O Castelo de Vidro | Crítica


Nós estamos sempre vivendo entre o passado e o futuro. Assombrados pelos acontecimentos do passado, tentamos no presente garantir que as possibilidades se realizem no futuro. Para Jeannette, protagonista interpretada pela premiada atriz Brie Larson em O Castelo de Vidro, o presente é como uma fuga constante de algo do qual ela não consegue se livrar: suas memórias. Atualmente uma jovem bem-sucedida como jornalista, mas sua infância e início da juventude foram marcados pela criação controversa de pais idealizadores, cheios de “boas intenções”, porém sem estabilidade emocional e financeira o suficiente para garantir alguma constância aos filhos, a não ser a das malas no carro com o qual cruzavam as estradas do país.

Conduzidos de um lado à outro, eles alimentam a esperança de construírem juntos um castelo de vidro. É como aquela máxima do dono do burro que deixa sempre uma cenoura diante do animal para incentivá-lo a caminhar tentando alcançar seu prêmio, o que nunca ocorre. O pai cria e alimenta expectativas, especialmente em Jeannette, que mesmo depois de tantas falhas parece ser dos filhos a que ainda mantém uma conexão mais estreita e de fé nesse pai, até mesmo porque o filme é a sua percepção da história. Tanto é, que a medida que ela vai crescendo e buscando o seu próprio caminho, é como se ele se tornasse a sua sombra, questionando quem ela era, o que fazia, quem estava se tornando, o por quê de tudo o que ela decidia. E sim, de alguma maneira mesmo nas criações mais tradicionais, com relações mais tranquilas, todos somos marcados pelas idealizações e expectativas de nossas famílias em nós.

Um agravante a esse modo de lidar com os ideais, é o vício que o pai tem em álcool. Mais do que um olhar otimista, utópico sobre o futuro que nunca se realiza, esses pais atuam de modo um tanto quanto negligente na criação desses filhos. Em muitos momentos é perceptível que eles jogam mais responsabilidades sobre eles do que uma criança estaria apta a suportar. Se por um lado isso contribui para o amadurecimento deles, por outro os impõe uma realidade e dores desnecessárias. Eu entendo que cada um cria os filhos da forma que acredita ser o melhor, mas para quem observa de fora a história contada por esses personagens, a sensação é de incômodo e até de revolta em alguns momentos.

Tudo bem eles não acreditarem numa educação formal, e sim, é ótimo buscarem alternativas que permitam aos filhos experienciar outras possibilidades, contudo há questões e necessidades básicas que precisam ser respeitadas, afinal quando se coloca em risco a vida, a saúde física e psíquica de outro ser, especialmente a de uma criança, a prática torna-se questionável, não?!

Esse sentimento utópico e até mesmo extremista na criação paterna oferecida por um pai à seus filhos presente no enredo de O Castelo de Vidro remete a um sucesso recente do cinema chamado Capitão Fantástico, estrelado por Viggo Mortensen. Entretanto aqui o pai Rex que ganha vida e energia na pele de Woody Harrelson se torna prejudicial em muitos momentos não somente por suas ideologias, como também pelo vício que o consome, já que muitas vezes embriagado extrapola em suas ações.

O longa foi inspirado na história real da escritora e jornalista Jeannette Walls, que ela contou em seu livro de memórias homônimo publicado em 2005, que se tornou um best-seller. É uma história forte, impactante e comovente, apresentada e desenvolvida de maneira impressionante pelo elenco que ainda traz Naomi Watts como a mãe Rose Mary, que na maioria do tempo passa uma impressão de ser alienada pela sua arte, seu amor e dependência emocional por esse marido. E ainda por Ella Anderson, que interpreta formidávelmente Jeannette na infância. É difícil não se comover, não se envolver, até porque trata de questões muito humanas, pertinentes e que nos permitem essa identificação, por mais que tenhamos vivido em realidades distintas.

 

Título Original: The Glass Castle

Lançamento:  24 de agosto de 2017 

Direção: Destin Daniel Cretton

Roteiro: Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham

Elenco: Brie Larson, Ella AndersonWoody Harrelson, Naomi Watts, Max Greenfield, Sarah Snook, Robin Bartlett

Gênero: Drama

Nacionalidade: EUA

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