Venha conhecer Headway e a cineasta Camila Rizzo


Existe uma teoria de que estamos em média a seis graus de distância de qualquer outra pessoa no mundo. Em tempos de internet e redes sociais, isso pode variar muito. A questão é que essa teoria me veio ao pensar em como fui apresentada ao curta Headway das brasileiras Camila Rizzo (diretora), Bruna Cabral e Ligia Osorio (ambas, produtoras), que está participando de alguns festivais americanos, entre eles o Washington West Film Festival que acontece esse fim de semana por lá.

E por que começar com essa teoria? Porque quem me falou sobre o filme e mediou o contato para essa entrevista foi a Mariana Laviaguerre, que há alguns meses eu também não conhecia. E como eu conheci a Mariana? Através do Léo Francisco que é amigo dela, e como ambos cuidaram da assessoria de imprensa da Expocine desse ano – que ainda vou falar mais sobre o evento – , a ponte estava feita.

E por que eu estou contando tudo isso? Justamente porque o filme mostra como as conexões que fazemos podem transformar as nossas vidas.

Nele temos duas jornadas interiores: a de um menino de onze anos que precisa lidar com as singularidades do autismo, e a de um lutador de MMA que, aos quase quarenta anos, enfrenta o delicado momento da aposentadoria. Ambas as histórias se convergem em um profundo e emocionante encontro tendo o Jiu-Jitsu como ponte nesta relação, e um passa a ser para o outro a saída que precisam para superar suas questões.

Eu comecei o meu papo com a Camila, parabenizando-a – parabéns que se estende ao seu time – pelo trabalho e pelas conquistas que o filme está tendo ao ser selecionado para esses festivais.

 

E prossigo, como vocês bem sabem, conhecendo um pouquinho mais da história pessoal dos entrevistados. Então, vamos ao papo.

Camila, me conte um pouquinho sobre você, e as influências que te despertaram para fazer cinema.

Não tem um diretor específico que me inspire. Me inspiro mais nas obras de diversos diretores diferentes. Como sou jornalista, eu sempre gostei muito de filmes baseados em fatos reais como “À Procura da Felicidade”, o recente “Estrelas Além do Tempo”, filmes biográficos, filmes baseados em acontecimentos específicos como o filme “Spotlight”, “Todos os Homens do Presidente” que fala sobre o caso Watergate…  

Como surgiu o desejo de contar essa história especificamente e como foi o processo de digamos “convencer” os protagonistas – já que é inspirado numa história real – de que a história deles precisava ser contada para mais pessoas, a parte de montar a equipe, escolha de elenco, locações…?

O filme é baseado em 2 personagens reais. Um deles é o meu irmão, Pedro Rizzo, que é ex-lutador de MMA, bicampeão mundial e ex-lutador do UFC. Acompanhei de perto a carreira do meu irmão e vi a dificuldade dele em decidir o momento certo para se aposentar.

Percebi que esse deve ser um conflito que todos os atletas de alto nível devem ter. Passam em torno de 20 anos treinando um esporte intensamente e com 30, 40 anos precisam se aposentar. Muito novos para se aposentarem. Ou seja, quando as outras pessoas estão no auge das suas carreiras, o atleta precisa parar e começar uma nova carreira do zero. Muitas vezes sem ter experiência em outras áreas. Se reinventar. Por isso é difícil aceitar e parar.

O outro personagem é o Igor Nogueira. Eu trabalhava na TV Globo e era editora de texto no programa “Encontro com Fátima Bernardes”. Lá eu conheci a história do Igor Nogueira, atleta baiano autista, que foi personagem do programa, em 2016. Achei a história de superação do Igor, através do Jiu-Jitsu, incrível.

O depoimento da mãe dizendo que durante 16 anos ela não podia tocar e nem abraçar o filho, já que ele não tolerava ser tocado por causa do autismo, me emocionou. E também ver que o esporte foi capaz de mudar não só a vida do Igor, mas da família toda. Hoje, todos da família praticam o Jiu-Jitsu.

 

FOTOS DOS BASTIDORES

Pesquisando sobre o assunto, descobri que existem muitas pessoas com autismo que praticam o Jiu-Jitsu e têm uma melhora absurda. Existem estudos que comprovam o benefício da atividade física para pessoas com autismo. É fisiológico, é real. Achei que precisava contar isso pro mundo.

Entrei em contato com Gabriela Bhering, minha amiga de escola, excelente roteirista, e contei sobre a idéia de juntar os 2 personagens para fazer o curta como conceito para um longa metragem. Ela se apaixonou pela história na hora e começou a pesquisar e a escrever o roteiro. Durante 2 meses intensos, eu aqui nos EUA e Gabriela no Brasil, nos comunicamos e escrevemos 11 versões de roteiro até chegar no roteiro final.

