Tô Ryca | Crítica


“Não existe governo corrupto numa nação ética”, Leandro Karnal.

Com estreia marcada para a próxima quinta, 22 de setembro, “Tô Ryca”, do diretor Pedro Antônio é o primeiro longa estrelado pela já consolidada na comédia Samantha Schmütz e toca justamente em temas como ética e corrupção, dentro e fora da política/governo.

Com uma safra muito produtiva e rentável de filmes de heróis lotando as salas de nossos cinemas de tempos em tempos, fica difícil para os filmes nacionais atingirem um número satisfatório nas bilheterias. Porém “Tô Ryca”, assim como outros lançamentos nacionais recentes – Desculpe o Transtorno, O Roubo da Taça, Aquarius, Nise o Coração da Loucura, Mundo Cão -, agora parecem ter também a função de termômetro, onde devem antecipar o que  reserva o futuro para os novos projetos.

Tô Ryca

Embora seja uma comédia, e cumpra muito bem o seu papel de divertir o público – Selminha parece estar sempre ligada em 220 volts, com fala rápida e ácida, a protagonista não deixa passar nada e nos carrega com ela nesse turbilhão, sendo de Samantha o grande destaque, mesmo quando o roteiro peca um pouco no rítmo -, é também um filme que nos provoca, nos instiga a questionar as consequências das atitudes que tomamos diariamente, muitas vezes sem o devido ponderamento.

A personagem, uma frentista moradora da periferia do Rio se vê perdida e deslumbrada ao receber o desafio de gastar 30 milhões de reais em 30 dias, sem contudo usar desse dinheiro para adquirir e acumular bens, para então receber uma herança de 300 milhões de reais. Parece uma coisa maluca, e de fato é. Podendo ser considerado quase uma parábola, o desafio leva Selminha por um caminho sem volta, no qual a personagem é colocada à prova a todo momento, o que a faz rever vários conceitos – como por exemplo a velha máxima de que o dinheiro não compra tudo, muito menos é garantia de felicidade –, promovendo assim uma transformação interna e portanto um crescimento pessoal.

Uma dos caminhos encontrado por ela para gastar parte da grana, foi a candidatura nas eleições à prefeitura da cidade do Rio – ocasião mais que oportuna para destacar a temática, especialmente pelo momento de crise política que o nosso país atravessa e ainda por ser lançado justamente há alguns dias das eleições municipais – na qual ela concorre com o personagem mais que caricato Falácio Fausto, representado por Marcelo Adnet, uma referência direta à bancada dita conservadora e ao mesmo tempo hipócrita que tem obtido muito destaque no cenário atual de escândalos e mais escândalos, impeachment presidencial e cassações de mandatos.

O filme nos mostra ainda que não são apenas aqueles que estão evolvidos diretamente na política que são os responsáveis pelos rumos que o país segue, pelo contrário, ele comprova através de cada personagem que a política e seus representantes são na verdade o reflexo de sua população. Quando alguns dos personagens decidem manipular o desafio imposto a Selminha, eles representam àqueles que ao perceberam uma chance de ganhar sobre a “ignorância” alheia, nem sequer questionam suas próprias atitudes, apenas se deixam levar pela ganância e sede de poder.

“Tô Ryca” é com certeza uma comédia que desperta boas gargalhadas em quem assiste – Com figurino extravagante no sentido brega da coisa e muita irreverência (especialmente Selminha) as personagens de Samantha e Katiuscia conseguem fazer graça em situações que normalmente passam despercebidas pelo cotidiano -, no entanto é também uma oportunidade de análise crítica pessoal e pública.

Data de lançamento: 22 de setembro de 2016
Direção:  Pedro Antônio
Elenco: Samantha Schmütz, Katiuscia Canoro, Marcus Majella, Fabiana Karla, Marcelo Adnet, mais.
Gêneros: Comédia
Nacionalidade: Brasil
Nota do Filme: [yasr_overall_rating size=”medium”]