Kasumba, Eric André, Keegan-Michael Key Gênero: Aventura Nacionalidade: EUA
7.5

Desde que a Disney começou a produzir live-actions de seus clássicos animados, um dos filmes mais esperados pelo público passou a ser a adaptação de O Rei Leão. A animação de 1992 é uma das mais aclamadas do estúdio e marca o auge da era de ouro das animações Disney, além de ter um lugar especial no coração de milhões de fãs em todo o mundo. Essa nova versão que acaba de chegar aos cinemas apresenta exatamente a mesma história que conhecemos, porém com uma roupagem muito mais realista, através de uma animação impecável que nos transporta direto para as savanas africanas.

A história gira em torno do jovem leão Simba (JD McCrary/Donald Glover), que anseia por se tornar rei, herdando o trono de Mufasa (James Earl Jones), seu pai e rei da Pedra do Rei. Com uma personalidade corajosa e forte, Simba vive à sombra de um futuro eminente onde terá que assumir o trono, o que o leva a muitas dúvidas, temores e inseguranças. Scar (Chiwetel Ejiofor), irmão de Mufasa, vê em Simba um obstáculo em seu caminho para conquistar o trono. Ao unir forças com as hienas, Scar arquiteta um maquiavélico plano para tirar o próprio irmão e sobrinho do seu caminho. Depois de um trágico acontecimento, Simba se vê forçado a fugir do reino, encontrando o javali Pumba (Seth Rogen) e o suricate Timão (Billy Eichner), que lhe ensinam uma nova filosofia de vida sobre esquecer os problemas (Hakuna Matata). Anos se passam, e um reencontro inesperado com sua amiga de infância, Nala (Shahadi Wright Joseph/Beyoncé Knowles-Carter), traz de volta fantasmas e sentimentos do passado de Simba que o obrigam a enfrentar seus maiores medos e decidir se deve ou não assumir seu papel como verdadeiro rei.

A história não possui grandes mudanças com relação ao original. Diálogos e cenas são reproduzidos com fidelidade em boa parte do filme, o que deve agradar aos fãs do original. O grande diferencial desse filme é a computação gráfica utilizada para dar vida aos animais e aos cenários. A perfeição e o detalhamento de tudo, desde o mais pequeno animal caminhando na grama, até uma manada de elefantes é inacreditável. A sensação que temos é que filmaram animais de verdade e apenas fizeram eles falarem usando efeitos especiais, tamanha proximidade com a realidade. Tudo é realizado com muito cuidado: o design dos animais, a forma como eles se movem, os sons que produzem, etc.

Tudo isso contribuiu para dar vida à personagens que, na animação original, tinham a vantagem de serem retratados de forma cartunesca, produzindo expressões próximas às humanas. Aqui isso se torna um obstáculo. Seria impossível fazer leões demonstrarem sentimentos através de seus rostos, já que isso não acontece na vida real. É aí que entra a direção de Jon Favreau. Realizando um trabalho parecido (mas não tão eficaz) com o que fez em Mogli – O Menino Lobo, Favreau utiliza a movimentação dos animais para reforçar as emoções que os personagens devem passar. A forma como um suricate se movimenta é parte chave para o humor de Timão funcionar, por exemplo. O conjunto de linguagem corporal e vozes dubladas, de certa forma, tenta compensar a falta de expressão que para muitos pode prejudicar a emoção em cenas que exigem que o público se identifique com os sentimentos dos personagens.

A direção de Favreau não traz grandes mudanças em relação à animação original. Muitas vezes ele reproduz exatamente os mesmos planos sequências que já conhecíamos do clássico da Disney. Seus momentos de brilhar como diretor são as cenas em que ele foge do material original e apresenta a beleza da natureza para o público. Tudo é muito detalhado e real, com uma fotografia impecável que traz beleza até à cenas simples. Momentos que parecem bobos, como um monte de formigas levando alimento para o forgmigueiro, são apresentadas como forma de reforçar a mensagem de que tudo está intimamente e delicadamente interligado no grande ciclo de vida que é a natureza. É lindo ver como a história de Simba e de todo o reino depende dessas pequenas interações e desse equilíbrio natural para acontecer.

O elenco merece destaque, em sua maioria. James Earl Jones continua imponente e marcante como Mufasa, e nomes como Donald Glover e Beyoncé representam seus papéis de forma satisfatória e participam de um dos momentos mais lindos do filme ao cantarem juntos. A versão de Chiwetel Ejiofor para o vilão Scar é menos caricata e queer do que a do filme original, porém traz uma ironia e maldade através da sua voz com uma força assustadora. John Oliver dá voz a um Zazu de forma brilhante e Alfre Woodard interpreta uma Sarabi com a força que só uma rainha poderia ter.

Porém, todo o destaque fica para Seth Rogen e Billy Eichner. Suas versões de Timão e Pumba roubam a cena do filme com muito humor e originalidade. Os atores interpretam a dupla de forma respeitosa com o texto original, mas acrescentam muitas coisas novas para a dinâmica dos dois, utilizando muita metalinguagem e brincando com a própria noção de que eles sabem que essa história é apenas uma nova versão de uma história já contada para o público. E isso é simplesmente genial.

As músicas originais de Elton John estão de volta no filme e continuam belíssimas. Algumas modificações acontecem (a música de Scar é reduzida, por exemplo) e as cenas cantadas possuem menos glamour e encanto do que as mesmas cenas do original, mas isso é compreensível, já que seria difícil fazer um filme realista como esse e ainda exigir uma teatralidade para os seus personagens. A surpresa fica com The Lion Sleeps Tonight, que é a cena musical mais original do filme. Se destacam também as novas versões de Hakuna Matata, Can You Feel The Love Tonight e, é claro, a poderosa The Circle of Life. Além disso, Hans Zimmer retorna como compositor da trilha sonora do filme, trazendo de volta temas icônicos da animação e expandindo sua força com novos segmentos musicais e sonoros, principalmente nas cenas mais épicas e nos momentos mais tocantes.

Visualmente impecável e com um elenco de peso, O Rei Leão volta aos cinemas com menos carisma e emoção do que o original, mas ainda com força para matar a saudade dos fãs mais velhos e apresentar essa história inesquecível com ar shakespeariano para uma nova geração. O original dificilmente vai perder seu posto de obra-prima perante esse filme, porém a nova roupagem mais realista da história de Simba ainda vale o ingresso. Percebe-se que essa não é uma tentativa de superar a animação de 1992, e sim homenagear e apresentar uma nova visão dela. Há lugar para os dois nos corações dos fãs, independente de qual versão cada um vai preferir. E tá tudo bem com isso. Afinal, Hakuna Matata, não é mesmo?