Uma Família de Dois | Crítica


O cinema francês é uma indústria com uma interessante autonomia produtiva. Seu mercado é contemplado com estrelas que fazem sucesso não apenas na França, mas também em todo o mundo. Sua indústria cinematográfica é conhecida por obras mais cults, de grande apelo artístico, dramático e técnico. Tal característica, porém, não limita suas produções apenas a esse nicho de mercado, podendo passear também por produções mais próximas do estilo hollywoodiano de fazer cinema. Um exemplo disso é “Uma Família de Dois”, novo filme do cineasta Hugo Gélin, que é uma refilmagem do mexicano “Não Aceitamos Devoluções” e que tenta se equilibrar entre a comédia e o drama, superando sua obra original e conquistando o público com essa fórmula.

A história gira em torno de Samuel (Omar Sy), um funcionário mulherengo de um resort na Riviera Francesa. Acostumado com uma rotina de muita farra, festas e curtição, ele vê sua vida virar de cabeça pra baixo quando Kristin (Clémence Poésy) bate em sua porta e abandona em suas mãos uma bebê de três meses que, segundo ela, é filha de Samuel. Desesperado, ele parte rumo à Londres na esperança de reencontrar Kristin e devolver a menina. Porém, é tarde demais e Kristin some do mapa sem deixar rastros. Sem ter como voltar para seu país, Samuel decide assumir a paternidade do bebê. Oito anos depois, ele trabalha em Londres como dublê e construiu um laço forte com a pequena Gloria (Gloria Colston), que mesmo tendo uma vida cheia de diversão, momentos lúdicos e carinho de Samuel, ainda sonha em conhecer a mãe que o pai nunca teve a coragem de dizer que a abandonou.

A trama assume em quase sua totalidade o clima de uma leve comédia, ao construir a relação de pai e filha desenvolvidos por Samuel e Gloria. O roteiro brinca constantemente com a diferença entre ser maduro e imaturo através da alma infantil do personagem de Omar Sy e como ele enfrenta os desafios da vida. Isso se reflete na educação e na rotina que ele cria em conjunto com Gloria ao longo dos 8 anos juntos, baseada em diversão, brincadeiras e permissividade de mais e responsabilidade, autoridade e maturidade de menos. O apartamento dos dois parece um parque de diversões, os compromissos importantes de ambos (como escola e trabalho) são trocados por uma sessão de cinema 3D ou uma ida ao circo. Indo mais à fundo, toda a vida da menina e o que ela sabe sobre a própria mãe se baseia numa infantil e lúdica mentira que Samuel cria para que a menina não sofra com o abandono que sofreu.

O tom do filme começa a mudar quando a necessidade de Gloria conhecer a mãe se torna algo urgente e Kristin finalmente reaparece para conhecer sua filha. A trama então ganha tons de drama e passa a deixar de lado a comédia para tentar emocionar o seu público. Essa transição é onde o filme perde um pouco o pulso firme e cai na armadilha de tentar equilibrar os dois gêneros ao mesmo tempo em tela, mesclando cenas fofas e engraçadas entre os personagens com momentos tensos e pesados, como um drama de tribunal e o diagnóstico de uma doença terminal para um dos personagens. Isso passa a impressão que o longa não sabe exatamente o que quer ser e deixa o espectador um pouco confuso sobre o tipo de filme que está assistindo.

Apesar dessa pequena falha em seu terceiro ato, a direção de Hugo Gélin é extremamente humanista e garante que o público se identifique com a história e seus personagens, seja nos momentos de comédia quanto nas cenas dramáticas. Grande parte desse trunfo se deve também ao elenco de ótima qualidade. Omar Sy tem um carisma e uma energia contagiantes e que preenchem a tela em todas as cenas. Ele é o ator que consegue passear de forma mais natural entre a comédia e o drama na história. Já a doçura de Gloria Colston é apaixonante. A química que ela constrói com Omar é o alicerce do filme e é o que garante que todos saiam do cinema ao menos com os olhos marejados. Clémence Poésy, famosa pelo papel de Fleur Delacour na franquia Harry Potter, cumpre seu papel na história de forma satisfatória apesar da constante expressão de tensão que ela estampa na maior parte das suas cenas. Antoine Bertrand é o amigo gay de Samuel que serve como um divertido alívio cômico nos momentos mais pesados e que, infelizmente, se torna uma ponta solta no final da história sem uma conclusão clara para seu personagem.

Com um design de produção muito satisfatório, uma fotografia que varia entre o colorido da França e o acinzentado de Londres, passando pela trilha sonora coerente, e uma trama que guarda uma ou outra reviravolta para surpreender o espectador, “Uma Família Para Dois” só não é um filme perfeito por não saber ao certo se deveria ser uma comédia dramática ou um drama engraçado. O elenco está em ótima sintonia e garante que o filme ganhe muitos pontos e que o público se emocione com sua trama. Mesmo com suas falhas, vai ser difícil que a produção não arranque risadas leves e lágrimas pesadas de quem for assistir. O cinema francês também comete erros ao tentar se aproximar de obras mais hollywoodianas, porém, ao contrário de muitas produções americanas, ele sabe que a chave para agradar o espectador é apostar em histórias humanas e de fácil identificação. E isso é o que não falta nesse filme.

Título Original: Demain tout commence

Lançamento: 29 de Junho de 2017

Direção: Hugo Gélin

Roteiro: Hugo Gélin, Jean-André Yerles, Mathieu Oullion

Elenco: Omar Sy, Clémence Poésy, Gloria Colston, Antoine Bertrand, Ashley Walters

Gênero: Comédia dramática

Nacionalidade: França, Reino Unido

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