Topflix | Raw


Justine (Garance Marillier) acaba de ingressar na faculdade de veterinária. Tímida e vegetariana, ela se vê no meio de um trote, organizado com a ajuda de sua própria irmã Alexia (Ella Rumpf), veterana da mesma universidade, no qual é obrigada a comer carne. A partir desse acontecimento há mudanças drásticas que mudarão toda sua vida.

Julia Ducournau é responsável pelo roteiro e a direção. A história é bem construída nos dando pistas e revelando lentamente o que pode estar acontecendo com a garota. E sabemos sobre a sua condição ao passo em que ela também descobre, isso cria uma conexão imediata entre público e personagem. O roteiro sabe muito bem como nos levar aonde precisamos. E nele há uma metáfora interessante sobre aceitação, inadequação no mundo, descoberta da sexualidade, bullying, abordados de uma forma nova, instigante e brutal.

Já a direção é sua grande força. O modo com que a diretora monta as cenas é bem angustiante e há sequências em que essa sensação nos deixa presos na cadeira. Outras que são assustadoras e, com certeza, vai dar nojo na maioria dos espectadores. Não chega a ser um filme gore, mas flerta muito de perto com esse  gênero. As cenas em que mostra o canibalismo são, realmente, impressionantes. A relação das irmãs é uma mistura perfeita de amor e ódio, de querer estar perto e de se distanciar, e é essa relação que faz toda história andar. A percepção que sua irmã sabe o que está acontecendo é clara, mas em momento algum há um sentimento fraternal, de ajudar a entender o que de fato acontece. Destaque para a maquiagem, principalmente no final, onde tudo é realmente assustador.

Apesar do filme ter uma dupla principal de atrizes amadoras, estas estão muito bem nos seus papéis, estreiam com o pé direito. Garance Marillier consegue passar toda angústia de uma menina que, ao crescer, se depara com um mundo maior e mais complexo do que pensava, ver a mudança de postura de sua personagem ao longo da trama é muito interessante, transparece todo arco dramático com pequenos gestos. Ella Rumpf faz uma Alexia que não se mostra muito preocupada com a condição da irmã e tem sentimentos conflitantes por ela, tentando fazê-la aceitar sua condição ao invés de ajudá-la a entender. Já Rabah Naït Oufella faz o Adrien, que não tem noção de onde está se metendo e o risco que está correndo, apesar de aparecer pouco, é imprescindível para a trama funcionar.

Raw apesar de ser assustador e violento, é mais drama que terror. Consegue chocar ao mostrar muitas metáforas interessantes, de um modo bem cru (piada involuntária). Vale a pena ser visto e discutido.