Por Trás do Céu | Crítica


“Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios. Manoel de Barros

 

As melhores palavras que encontro para definir minhas impressões sobre “Por Trás do Céu”, filme do roteirista e diretor Caio Sóh que chega aos cinemas nessa quinta, 06 de abril, são sensível e poético. Sua obra suscita em mim a poesia de Manoel de Barros, é uma soma de imagens e ações compondo uma dança deslumbrante diante dos olhos, é poesia além das palavras, o encantamento da inocência e da descoberta. A pureza dos sonhos nos desertos que se formam na alma ferida de seus quatro personagens centrais, o sertão dos medos e do ódio, as lembranças que se tornaram cicatrizes em suas memórias, a fé e a esperança que alguns deles possuem no futuro, no local distante, na mudança, no recomeço.

Caio, através dos diálogos de Aparecida, protagonista interpretada por Nathália Dill busca encontrar o sentido onde ele parece não habitar. Para Aparecida o céu simboliza Deus, o desconhecido, um desafio à compreensão dessa mulher sonhadora, que em seus devaneios questiona, questiona mas só é retribuída com o silêncio. Seus questionamentos a Deus, sua esperança em descobrir o que há além do que os olhos dela podem alcançar, seu desejo de conhecer um mundo que parece inalcançável, como se esse mundo com o qual ela sonha reservasse-lhe a chance de um recomeço, de uma vida muito melhor do que aquela a qual ela foi aprisionada até o momento, na qual ele se sente esquecida.

Diante da pobreza ela desenvolveu a habilidade de construir coisas novas e criativas através de descartes, através do daquilo que havia se transformado em lixo para outras pessoas. Seus pés estão presos ao chão, mas seu coração anseia por voar da mesma forma que a sua imaginação o faz, anseia por liberdade, por explorar tudo aquilo que lhe despertar interesse. Enquanto o seu companheiro, Edivaldo, personagem de Emilio Orciollo Netto, tem raízes como árvore e assim deseja continuar, por medo do desconhecido, insegurança com a relação que possuem, pelas diferenças que cada vez os distancia mais. Amargurado e remoendo o passado doloroso, ele se apega a isso para seguir, como se não houvesse nada mais importante. Sem se dar conta que na verdade isso o está destruindo, rompendo as chances que ele tem de reconstruir sua vida a partir de uma nova perspectiva.

Junto deles o amigo Micuim (Renato Góes) é a leveza em pessoa, com uma alegria genuína mesmo diante de uma realidade miserável, de seca, pobreza e isolamento. Seu olhar diante da vida é como o de uma criança, que encontra significância nos detalhes, nos poréns, nos sonhos, na natureza​ e nas pessoas que o cerca. E para fechar o quarteto o olhar desolado e conformado de Valquíria (Paula Burlamaqui), uma visão mais fria e crua da realidade. Que depois de sofrer, parece ter decidido abraçar seu destino sem recorrer, sem sequer vislumbrar a possibilidade de algo melhor.

É um filme que discorre sobre a vida de uma forma simples e agridoce, te conduzindo nessa reflexão existencialista, de modo que é possível se identificar e compreender cada história, cada sentimento ali exposto, pois é algo que nos é comum, nos é conhecido. Caio soube guiar a equipe de uma forma que o drama ganhou um tom próprio, que emociona e sensibiliza, porém sem ser apelativo. Somando-se a isso temos atuações notáveis e uma fotografia maravilhosa que enaltecem o roteiro.

Título Original: Por Trás do Céu

Lançamento: 06 de abril

Direção: Caio Sóh

Roteiro: Caio Sóh

Elenco: Nathalia Dill, Emilio Orciollo Netto, Paula Burlamaqui e Renato Goes

Gênero: Drama

Nacionalidade: Brasil

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