UNA | Crítica


Um cineasta ao trazer sua história para as telas deseja que o público se interesse, se conecte, sinta empatia, mesmo quando os personagens são considerados vilões, anti-heróis e afins, mas como todos sabem nem sempre isso é possível. Outras vezes talvez nem seja isso, talvez a intenção esteja mais em provocar, te desafiar a vencer o desconforto, seus próprios limites, a angustia e o mal-estar gerado pela obra e seus personagens.

No caso de “UNA”, filme com roteiro de David Harrower, baseado em na peça “Blackbird” e direção de Benedict Andrews que estreia nessa quinta, 13, a segunda opção é a que melhor se aplica à minha experiência de observá-lo. Ainda agora ao relembrar sinto um mal-estar no estômago, é como se me fosse algo indigesto. Isso se deve ao fato de a protagonista, uma adolescente/jovem abusada romantizar a sua relação com o abusador, e mesmo após anos distante dele, que havia sido preso, liberado depois de 4 anos no cárcere e reconstruído sua vida como um “homem de bem” querer retomar a história de onde haviam parado.

Não há muitos diálogos, é um filme mais baseado nas expressões e ações de seus personagens, com ângulos que buscam realçar cada uma delas, deixando em muitos momentos os ambientes em desfoque, como se eles fossem dispensáveis, pois tudo ao que precisaríamos nos ater estivesse na atuação da dupla. Ele tentando justificar suas atitudes como a de um homem apaixonado, que faria tudo por ela, que o fator idade não era preponderante na “relação de amor” que eles tinham, que ela era madura pra sua idade na época, que ela o escolheu, como se ela fosse uma adulta, consciente de suas decisões. Enquanto ela busca os porquês de ter sido abandonada e ainda quer reviver o que sentia/sente por ele.

É o retrato de alguém que sofreu abuso físico e psicológico e não tem parâmetros do que é ou não saudável em uma relação. Ele a culpabiliza, como se o fato dela ter sido atraída por ele e seus galanteios o eximisse da responsabilidade de envolver uma criança sexual e psicologicamente. Una interpretada por Rooney Mara é incapaz de compreender os danos que sofreu e Ray, personagem de Ben Mendelsohn permanece se beneficiando do poder que tem sobre ela para manipulá-la.

É angustiante perceber que esse tipo de situação acontece e como ela pode perdurar na vida adulta de quem sofre abuso, afetando seus julgamentos sobre o que é ou não amor, sobre como e quando as relações devem se desenvolver. Os personagens de Rooney e Ben evidenciam o quanto as relações humanas podem ser complexas e controversas de uma forma muito perturbadora.

Título Original: UNA

Lançamento: 13 de abril

Direção: Benedict Andrews

Roteiro: David Harrower
Baseado em na peça “Blackbird

Elenco: Rooney Mara, Ben Mendelsohn, Riz Ahmed

Gênero: Drama

Nacionalidade: Inglaterra – EUA – Canadá

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