The Breakdown

Data de lançamento: 20 de junho de 2019 (1h 40min) Direção: Josh Cooley Elenco: Tom Hanks, Tim Alley, Tony Hale, Annie Potts, Christina Hendricks, Jordan Peele, Keegan-Michael Key, Madeleine McGraw, Keanu Reeves, Joan Cusack Gênero: Animação Nacionalidade: EUA
10.0

Quando Andy se despediu de Woody, Buzz e seus amigos na varanda da Bonnie no final emocionante e emblemático de Toy Story 3 (2010), todos pensamos que aquela seria a última vez que veríamos aqueles brinquedos tão amados na tela do cinema. Ao anunciar Toy Story 4, a Disney/Pixar deixou os fãs com uma pulga atrás da orelha e questionando se uma continuação era realmente necessária depois de uma conclusão tão perfeita como a do terceiro capítulo da franquia. Eis aqui uma boa notícia: a história dos brinquedos continua e não decepciona.

Nesse novo filme, vamos encontrar os brinquedos adaptados à sua nova criança. Woody não é mais o líder e muito menos o brinquedo favorito da Bonnie. Após o difícil dia de adaptação da menina no jardim de infância, Bonnie retorna para casa com um brinquedo que ela mesma fez de materiais reciclados, o assustado e engraçado Garfinho. Preocupado com o seu propósito pessoal e com o bem estar da menina, Woody se propõe a ajudar Garfinho a se ver como um brinquedo e não como um pedaço de lixo, enquanto Bonnie e sua família os levam para uma viagem até um parque de diversões. Uma viagem que reaproxima velhos companheiros, traz novos amigos e chama a atenção de uma boneca misteriosa que deseja mais do que tudo algo que só Woody pode oferecer.

O grande trunfo desse filme é explorar e aprofundar ainda mais as questões que ditam a personalidade e as decisões do Woody. Ele é o grande protagonista e toda a aventura é construída para desenvolver o personagem. Ao se ver em uma posição completamente oposta à que estava acostumado quando era do Andy (um líder e favorito do seu dono), Woody questiona sua função como brinquedo, enquanto tenta ajudar o Garfinho a se ver como um. A dinâmica lembra o primeiro filme da franquia, quando Buzz ainda não conseguia se enxergar como um brinquedo. Porém, nesse filme, Woody também precisa mudar a forma como se vê e como se identifica nesse mundo.

As metáforas e a forma como o filme lida com questões tão profundas e complexas para o que deveria ser a psique de um brinquedo é de uma beleza e genialidade sem tamanho. É impressionante a capacidade que a Pixar tem de pegar personagens que deveriam ser rasos e simples, como brinquedos, e transformá-los em algo mais humano do que os próprios seres humanos que fazem parte da história. E o melhor de tudo: faz com que nos identifiquemos profundamente com eles. Se em Toy Story 3 a maior lição era o desprendimento de deixar a infância para trás, aqui nos identificamos com a necessidade de amadurecimento dos personagens. E tudo faz perfeito sentido.

Durante sua jornada, Woody reencontra Betty, a pastora de ovelhas que sempre teve um desenvolvimento quase nulo nos filmes anteriores da franquia. Dessa vez, ela tem a chance de brilhar, perdendo a imagem de donzela delicada e mostrando uma personalidade forte, independente e empoderada ao escolher uma vida sem pertencer a nenhuma criança, se preocupando mais em viver sua vida conhecendo o mundo, novas crianças e novos brinquedos. Enquanto a maioria dos personagens da história está perdido ou buscando algo dentro de si, Betty surge como o único brinquedo que realmente sabe quem é e o que quer para si.

Nesse filme vemos menos dos brinquedos que já conhecíamos, o que é compreensível por um lado, já que eles foram explorados à fundo nos filmes anteriores, mas que prejudica um pouco a emoção dos últimos minutos do longa. Em compensação, somos agraciados com novos personagens que variam entre o humor do Coelhinho e Patinho, do carisma de Duke Caboom, até a tridimensionalidade e complexidade da vilã Gabby Gabby. Vale destacar que ambas as dublagens em português e em inglês estão em excelente qualidade, trazendo o elenco original e gratas surpresas como a participação sensacional de Antonio Tabet (Coelhinho) e Marco Luque (Patinho) na versão brasileira e de Keanu Reeves (Duke Caboom) na versão original.

Em termos técnicos, esse é o filme mais impecável da franquia. A qualidade da animação produzida pela Pixar está assustadoramente realista. As texturas, materiais, cenários e paisagens beiram a perfeição e parecem, em muitos momentos, cenas de um live-action. A fotografia contribui ainda mais para isso ao utilizar luzes, sombras e iluminação de forma belíssima, transformando cenas simples, como brinquedos olhando para dentro de um antiquário por uma claraboia ou dois brinquedos conversando debaixo de um carro em plena tempestade, em uma verdadeira obra de arte. A direção de Josh Cooley (estreante na direção de um longa metragem, mas já conhecido do público por seu trabalho como roteirista em Divertida Mente) colabora muito com isso através de belas movimentações de câmera e um olhar extremamente poético sobre a obra.

Toy Story 4 chega pra provar que esses brinquedos tão amados ainda possuem muita história para contar e um carisma cada vez mais forte. Esse filme não tem a carga emocional do seu anterior (apesar de a emoção ainda estar muito presente), mas não fica abaixo da qualidade e genialidade da franquia, equilibrando bem seus momentos de humor, aventura, romance e emoção. Esse filme abre as portas para um novo recomeço da franquia e para novas possibilidades de histórias. Resta saber se esses brinquedos continuarão sendo bem cuidados como vêm sendo por mais de 20 anos para que possamos continuar nos divertindo e nos emocionando com suas aventuras.