The Breakdown

ELENCO: KiKiLayne, Stephan James, Regina King, Colman Domingo, TeyonahParris, Michael Beach, Aunjanue Ellis, EbonyObsidian, Dominique Thorne, Diego Luna, Finn Wittrock, Ed Skrein, Emily Rios, Pedro Pascal, Brian Tyree Henry, Bobby Conte Thornton DURAÇÃO: 119 min. LANÇAMENTO: 07 de fevereiro de 2019
10.0

Se a Rua Beale Falasse o que ela diria? Contaria os absurdos e o caos do lugar? Falaria das injustiças, da violência, dos amores e desamores que existe lá? Contaria que o caráter é medido pela cor também? Não se sabe de tudo o que acontece nos becos e ruas escondidas, mas a narrativa de James Baldwin e a voz que ele dá a seus personagens dirão exatamente como as coisas são.

Indicado ao Oscar em três categorias – roteiro adaptado, atriz coadjuvante e trilha sonora – “Se a Rua Beale Falasse”, filme adaptado do livro homônimo do autor James Baldwin, chega aos cinemas no próximo dia 07 de fevereiro mostrando o quão merecedor é das categorias as quais foi indicado.

Se a Rua Beale Falasse é um longa filmado pelo aclamado diretor Barry Jenkins (Moonlight) sobre a história de amor entre dois jovens, amigos desde a infância, e os preconceitos que uma família afro-americana sofre nos idos dos anos 70, no Harlem. Tish, jovem de 19 anos, conta a história de cumplicidade, amor e respeito que viveu com o noivo Alonzo Hunt, conhecido como Fonny, antes e durante a prisão do rapaz preso por um crime que não cometeu. O ocorrido acaba estragando os planos dele e da jovem que agora está esperando um bebê.

Não vai precisar de tanto para você perceber o por quê de o diretor Barry Jenkins ser tão aplaudido e para concordar com as indicações que o filme dirigido por ele teve para o Oscar. Adaptado do livro de James Baldwin, autor também consagrado e famoso por abordar críticas raciais pertinentes, o longa metragem consegue captar perfeitamente o tom poético das histórias de Baldwin com uma trilha sonora que dialoga com cores, expressões faciais dos atores e com mínimos detalhes que são apresentados nas cenas e que contribuem para a beleza das imagens da narrativatão bem transformadas em vídeo.

Quando a câmera foca nos rostos personagens deixando-os em primeiro plano o telespectador facilmente consegue sentir as aflições e anseios, mas também o amor forte e a cumplicidade do casal vitima do racismo e do preconceito no bairro onde moram. E por falar em ser vítima da discriminação, temos aqui a luta diária de jovens negros em seus lares familiares tão iguais e ao mesmo tempo tão distintos.

Enquanto a família de Fonny se apresenta como uma família preconceituosa e intolerante, a família de Tish é a que vive a luta constante pela desconstrução da ideia e do olhar da sociedade para o negro tido como marginal e “nojento”. Além dessa dualidade, temos também a questão da sexualização do corpo da mulher e do homem e a corrupção e abuso das autoridades brancas que ditam as regras do lugar.

A personagem Sharon Rivers vivida por Regina King (indicada ao oscar de atriz coadjuvante) é admirável e forte, mas vejo um potencial muito grande em Stephan James (Fonny) e KikiLayne (Tish) também. As expressões dos atores no momento de desespero, na fúria, na tristeza e nas alegrias são admiráveis e passa realidade ao telespectador. As câmeras tão focadas no rosto e nos olhares deles se revelam um recurso eficaz e contribui para a sensação catártica que o telespectador vive nessas cenas.

Enquanto o negro é visto como marginal, bruto e hipersexualizado, aquele que comete crimes e é vândalo, temos aqui a desconstrução disso. Tão raramente se vê um casal negro colocado com tanta ternura, pureza e amor como nas cenas do filme. O sexo não nos é apresentado com a selvageria que costumam mostrar nem vemos negros malsucedidos. Muito pelo contrário, Fonnyestá sempre muito bem vestido, vem de uma família que tem boa qualidade de vida e está constantemente buscando o seu e alimentando sua arte.

O elenco é na sua maioria composto por negros e não deixa a desejar também. Interpretações de boa qualidade e diálogos inteligentíssimos compõem o filme que será lançado na próxima quinta-feira (07) e que merece sua atenção. Fique atento às cores, se permita viver as melodias e escute o que a Rua Beale tem a dizer.

Autor: Diego França – Estudante de letras, aspirante a poeta e escritor

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