Como uma boa jornalista, pesquisei muito sobre assunto. Li artigos, assisti a vídeos, filmes e séries sobre o assunto, entrevistei especialistas, a mãe do Igor, o professor de Jiu-Jitsu do Igor para entender todo o processo… Tivemos uma especialista em autismo, Natália Madasi, nos orientando desde construção do roteiro até o fim de todo o processo.

Contei também com a ajuda de um professor de Jiu-Jitsu com experiência com pessoas com autismo. Quis me respaldar por todos os lados para ficar o mais crível possível. Um professor de Jiu-Jitsu vai assistir e vai ver o processo de ensino correto, o especialista em autismo vai assistir e vai entender que o menino só fez aquele movimento porque ele passou por outros que o fizeram chegar lá através do Jiu-Jitsu, a pessoa com autismo ou quem tem um familiar com autismo vai se identificar com as dificuldades do personagem e o totalmente leigo vai aprender um pouco sobre esse universo.

Quanto a convencê-los a me deixar a contar essa história… não foi difícil. Eu pedi e eles toparam na hora.

Quanto aos atores, locação e toda produção, contei com duas produtoras super competentes Bruna Cabral e Ligia Osorio. Também brasileiras. Sem elas esse filme não sairia do papel. Bruna me ajudou muito no processo com o elenco, na elaboração do roteiro e ainda assumiu o cargo de assistente de direção. A Ligia cuidou do orçamento e de toda a burocracia americana que não é fácil. Com isso, a gente conseguiu fazer o filme com quase um quinto do valor do orçamento real.

Camila, as 2 produtoras Bruna Cabral e Ligia Osorio e Hayden Currie, que fez o Ben, menino com autismo, emocionados no último dia de gravação.

Os atores principais são americanos, a língua é inglesa, o filme foi produzido nos EUA, mas a equipe é na maioria brasileira, os personagens reais são brasileiros e boa parte da equipe é composta por mulheres, incluindo os cargos de direção, roteiro, produção, edição… Isso não foi pensado. Aconteceu naturalmente.

E e eu não poderia deixar de perguntar, quais as principais diferenças você sente em fazer audiovisual fora do Brasil e por que decidiu gravar tudo aí, mesmo sendo um roteiro baseado na história de dois brasileiros?

Eu trabalhei com televisão durante 13 anos no Brasil. Comecei em telejornal e depois de 3 anos migrei pro entretenimento, onde trabalhei na pós produção de novelas e séries na TV Globo (2007-2011).

Me apaixonei por direção. Abri minha produtora e dirigi meus projetos. Em 2014 voltei pro jornalismo de entretenimento na TV Globo (“Mais Você” e “Encontro com Fátima Bernardes”). Em 2016, resolvi realizar um dos meus sonhos e vim pros EUA fazer uma pós em direção de cinema na UCLA (University of California Los Angeles).

A tese do curso é um curta-metragem. Com isso, a UCLA me deu uma carta comprovando que eu estava fazendo um projeto tese pra universidade e por isso conseguimos muitos descontos. Aqui em Los Angeles, tem profissionais incríveis, super experientes do mundo inteiro em busca de um lugar ao sol em Hollywood.

Então, tem muita mão de obra de boa qualidade, barata ou até mesmo de graça se eles acreditam no projeto e que o mesmo pode ser bom pro portfólio. Eu acho que não conseguiria rodar no Brasil, um filme como o Headway com o orçamento que eu rodei aqui.

Os protagonistas assistiram ao filme finalizado? Como foram as reações, o que comentaram com você?

Os atores estão encantados com o resultado final do filme. Já estão me cobrando cópia pra colocar no currículo. Hahaha… Mas ainda não posso dar por causa dos festivais. Preciso esperar a temporada de festivais para liberar.

Quanto aos personagens reais, meu irmão já assistiu e se emocionou bastante. Para o Igor e para a família dele, devo liberar amanhã, pois terminei a legenda hoje. Estou ansiosa pra saber a opinião deles.

O filme foi selecionado para alguns festivais nos EUA. Você também o inscreveu  para algum festival brasileiro? Se sim, pode contar quais e por que especificamente esses?

O Headway ficou pronto em julho desse ano, ou seja muito em cima do prazo da inscrição final de muitos festivais e além disso é considerado um curta longo, pois tem 22 minutos, e é mais difícil de encaixar nas programações dos festivais em geral.

O Festival do Rio, por exemplo, só aceita curtas até 15 minutos, o Festival de Gramado só aceita curtas brasileiros… cheguei a colocar no Festival de Curtas do Rio de Janeiro, mas foi muito em cima do prazo final de inscrição.

