Memoráveis | Trainspotting – sem limites


Escolha uma vida. Escolha um emprego. Escolha uma carreira. Escolha uma família. Escolha uma merda de uma televisão grande, escolha máquinas de lavar, carros, CD players e abridores de lata elétricos. Escolha boa saúde, colesterol baixo, e plano dentário. Escolha prestações fixas para pagar. Escolha uma casa para morar. Escolha seus amigos. Escolha roupas de lazer e uma bagagem que combine. Escolha um terno feito do melhor tecido. Escolha se masturbar e pensar quem diabos você é em uma manhã de domingo. Escolha sentar no sofá assistindo programas que nada te acrescentam, game shows, estufar-se comendo um monte de porcarias. Escolha apodrecer no fim de tudo, numa casa miserável, envergonhando os pirralhos egoístas que você gerou para te substituírem. Escolha seu futuro. Escolha sua vida. Mas por que eu iria querer me preocupar em fazer coisas como essas? Eu escolhi não escolher uma vida: eu escolhi outra coisa. E a razão? Não há razões. Quem precisa de motivos quando se tem heroína?

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Assim começa Trainspotting, se protagonista diz essas frases em meio a uma perseguição ao som de “lust your life” de Iggy pop. E desde começo já fica claro que este é um filme que trata de escolhas, pois viver é sem dúvida fazer escolhas. Baseado no livro homônimo de Irvine welsh (que faz ponta no filme como um traficante), o nome que ele deu a obra diz muito sobre o que será abordado. Trainspotting, no Reino Unido, é uma expressão usada para uma atividade sem sentido, ver trens passar, na explicação de Welsh: “Trainspotting é uma atividade fútil. Exatamente como é o uso de drogas.”

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Então somos apresentados a Mark Renton (Ewan Mcgregor), Spud (Ewen Bremner), Sick Boy (Jonny Lee Miller), Tommy (Kevin McKidd) e Begbie (Robert Carlyle) jovens drogados (com exceção dos dois últimos) que não tem grandes perspectivas para vida. É em meio a realidade de desilusão e apatia que a droga surge, dando sentido à vida. E é interessante o quanto os usuários de “drogas” são repreendidos por aqueles que não usam, contudo todos fumam e bebem álcool demais, mostrando que as diferenças são menores do que aparentam ser. Temos um filme que fala de individualidade excessiva, consumismo, fragilidade das relações, falta de perspectiva e prazer ( Ao usar heroína Renton sentencia: Pense no melhor orgasmo que já teve, multiplique por mil e mesmo assim não chegará nem perto)

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Tudo isso potencializado pela excelente direção de Denny Boyle. ele consegue extrair dos atores o melhor que cada um pode oferecer. E o cuidado a retratar aquela realidade é visível, desde das locações, lugares sempre sujos, caindo aos pedaços até as imagens da preparação do uso das drogas em closes fechados, mostrando os detalhes. Dois destaques são importantes as soluções gráficas que ele apresenta em alguns momentos são geniais ( o momento da overdose de Renton- com música perfect day de Lou Reed- e o outro em que ele sente tédio ao parar de usar as drogas, sem falar da sequência histórica do banheiro). Sem falar da trilha sonora que se encaixa perfeitamente, Lou reed, Iggy pop, fatboyslim entre outros que só contribuem pra aumentar o envolvimento do expectador.

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Trainspotting -sem limites é um filme inteligente, divertido, que usa o peso dos assuntos que aborda para envolver o espectador, sem nunca ser enfadonho ou sermonico. Em 27 de janeiro de 2016 estreou, no Reino Unido, o Trainspotting T2, onde acompanhamos os mesmos personagens 20 anos após os acontecimentos do primeiro. No Brasil a previsão de lançamento é 16 de fevereiro.