The Breakdown

Data de lançamento 6 de junho de 2019 (1h 54min) Direção: Simon Kinberg Elenco: Sophie Turner, James McAvoy, Michael Fassbender mais Gêneros Aventura, Ficção científica Nacionalidade EUA
7.0

Quando o primeiro X-Men chegou aos cinemas quase 20 anos atrás, dando início à uma nova fase na forma de fazer filmes de heróis que culminaria no fenômeno e evento cinematográfico chamado Vingadores, ninguém imaginou que heróis usando roupas de couro e defendendo minorias teriam uma vida tão longa e se tornariam uma das franquias mais amadas do cinema. Com sete filmes e alguns spin-offs, os pupilos de Charles Xavier encerram sua saga cinematográfica em um unverso próprio com a chegada de “X-Men: Fênix Negra” aos cinemas, já que agora os mutantes fazem parte da Disney e devem ser inseridos no Universo Cinematográfico da Marvel Studios com um novo reboot.

A história desse capítulo final é baseada na Saga da Fênix Negra, um dos arcos mais famosos e icônicos dos heróis nos quadrinhos e que já havia servido de base para o decepcionante e irregular “X-Men: O Confronto Final” em 2006. Dessa vez, encontramos os mutantes 10 anos após os acontecimentos de “X-Men: Apocalipse” (2016), muito mais seguros de seus papéis no mundo e com o apoio direto do presidente dos Estados Unidos. Durante uma missão de resgate espacial, Jean Grey (Sophie Turner) entra em contato e absorve uma poderosa entidade cósmica, se tornando o ser mais poderoso da galáxia. Porém, tamanha força traz à tona antigos fantasmas do passado que estavam presos em sua mente desde pequena graças ao bloqueio mental criado pelo Professor Xavier (James McAvoy). Perturbada por seus próprios demônios internos, Jean se torna instável e aos poucos começa a perder o controle do seu próprio poder, trazendo consequências graves para os X-Men. Enquanto isso, uma misteriosa raça alienígena chega à Terra em busca do poder contido na mutante com o objetivo de dominar a Terra e conquistar o universo.

O principal acerto desse filme é criar um desenvolvimento mais sólido para Jean Grey do que foi feito no filme de 2006. A personagem é aprofundada e seus problemas psicológicos são mais palpáveis. Conhecemos mais à fundo seu passado e traumas de infância que moldaram a personagem durante todo o tempo. Tal construção é importante e louvável, levando em conta que a personagem só foi introduzida nessa nova linha temporal de forma bem superficial durante o último filme da franquia. Turner entrega uma atuação muito segura, indo de momentos leves à momentos de raiva, dor e ressentimento com muita propriedade. Sua Fênix é visualmente mais poderosa e ameaçadora, mas também é muito mais humana do que a Fênix monossilábica e incontrolável interpretada por Famke Janssen anteriormente na saga.

James McAvoy também se destaca mantendo o nível de qualidade na interpretação do Professor Xavier e trazendo para o personagem uma faceta menos paternal e mais egocêntrica e passível de erros. Em contrapartida, Michael Fassbender retorna ao papel de Magneto de uma forma mais pacífica e amistosa do que nos filmes anteriores, mesmo aparecendo apenas a partir do segundo ato da história.

Jennifer Lawrence está no modo automático e mantém o nível de atuação apresentado nos filmes anteriores para interpretar uma Mística que deveria ter sido construída como nova líder dos mutantes, mas que foi prejudicada pelo desgaste do papel na visão de Lawrence, que já havia demonstrado desinteresse em continuar na franquia. Apesar disso, sua personagem tem momentos interessantes e marcantes nesse filme, mantendo à tradição da franquia de defender causas sociais e discussões políticas, ao apresentar um forte discurso feminista e empoderador.

Enquanto os principais protagonistas recebem destaque, o roteiro peca em rebaixar para o papel de meros coadjuvantes o restante dos X-Men. Personagens como Tempestade (Alexandra Shipp), Noturno (Kodi Smith-McPhee) e Mercúrio (Evan Peters) não ganham nenhum desenvolvimento expressivo na trama, servindo apenas como atrações para abrilhantar as poucas cenas de ação do filme (Mercúrio tem apenas poucos minutos de cena, um desperdício para um personagem tão marcante nas tramas dos filmes anteriores da franquia).

Ciclope (Tye Sheridan) e Fera (Nicholas Hoult) são os únicos entre os coadjuvantes que tentam se destacar, mais como apoios para Jean e Mística do que por um mérito próprio. O maior desperdício do roteiro, no entanto, é a personagem de Jessica Chastain, que apresenta uma vilã de enorme potencial (principalmente por ser interpretada por uma atriz de tanto talento), mas que acaba caindo na caricatura e no clichê de tantos vilões com motivação e caracterização parecidos.

Escrito e dirigido por Simon Kinberg, o filme tem pouquíssimos momentos cômicos e leves, seguindo um pouco o tom usado para “Logan” (2017), onde o universo dos X-Men é retratado de uma forma mais pesada, densa e dramática. Isso faz sentido, levando em conta o fato de que a trama lida com situações extremas, perdas e é apresentada como o capítulo final da franquia. Simon apresenta uma direção sem muitas inovações e que se mantém na zona de conforto no que diz respeito às cenas de ação, mas que mesmo assim possui seus destaques, como a sequência inicial no espaço e o pré-clímax na batalha do trem. Mesmo assim, a impressão que fica é que faltou grandiosidade para o que deveria ser a grande conclusão de uma franquia tão importante e a adaptação mais fiel até o momento de um dos arcos narrativos mais icônicos dos X-Men.

A despedida dos mutantes e de toda sua saga chega aos cinemas com um clima agridoce, deixando a impressão de que faltou alguma coisa e que o filme tinha potencial para ser muito mais. A obra destoa dos seus anteriores por ser menos épico e menos alinhado com a forma como o universo dos X-Men foi construído ao longo de quase 20 anos. Apesar de ser um filme relativamente redondo e medianamente divertido de assistir, é impossível não pensar no potencial que ele tinha antes de sofrer com tantos problemas como a compra da Fox pela Disney, as mudanças de roteiro e regravações (o clímax, por exemplo, aconteceria no espaço), e, principalmente, o fato de que esse não seria o capítulo final da franquia e, portanto, o filme não foi pensado inicialmente como uma grande conclusão para a mesma.

Agora, só nos resta esperar para ver como os X-Men serão inseridos no universo compartilhado da Marvel, se eles finalmente irão conseguir achar o tom correto para seguir contando as histórias desses mutantes tão amados pela cultura pop moderna e se algum dia teremos uma adaptação da saga da Fênix Negra que realmente faça justiça à personagem e à grandiosidade da obra original nos quadrinhos.