Recebi um feedback do festival elogiando bastante o filme, mas acabou ficando de fora. Então, por enquanto eu tô focando nos festivais aqui fora. Mas assim que der, eu tento inscrever em festivais no Brasil de novo.

Considerando todas as questões da mulher em debate atualmente, como é para você conseguir fazer cinema com uma equipe em que as posições de lideranças são femininas, começando por você na direção? E quais iniciativas você tem tomado para incentivar outras mulheres no mercado audiovisual?

Aqui nos EUA, o crescimento feminino no mercado audiovisual é um movimento muito sério. Cada vez mais surgem festivais, palestras, workshops, grupos para filmmakers mulheres e muitas celebridades estão apoiando o movimento.

O “Headway” foi selecionado para um festival muito prestigiado, aqui em Los Angeles, voltado para filmmakers mulheres, o LA Femme Film Festival que aconteceu há 2 semanas. Lá, por exemplo, tive a oportunidade de conhecer e conversar com o ator James Tupper, conhecido pelo papel de David Clarke na série Revenge.

Eu conheço excelentes profissionais mulheres aqui e não foi à toa que boa parte da equipe do “Headway” é feminina. Mas aconteceu naturalmente, não foquei na questão da equipe feminina com exceção de 2 cargos.

FOTOS DE BASTIDORES

Apesar do “Headway” abordar um universo ainda muito masculino como o MMA e o Jiu-Jitsu, o filme é sensível, a gente está falando de relação entre o tio e o sobrinho com autismo.

A primeira pessoa que chamei para me ajudar no roteiro, foi um roteirista americano. Contei toda a história, dei umas idéias de cenas e ele me mandou a primeira versão do roteiro. O filme estava frio, zero emocionante.

Foi aí que eu pensei: preciso de uma mulher pra me ajudar a dar a sensibilidade que o filme precisa, tem que ser brasileira e uma mulher forte, pra que não passe do ponto e fique piegas. Foi aí que entrou a Gabriela Bhering. E a editora, Juliana Neves, foi exatamente o mesmo pensamento para a montagem do filme.

Após os festivais, você já tem alguma plataforma de streaming por exemplo que irá disponibilizar o filme para o grande público, mesmo sabendo que talvez os curtas não tenham muito espaço ou vida longe dos festivais?

Ainda não. O filme ficou pronto há 3 meses e ainda não conseguimos focar na parte de distribuição. Estamos focadas nos festivais e tentar também o market dos festivais que é onde muitos projetos são vendidos. Mesmo com o filme pronto há pouco tempo, já temos interessados em fazer o longa. Mas gostaria de conseguir exibir o curta em algum lugar para o público assistir depois da temporada de festivais como Netflix, Amazon, Itunes, Canal Brasil, Short TV…

E para você, que já possui outros curtas, e considerando a pergunta anterior, qual é a importância dos curtas para o mercado audiovisual?

Nos EUA, o curta está ganhando espaço no mercado. O curta-metragem virou uma forma de vender o conceito para o longa-metragem, como aconteceu com o Whiplash, por exemplo, que foi lançado como um curta-metragem em 2013 e depois foi produzido como um longa metragem e indicado ao Oscar em 2015.

No LA Femme Film Festival, eu estava conversando com a fundadora do festival e ela me contou que teve uma moça que venceu o festival na categoria de curta-metragem, conseguiu investidores para o longa fazendo networking ali mesmo, rodou o longa e hoje o filme é exibido em canais da TV a cabo aqui nos EUA.

Fora isso, com o avanço dos streamings, da internet, os curtas estão ganhando espaço para serem exibidos. Ainda não é muito lucrativo por si só, mas te ajuda a alavancar projetos ou até mesmo a carreira.

Headway tem a possibilidade de se transformar num longa futuramente, ou você ainda não pensou sobre isso? (Camila já tinha mencionado em uma resposta anterior sobre a possibilidade de um longa, porém eu enviei todas as perguntas juntas para a Camila, responder e é por isso que essa parece redundante agora. Em todo caso aqui ela expõe mais claramente o que pensa para o projeto.)

O Headway é um conceito para se transformar em um longa ou até mesmo uma série de TV. Eu tenho os 2 formatos na cabeça. É uma história com 2 personagens muito ricos e ainda tem muita coisa pra contar sobre eles.

Espero que tenham gostado e nos encontramos em breve com novas entrevistas para vocês.

Meu muito obrigada a Mariana pelo help e a Camila pela disponibilidade e abertura para falar comigo.

Sucesso para o filme!

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