Nota:

Data de lançamento: 13 de junho de 2019 (1h 38min) Direção: Neil Jordan Elenco: Isabelle Hupert, Chloë Grace Moretz, Maika Monroe Gênero: Thriller, Suspente Nacionalidade: EUA
7.0

Quem nunca se pegou vidrado com um filme de stalker no cinema? Muitos diretores e roteiristas já abordaram esse subgênero do suspense em suas obras, agradando ao público com reviravoltas, personagens complexos e muita tensão. O novo filme de Neil Jordan (“Entrevista com o Vampiro”) chega aos cinemas com a fórmula mais clichê e absurda possível para esse gênero, mas que se destaca pela qualidade técnica e pelo talento das protagonistas.

“Obsessão” conta a história de Frances (Chloë Grace Moretz), uma garçonete que acabou de perder a mãe e que mora em Nova Iorque com sua melhor amiga. Certo dia, voltando para casa, a garota acha uma bolsa esquecida no metrô. Ao se dirigir ao endereço encontrado entre os pertences, Frances conhece Greta (Isabelle Hupert), uma senhora pianista de aparência frágil e jeito bondoso que se diz dona da bolsa. Nasce assim uma amizade entre as duas, que passam a dividir momentos juntas até o momento em que Frances começa a perceber que sua mais nova amiga não é tão inocente e adorável quanto ela pensou que fosse. Greta aos poucos se mostra cada vez mais instável e com traços fortes de obsessão que impedem que a garota se afaste dessa relação tóxica e danosa.

A história é intrigante e assume uma perspectiva interessante. A relação construída entre Frances e Greta, apesar de brincar com o tom amoroso e sexual que estamos acostumados a ver nesse tipo de roteiro sobre stalkers ou psicopatas obsessivos, prefere usar uma abordagem mais próxima de uma relação entre mãe e filha. Frances vê em Greta um conforto para a falta de presença materna que sente, enquanto Greta enxerga na menina uma oportunidade de suprir sua carência e sua constante necessidade de controle sobre o outro.

Nesse ponto, o principal trunfo do filme é na escalação do elenco. Isabelle Hupert dá um show de interpretação, criando uma atmosfera de tensão que gira totalmente em torno da forma como sua personagem se comporta durante o filme, começando de forma muito delicada, adorável e sensível e culminando em um clímax de pura psicopatia, violência e maldade. Já Chloë Grace Moretz, apesar de não se destacar tanto em termos de atuação e inspiração para sua personagem, entrega uma interpretação sincera e satisfatória. Parte do problema talvez esteja no fato de que Frances possui uma personalidade extremamente entediante, passiva e sem graça. O contraste fica ainda mais forte quando Erica, sua melhor amiga interpretada por Maika Monroe, entra em cena e demonstra ser muito mais interessante, proativa e cativante do que a protagonista. Talvez o filme se tornasse muito mais atraente se Erica desenvolvesse uma relação com Greta, e não Frances.

Quando o fator elenco e atuação são retirados da equação, infelizmente o filme cai na armadilha de se perder no clichê e no absurdo de suas próprias situações. Os personagens agem (ou deixam de agir) o tempo todo de forma irracional, evitando tomar decisões que claramente seriam suficientes para colocar um ponto final em todo o problema da trama. Apesar disso, o filme se destaca pela ótima fotografia acinzentada de Seamus McGarvey, pela trilha sonora cheia de entrelinhas (impossível não perceber a conotação amorosa da primeira cena ao usar uma música romântica como trilha para acompanhar Frances e Greta prestes a se encontrar) e pelo olhar inspirado de Neil Jordan que consegue criar tensão e expectativa mesmo com um roteiro clichê e previsível.

Apesar dos seus problemas e das possibilidades claras que poderiam fazer desse filme uma obra muito melhor e muito mais completa, “Obsessão” é um ótimo entretenimento para quem gosta de suspense e pela oportunidade de ver Isabelle Hupert brilhar em um thriller de stalker. É impossível não rir de nervoso com a força de sua interpretação cheia de psicopatia e maldade e com a tensão criada pela sua personagem. Se a intenção desse filme era gerar essa sensação de desconforto e apreensão, ele só consegue, em grande parte, por causa dela.